Nosso Lar: Revelação Espiritual????

Nosso Lar: Revelação Espiritual????

Nosso Lar: Revelação Espiritual????

Por Sergio Viula
Escrito originalmente para o blog Fora do Armário
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Uma das perspectivas da cidade chamada ‘Nosso Lar’. Spielberg imaginaria melhor…
Semana passada fui assistir o comentadíssimo filme Nosso Lar. Mais de 2 milhões de expectadores já assistiram o filme. O filme é baseado no livro ‘psicografado’ por Chico Xavier, supostamente sob a orientação espiritual do defunto André Luiz. O objetivo do tal espírito era revelar como é a vida depois da morte.
O filme começa com as chocantes cenas de sofrimento dos espíritos ‘desencarnados’ no umbral, um lugar semelhante ao purgatório católico, no qual os desencarnados se preparam para entrarem na cidade espiritual, onde tudo lembra o projeto do famoso arquiteto e ateu Oscar Niemeyer para Brasília.

A cidade chamada ‘Nosso Lar’ tem esplanada dos ministérios e tudo: ministério da comunicação, ministério da reencarnação, etc.

A cidade tem governador!!! Para os que pensavam que teriam descanso, uma má notícia: as pessoas têm que trabalhar para merecer fazer qualquer coisa na cidade. Puta que pariu! Nem morto, o desgraçado deixa de trabalhar e ter chefia em cima dele… E tem mais: se quiser mandar alguma mensagem para parentes ou amigos na terra, vai precisar acumular créditos (parece até o sistema de milhas dos cartões de crédito e das empresas aéreas). E esses créditos são acumulados através do trabalho, e quanto mais servil for o defunto trabalhador, melhor. Todavia, esse defunto vai precisar ter um médium preparado na terra para receber as tais mensagens.

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O umbral que parece assustador no começo acaba parecendo um misto de Moulin Rouge e Thriller 😉
O defunto André Luiz tinha o Chico! Que conveniente!!! Depois de trabalhar muito para poder escrever bastante, o pobre coitado foi capaz de escrever um livro. E qual era o nome do livro?  Isso mesmo: Nosso Lar!!! Ou seja, André Luiz escreveu, Chico Xavier psicografou, e todo mundo ficou feliz. O André Luiz tornou o Chico mais crível para os crédulos e o Chico tornou o André Luiz mais famoso depois de morto do que quando era supostamente médico em sua assim chamada ‘vida terrena’.
Além de todos os absurdos plagiados do catolicismo e de outras crenças (nada é realmente novo na doutrina espírita), o filme procura levar a audiência àquela postura de resignação diante da vida: Se você sofre, é porque escolheu sofrer. Tudo o que supostamente acontece em sua atual ‘encarnação’  você escolheu passar antes de reencarnar, isto é, quando ainda estava naquele lugar que eles chamam de ‘Nosso Lar’.

É uma tentativa de dar propósito a tudo o que se passa na vida de um ser humano, por mais absurdo e detestável que seja.

Muita gente, por causa disso, acaba se acomodando e ficando até grata aos seus algozes, como se cada chibatada da vida fosse uma ‘bênção’ com o propósito de levá-lo a um patamar mais elevado na dita evolução espiritual. Isso quer dizer, em última análise, que os negros da era das navegações portuguesas, espanholas, inglesas, francesas e holandesas escolheram ser escravizados; os judeus escolheram morrer nas câmaras de gás dos nazistas; as mulheres perseguidas e mortas pela igreja católica na Idade Média, e as mulheres perseguidas atualmente no mundo islâmico, escolheram esse sofrimento. E por aí vai…

E não interessa se você aguarda o céu católico, o céu muçulmano, o nirvana budista, a união com os deuses hindus, ou qualquer outra forma de existência ou não-existência pós-vida, todos vão acabar no umbral e depois entrar no ‘Nosso Lar’. O espiritismo é a verdade final e inevitável, de acordo com os próprios espíritas e seus defuntos falantes.

No livro e no filme, os tais espíritos do ‘Nosso Lar’ vivem criticando a ciência e o ceticismo. Colocam sempre o cientista e o cético como idiotas, mas os espíritas não poupam esforços para vincular o espiritismo à ciência, tentando dar ao espiritismo uma aura de credibilidade. Então, quem é que realmente tem credibilidade – o espiritismo ou a ciência que ele tanto critica, mas a quem recorre em busca de status?

Não é a ciência que tenta se apresentar como digna de confiança com base no espiritismo, mas o espiritismo que tenta se apresentar como digno de confiança com base na ciência. Pegue qualquer jornal espírita e você vai encontrar essa relação em diversas matérias publicadas por eles.

O livro e o filme são, a meu ver, ridículos sob todos os pontos de vista, exceto- no caso do filme – pelos efeitos especiais, que são excelentes para um filme desse gênero.

Tem muita gente interessada em tornar Chico Xavier numa espécie de ‘padroeiro’ do espiritismo brasileiro. Não faltam filmes recentes sobre ele e seus escritos. No entanto, Chico Xavier foi apenas mais um religioso descontente consigo mesmo e com a vida, que projetou a felicidade que ele mesmo não construiu aqui para mundos além.

Toda pessoa que espera atingir a felicidade ou a perfeição (outro mito) em além-mundos é um pessimista no sentido mais estrito do termo, e só deixa de ser percebido como tal, porque utiliza como álibi deuses, espíritos, anjos, ou semelhantes. O espiritismo não é exceção, e  Chico Xavier apenas distribuiu tranquilizantes existenciais no formato das cartas que ele mesmo (quem pode provar???) alegava psicografar.

Gente desesperada por acreditar aceita qualquer resposta que venha de encontro aos seus anseios. Eu, pessoalmente, prefiro o realismo nu da vida aos embustes de gente que se diz detentora de alguma revelação espiritual, mas que encontra-se, na verdade, muito mais assustada do que eu frente aos desafios da vida e à certeza da morte.

A vida é bela, mesmo sendo dura, e não adianta adiar a felicidade para pós-mundos, mundos-além. Quem não viver intensa e felizmente agora, jamais viverá de fato. E eu digo isso por não ter motivo algum para aceitar outra coisa além dessa.

Nenhuma religião ou suposto representante de deus, deuses ou espíritos JAMAIS apresentou-me prova cabal da existência de além-mundos. A fé demonstrada por pessoas como as que eu vi chorar vendo um filme ou lendo um livro ridículo como ‘Nosso Lar’ não dá nem pra saída.

Escrito por Sergio Viula para o blog Fora do Armário 

De onde vem essa história de que a carne é fraca?

De onde vem essa história de que a carne é fraca?

 

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A prisão de Cristo (1598), Caravaggio

 

Por Sergio Viula 

Originalmente publicado no foradoarmario.net

De onde vem essa história de que a carne é fraca?

Diversos fatores passíveis de exame crítico/histórico podem servir de plataforma para explicar como a morte de um homem que nasceu num dos lugares mais distantes do centro de poder da época (Roma), viveu numa região das mais pobres (Nazaré), e veio a se tornar um ícone tão poderoso e mobilizador de tanta energia mental em tantas partes do mundo ao mesmo tempo.

Basta que chegue uma data como a semana santa ou o natal para que vejamos a força que essa tradição exerce até sobre aqueles que vivem o ano inteiro como se ela fosse tão importante quanto qualquer outra crença: de seres fantásticos integrados e dependentes da floresta até um deus acima de tudo e todos, que não depende de nada para ser.

É interessante ver como tanta gente que se deleita com um bom churrasco, seja de carne de frango, de gado bovino ou suíno, ou alguma de origem mais exótica, é capaz de deixar tudo isso de lado para comer peixe e frutos do mar, sem sequer estabelecer qualquer conexão necessária entre isso e a morte de Jesus.

Dizer que isso é feito em respeito ao corpo torturado de Cristo não parece ser uma boa razão, visto que nas próprias escrituras cristãs não há qualquer passagem que sugira tal coisa.

Bem, para mim isso não é problema, porque há três anos parei de comer carne, exceto pelo peixe. Então, comer peixe hoje ou no carnaval não é nada que fuja da minha rotina.

Mas, não é dessa carne que eu quero falar. O que quero pensar aqui é de onde as pessoas tiraram essa contraposição entre a ” carne” e o “espírito”.

Quando algum cristão (ou seu mímico sem qualquer vínculo com a fé no nazareno) pensa que a “carne é fraca”, ele geralmente tem em mente o corpo decaído. Decaído, porque em Adão todos caíram, conforme apregoa a maioria das teologias cristãs. Assim, o corpo já nasce contaminado pelo pecado e com uma tendência intrínseca para pecar sempre, devendo, portanto, ser meticulosamente cerceado. Daí, as dietas religiosas, as indumentárias da santidade, o controle do sexo, entre outras técnicas de repressão e condicionamento.

Como supostamente disseram Paulo e Tiago, respectivamente, nas passagens abaixo, o corpo deve ser subjugado:

Antes subjugo o meu corpo, e o reduzo à servidão, para que, pregando aos outros, eu mesmo não venha de alguma maneira a ficar reprovado. 1 Coríntios 9:27

Porque todos tropeçamos em muitas coisas. Se alguém não tropeça em palavra, o tal é perfeito, e poderoso para também refrear todo o corpo. Tiago 3:2

Não é de admirar que os castigos corporais e restrições aos prazeres mais banais façam parte do imaginário e da prática da cristandade. As orações prolongadas em jejum, as vigílias, as penitências, a autoflagelação e outras formas mais agressivas de subjugação (só que não subjugam coisa alguma) são algumas dessas “técnicas”.

Contudo, o convento, o mosteiro, as sacristias, os gabinetes pastorais, e outros ambientes onde o controle do corpo é uma neurose constante negam a eficácia dessas “técnicas” repressivas. Há coisas que acontecem ali que fariam as/os profissionais do sexo duvidarem de seus próprios olhos se pudessem vê-las.

Na verdade, não haveria razão para reprovar a maioria desses “atos pecaminosos”, caso fossem experiências vivenciadas por outros que não os mesmos que as condenam na vida alheia. De fato, não fosse a pedofilia, tão comum nesses ambientes, as outras relações seriam absolutamente inofensivas em quaisquer outros contextos, fosse o relacionamento entre homens e mulheres, o relacionamento entre homens e homens, ou o relacionamento entre mulheres em mulheres. Só que essas experiências corporais ganham contornos bem diferentes quando desfrutadas por padres, freiras, pastores e pastoras. E por que isso? Justamente porque esses clérigos e essas “noivas de Cristo” são a representação de toda essa repressão supostamente justificada por uma busca de santidade, mas que é – ela sim – absolutamente contra a natureza. O antagonismo se revela em pares: céu x terra, corpo x alma, santidade x prazer, e por aí vai.

Mas o pior é sempre a repetição irrefletida, desprovida de crítica, e de averiguação. E um dos chavões mais repetidos entre os cristãos e – de novo – seus mímicos é: “a carne é fraca”. Este, porém, dificilmente é usado por quem acusa. Trata-se de um recurso para quem se defende ou para quem tenta justificar o “erro” de alguém que lhe interessa de modo mais especial do que o restante da humanidade.

Entretanto, essa frase atribuída a Jesus nunca foi usada nesse sentido, nem no contexto de pecado, nem com ideia de que o “corpo do pecado” é mais forte do que alma. A contraposição que Jesus faz é bem outra. Veja a passagem (grifos meus):

36 ¶ Então chegou Jesus com eles a um lugar chamado Getsêmani, e disse a seus discípulos: Assentai-vos aqui, enquanto vou além orar.

37 E, levando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se muito.

38 Então lhes disse: A minha alma está cheia de tristeza até a morte; ficai aqui, e velai comigo.

39 E, indo um pouco mais para diante, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e dizendo: Meu Pai, se é possível, passe de mim este cálice; todavia, não seja como eu quero, mas como tu queres.

40 E, voltando para os seus discípulos, achou-os adormecidos; e disse a Pedro: Então nem uma hora pudeste velar comigo?

41 Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; na verdade, o espírito está pronto, mas a carne é fraca.

42 E, indo segunda vez, orou, dizendo: Pai meu, se este cálice não pode passar de mim sem eu o beber, faça-se a tua vontade.

43 E, voltando, achou-os outra vez adormecidos; porque os seus olhos estavam pesados.

44 E, deixando-os de novo, foi orar pela terceira vez, dizendo as mesmas palavras.

45 Então chegou junto dos seus discípulos, e disse-lhes: Dormi agora, e repousai; eis que é chegada a hora, e o Filho do homem será entregue nas mãos dos pecadores.

(Mateus 26:36-45)

Qual foi a intenção de Jesus com essa fala, então? Foi simplesmente a de reconhecer que os três discípulos que ele havia levado para um ponto mais retirado do Getsêmani, a fim de que vigiassem e orassem, enquanto ele se afastava para orar sozinho, estavam dispostos (o espírito está pronto), mas não conseguiam se manter acordados (a carne é fraca), devido ao cansaço resultante das jornadas dos dias anteriores e das emoções que precederam sua prisão ali mesmo naquele horto. Ele chegou a reprovar Pedro por não ter conseguido ficar uma hora sequer velando com ele – o mesmo Pedro que teria dito ser capaz de morrer por ele, mas nunca nega-lo.

O significado dessa fala, se parafraseada, seria o seguinte:

Eu sei que vocês estão dispostos, não é por mal que vocês pegaram no sono, mas porque o corpo não aguenta mais em pé. Então, durmam, porque não fará diferença. Serei entregue de qualquer modo nas mãos dos que me odeiam.”

Isso nada tem a ver com pênis, vagina, boca, ânus, seios, peitos, pelos, pele, orgasmo, ejaculação, ereção, contrações vaginais ou anais, e por aí vai. A ideia de associar a fala de que “a carne é fraca” às relações sexuais e ao erotismo do corpo humano, do qual a mente também é produto, vem de outro momento: vem dos apóstolos metidos a tradutores do pensamento de Jesus, os quais disseram, em suas cartas, coisas que ele nunca disse em seus sermões e conversas íntimas com os discípulos.

Posteriormente, Santo Agostinho, querendo aproximar a teologia católica da filosofia grega, criando um híbrido perigoso, falou de sua própria juventude como um tempo de satisfação da “carne”, reforçando a ideia de que o corpo é desprezível e que tudo o que vem dele condenável. Ele reduz o homem a uma entidade espiritual, condenada a um invólucro que o arrasta para baixo (mais baixo do que o animal), mas tudo isso não  passa de uma manobra realizada por uma consciência adoecida por culpas que ela mesma inventou para si. Agostinho, bem como alguns de seus antecessores e muitos de seus contemporâneos, padeciam dessa neurose que faz desprezar o corpo e incensar a alma.

Que coisa me deleitava senão amar e ser amado? Mas, nas relações de alma para alma, não me continha a moderação, conforme o limite luminoso da amizade, visto que, da lodosa concupiscência da minha carne e do borbulhar da juventude, escalavam se vapores que me enevoaram e ofuscaram o coração, a ponto não se distinguir o amor sereno do prazer tenebroso. (SANTO AGOSTINHO. Confissões. São Paulo: Nova Cultural, 2000. [Coleção Os Pensadores].2000, p. 63-64)

E não apenas na juventude, mas ele lamentava que suas concupiscências continuavam e continuaram atormentando sua “alma”, enquanto ele não morresse. A linguagem é rebuscada, mas é exatamente isso que ele diz:

[…] concluiremos, assim, as tentações da concupiscência da carne, que ainda me perseguem, fazendo-me gemer e desejar ser revestido pelo nosso tabernáculo que é o céu. Os olhos amam a beleza e a variedade das formas, o brilho e amenidade das cores. Oxalá que tais atrativos não me acorrentassem a alma! (SANTO AGOSTINHO. Confissões. São Paulo: Nova Cultural, 2000. [Coleção Os Pensadores].2000, p. 294)

Essa ideia de que a alma é superior ao corpo é uma reedição adaptada do platonismo. Para Platão, o mundo sensível era inferior ao mundo ideal (o mundo das ideias). Agostinho vai buscar essa premissa platônica para construir sua “antropologia teológica”. O céu é superior a terra, a alma é superior ao corpo, e Deus é o supremo bem – coisa que Platão nunca sonhou em dizer. Até porque os gregos nunca deixaram de usufruir dos prazeres que o corpo podia proporcionar: a degustação de bom vinho, boa comida, a camaradagem entre homens (o que incluía o relacionamento sexual), o conhecimento do mundo e de seu funcionamento como uma atividade emancipadora e por aí vai. Agostinho e Tomás de Aquino conseguiram perverter isso. O primeiro o fez com o platonismo, e o segundo, com o aristotelismo.

Para quem tem deficiência auditiva ou prefere ler em vez de ouvir, sugiro esse vídeo. O conteúdo é semelhante ao de cima:

Não admira que ainda haja tanta gente coxeando entre o pensamento de ser feliz e o pensamento de ser obediente, mas obediente a quem? Obediente a neuróticos que ganharam renome com o tempo? Obediente a escrituras absolutamente questionáveis sob diversos aspectos? Obediente a homens e mulheres borrados de óleo e que portam chapéus engraçados ou vestimentas espalhafatosas? Obediente a ideias de “santidade” que nada mais são do que a negação de tudo o que é natural, prazeroso, tudo o que fomenta nossa criatividade, alegria e potencial para ser e para fazer feliz?

Não é exatamente essa obediência que se constitui a plataforma de todo o tipo de fundamentalismo? Não é dessa repressão que se faz toda sublimação que põe tanta gente a trabalhar incansavelmente por recompensas pós-mundanas? E quem ganha com isso? Os administradores dos dividendos da fé, é claro. Toda a riqueza das religiões que trabalham com essa “lógica” é incomensurável – da Basílica de São Pedro (no Vaticano) até a mais simples capelinha da mais nova igreja fundada por aquele pastor ex-traficante, que mal sabe escrever, ali na esquina.

Qual é a moral dessa história, então?

É preciso libertar-se dos fantasmas que têm assombrado o mundo, graças a um considerável número de homens e mulheres, mas principalmente homens, sexualmente mal resolvidos e dominados por ressentimentos contra a humanidade, contra o mundo, e contra tudo o que diga respeito às incríveis possibilidades, bem como as inegáveis limitações, de nossa existência.

Abandonemos ideias como recompensas ou castigos pós-mundanos ou intra-mundanos promovidos por uma divindade ou lei estabelecida por uma força ou entidade superior aos seres humanos.

Desprezemos completamente o discurso dos desprezadores do corpo.

Como dizia Nietzsche no preâmbulo de seu Assim falou Zaratustra:

“Exorto-vos, irmãos meu, a permanecer fiéis à terra e a não acreditar naqueles que vos falam de esperanças supra-terrestres. São envenenadores, quer o saibam ou não. São menosprezadores da vida, moribundos que estão, por sua vez, envenenados, seres de quem a terra encontra-se fatigada; vão-se de uma vez.”

O mais irônico é que os desprezadores do corpo não compreendem que a mente doentia que nega sua própria corporalidade continua sendo projeção desse mesmo corpo. Por mais que acreditem que possam se emancipar do corpo, nunca deixarão de ser corpo e de viver de acordo com aquilo que ele mesmo projeta, mesmo quando o negam. O corpo é a origem de tudo o que somos, pensamos e sentimos, inclusive aquilo a que chamamos de “mente” e aquilo a que chamamos de “ego”.

Os desprezadores viverão reprovando o corpo e negando seu potencial erótico/criativo, mas não sobreviverão à própria morte para descobrir que perderam tempo precioso e irrecuperável. Isso é lamentável, obviamente, mas uma coisa é fantástica: podemos viver nossa corporalidade, ou seja, não precisamos seguir o rebanho de corte pastoreado por aqueles que vivem de suas mortes, podemos viver intensa e plenamente a despeito deles. Vivamos, então, sem qualquer restrição que não apenas a de vivenciar nossos prazeres com aqueles que espontânea e consensualmente desejam a mesma coisa.

Nada mais é necessário.

“A única coisa que nos liga como ateus é o ateísmo” – Sério?

“A única coisa que nos liga como ateus é o ateísmo” – Sério?
Por Sergio Viula

 

“A única coisa que nos liga como ateus é o ateísmo” – Sério?

Vez por outra, ouço algum ateu dizer que a única coisa que nos liga uns aos outros, como ateus, é o ateísmo que nos é comum. Mas será mesmo? Será que basta que alguém me diga que é ateu para que eu já me considere irmanado com ele?

Não penso assim. Explico por quê:

Esse é um pensamento tão sectarista quanto o de qualquer fundamentalista, visto que segue a mesma linha daquele mantra que diz “irmão vota em irmão”, não importando o que o “irmão” candidato está propondo ou como sua agenda afeta o “irmão” eleitor ou a sociedade como um todo.

Outra semelhança desse pensamento de que “basta ser ateu” com o pensamento de vários fundamentalistas é a ideia de que basta professar uma certa fórmula para que, automaticamente, sejamos uma comunidade. Não é verdade.

Por exemplo, a fórmula “creio em Deus Pai, todo poderoso, criador dos céus e da terra…” seria o mínimo que um cristão deveria professar para estar irmanado a todos os outros que, por dizerem o mesmo, são considerados cristãos como ele. Mas, na verdade, não basta. E a prova de que não basta dizer isso para ser considerado um cristão de fato, e que não basta ser cristão para ser bom é tem uma penca de católicos, evangélicos, adventistas, etc. praticando todo tipo de crime, abuso e violação por aí.

Do mesmo modo, não basta que alguém me diga que deuses não existem para que essa pessoa já desfrute de minha confiança e parceria. Se o ateísmo professado por esse indivíduo não resulta em mudanças com consequências pragmáticas que desvinculem essa pessoa dos “mantras” repetidos à exaustão por religiosos, sejam eles fundamentalistas ou não, então, esse indivíduo não me impressiona e nem se liga imediata e necessariamente a mim em função de sua não-crença. Em outras palavras, sua não crença não nos torna mais próximos do que seríamos se ele ainda cresse em alguma divindade.

Se um ateu continua alimentando crenças infundadas sobre como deve funcionar a vida, a sociedade e o indivíduo, como se o Gênesis ainda fosse uma cartilha que lhe diga como agir ou reagir, mesmo que ele tenha riscado todas as referências à divindade de seu código de ética, ele não é melhor do que um crente fundamentalista no que diz respeito ao seu modus operandi e a seu modus vivendi.

Dizer que deus não existe não faz a menor diferença se eu não faço um sério e profundo inventário de tudo o que eu herdei do meio social baseado nessa crença ou de tudo o que eu mesmo produzi a partir dessas interações culturais.

Que diferença faz se quem acende a fogueira é um ateu ou um católico?

Que diferença faz se o iconoclasta é um protestante ou um ateu?

Ou se o ditador é um católico como o Papa Leão X, que instituiu a Inquisição, ou um ateu como Stalin, que dominou a sociedade soviética ao custo de milhões de vidas?

Qual é a diferença entre um muçulmano que diz que a mulher é propriedade do homem e deve obedecê-lo, podendo ser punida pelo marido com castigos físicos (verdadeiras torturas), e um ateu machista que acha que a mulher existe para servi-lo?

Qual é a diferença entre um cristão que diz que a mulher foi feita para o homem, e qualquer outra relação amorosa é contra a natureza, e um ateu que diz que a homossexualidade é antinatural, apesar de todas as evidências em contrário em todos os ecossistemas e em todas as civilizações ao longo da história?

Qual é a diferença entre um muçulmano que mata em praça pública porque Alá faz justiça e um ateu que diz que bandido bom é bandido morto, repetindo o mantra bolsonariano? Vale lembrar que Bolsonaro e seus filhos assumem que são evangélicos, e o são de um modo que envergonha muitos evangélicos, que não lhes dão a destra de comunhão.

Qual é a diferença entre uma religião totalitária que dita como devem viver as pessoas em relação às suas liberdades individuais, criando polêmicas sobre coisas que não dizem respeito a mais ninguém, exceto aos próprios indivíduos que reivindicam essas liberdades, e um ateu que esculhamba qualquer um que não se encaixa em seu mundinho quadrado, herdado dessas mesmas religiões, e que ele nem percebe que são resquícios das mesmas em sua mente, apesar dele já ter riscado a figura de deus do meio de furdunço ideológico. É como a ressaca que atormenta, mesmo depois do alcoolizado ter jogado a garrafa fora.

Não basta ser ateu! É preciso rever TODOS os conceitos baseados em crenças e mitos perpetrados pela religião e outras ideologias geradas e paridas por elas.

É preciso desenvolver a capacidade de pensar racionalmente. Mas não só isso. É preciso pensar com um RAZÃO BEM INFORMADA.

Por isso, nem todo que me diz “não há deus” estará, necessariamente, irmanado comigo em função dessa fórmula papagaiada sem maior aprofundamento.

Por outro lado, há muitos religiosos que, apesar de crerem em deuses, estarão muito mais próximos de mim porque estão muito mais próximos do secularismo de fato do que muitos daqueles ateus citados anteriormente.

E qual será a pedra de toque que nos aproximará ou distanciará, a despeito da crença ou não-crença? Uma das respostas e, sem dúvida, uma das mais fundamentais é: Humanismo.

O que pensar de um ateu que bate palmas para maluco, e reproduz o discurso de Bolsonaro, Otávio de Carvalho e outros? Que nome se pode dar a essa incoerência, senão fanatismo ou miopia intelectual?

Se alguém me diz que reproduz o que dizem esses caras depois de ter refletido cuidadosamente sobre cada aspecto do que eles dizem, chegarei à conclusão de que a situação deles e ainda mais grave, restando pouca esperança de evolução pessoal para os tais, infelizmente.

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Não consigo imaginar um Neil deGrasse Tyson, um Richard Dawkins, um José Saramago, um Christopher Hitchens, um James Randi, um Dráuzio Varella aderindo ao discurso desses fascistas, moralistas, macomunados com fundamentalistas e outros inimigos do livre pensamento e do humanismo secularista. Você consegue? E quem é que te inspira como ateu – estes gigantes do pensamento ou aqueles papagaios de sacristia? A resposta indicará quão livre ou quão escravo da religião e de seus subprodutos você ainda é. E não adianta apenas dizer da boca para fora que são esses gigantes que te inspiram se você continua repetindo os mantras daqueles lá.

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