Judeus ateus estão aí muito antes de Cristo

Por Sergio Viula

MOISÉS E A FILHA DE FARAÓ OS 10 MANDAMENTOS.jpg

 

A presunção dos crentes, especialmente dos neo-pentecostais não tem limite mesmo. Dia desses, topei com um link que dizia que a novela Os 10 Mandamentos, produzida pela Rede Record de TV, a emissora do Macedo, e o seu subproduto, o filme, conquistaram até ateus. Não sei de onde tiraram essa ideia. Que pesquisa fizeram para verificar esse dado?

Meus pais acompanhavam essa novela – ou seria essa estratégia proselitista? Sempre que eu ia à casa deles, e eles estavam assistindo o que eu considero “uma pobreza no campo da criatividade” na televisão contemporânea (não é o único exemplo de pobreza cultural na TV), eu era obrigado a assistir aquele caleidoscópio de xenofobia, machismo, subserviência ao sacerdócio, ignorância e por aí vai.

Enquanto via o desfile de preconceitos glamourizados na novela, só conseguia lamentar a empolgação deles, porque não era como as emoções que sinto quando vejo Batman, sabendo que o cavaleiro negro é mero exercício de imaginação; eles acreditam que sejam fatos. Quanta ingenuidade.

Então, fico me perguntando quem seria esse “ateu” que foi conquistado por essa fraude criada por sacerdotes e outras lideranças ao longo da história de um povo que nunca conseguiu vivenciar a tão almejada unanimidade em torno da fé imposta pela classe sacerdotal judaica. Sacerdotes que desvirtuaram fatos históricos, criaram mitos, sacralizaram uma linhagem (os filhos de Arão e demais membros da tribo de Levi)  só para justificar seu domínio sobre as demais, e por aí vai.

Não faltam indícios de como líderes religiosos judeus se ressentiam da existência de ateus em seu pequeno mundo sectarista. Esses metidos a eleitos de deus não conseguiram conter seu rancor, que marca presença no livro de Salmos, por exemplo.

Claro que muitos desses textos foram escritos do ponto de vista de religiosos que adorariam acabar com essa “raça” de judeus ateus.

Um crente contemporâneo poderia dizer: Como podem esses judeus terem permanecido ateus? Como podem não ter acreditado em deus depois de tantos milagres?

Mas que milagres? Milagres que nunca aconteceram? Milagres que foram criados para manter o povo atrelado à religião e sustentando seus clérigos?

De qualquer modo, apesar da linguagem depreciativa contra os ateus, aqui vão alguns indícios da existência de judeus ateus no período das escrituras judaicas. Os dois primeiros versos parecem repetidos, mas não são. Observe as referências:

Disse o néscio no seu coração: Não há Deus. Têm-se corrompido, e cometido abominável iniqüidade; não há ninguém que faça o bem. (Salmos 53:1)

Disse o néscio no seu coração: Não há Deus. Têm-se corrompido, fazem-se abomináveis em suas obras, não há ninguém que faça o bem. (Salmos 14:1)

Pela altivez do seu rosto o ímpio não busca a Deus; todas as suas cogitações são que não há Deus. (Salmos 10:4)

Judeus ateus recentes

Mas judeus ateus não são somente um fenômeno dos tempos bíblicos, eles também estão entre nós nos dias de hoje. Entre alguns notáveis (mortos e vivos), estão:

Karl Marx, que nasceu em uma família de etnia judaica, mas foi criado como um luterano e está entre os pensadores ateus mais notáveis e influentes da história moderna.

Sigmund Freud, que escreveu O Futuro de uma Ilusão, no qual ele tanto evitou crença religiosa quanto delineou as suas origens e perspectivas.

A anarquista Emma Goldman, que nasceu em uma família judaica ortodoxa e rejeitou a crença em Deus.

A primeira-ministra israelense Golda Meir, que ao ser perguntada se acreditava em Deus, respondeu: “Eu acredito no povo judeu, e o povo judeu acredita em Deus.” Percebe-se que como qualquer político, ela também era mestre na arte de dizer sem ter dito.

O filósofo francês e judeu Jacques Derrida declarou: “Eu passaria perfeitamente por ateu”.

O cineasta Woody Allen, que ironicamente já disse o seguinte: “Como posso acreditar em Deus, quando na semana passada fiquei com minha língua presa no rolo de uma máquina de escrever elétrica?”

Avram Noam Chomsky, que é um linguista, filósofo, cientista cognitivo, comentarista e ativista político norte-americano, reverenciado em âmbito acadêmico como “o pai da linguística moderna, ainda vivo (2016), e um dos mais notáveis exemplos de judeu ateu extremamente comprometido com o humanismo.

Os judeus ateus nos EUA e em Israel hoje

O site do Paulo Lopes veiculou um artigo em que Phil Zuckerman, autor de Invitation to the Sociology of Religion, afirma que os judeus talvez sejam o menos religiosos dos grupos “religiosos” do mundo.

Nos EUA, onde existem quase tantos judeus quanto em Israel, só 22% dizem que a religião é “muito importante” em suas vidas, contra uma média nacional de 60%. Os judeus americanos são a categoria que menos frequenta o templo, reza, crê na vida após a morte e considera que a Bíblia é a palavra de Deus.

Claro que os chamados não-religiosos não necessariamente ateus, mas incluem muitos deles.

A matéria continua dizendo que em Israel, a proporção de ateus e agnósticos está entre as maiores do mundo – entre 15% e 37%.

Segundo o site do Paulo Lopes, um trabalho de 1995 indicou que quase 50% da população se classificava como não religiosa (lo dati, em hebraico), contra 20% de ortodoxos.

Zuckerman, autor da obra citada acima, diz que faz mais sentido hoje classificar os judeus como grupo étnico do que como constituindo uma religião. Isso não resolve o problema dos rabinos, mas “salva” o judaísmo do ateísmo. Diz ele: “Eu pelo menos me considero um bom judeu ateu.”

Ou seja, o ateísmo não é o fim do judaísmo, porque é possível ser judeu e ateu, uma vez que ser judeu não é apenas acreditar em Yahweh – o deus de quem os cristãos acreditam que Jesus seja a encarnação – o que, por sua vez, é uma blasfêmia para os judeus ortodoxos, diga-se de passagem.

Essa característica de judeus ateus – ou, como alguns preferem chamar, os judeus seculares – de participarem da vida comunitária judaica, incluindo as tradições rabínicas, acaba tornando a presença ateia entre judeus religiosos uma realidade discreta, mas eles estão lá. Um texto do professor Yaakov Malkin (tradução por Ronen Perlin) foca exatamente sobre isso:

Judeus seculares, isto é, judeus que se liberaram da obrigatoriedade da observância de práticas tradicionalistas, são judeus fiéis, tão quanto qualquer outro judeu, demonstrando sua crença pelo seu modo de viver através da educação que oferecem aos filhos, na medida em que celebram as datas nacionais e festivais próprios, na sua percepção de judaísmo enquanto manifestação cultural e não manifesto religioso.

Judeus seculares acreditam em humanidade, que homens e mulheres construíram nossos valores morais, que criaram D’s (ele próprio) com todas as leis e mandamentos que os religiosos se lhe delegam (à D’s).

Em outras palavras, judeus ateus (ou seculares) acreditam na humanidade, não em deus e supostas revelações. Eles consideram que o deus judaico e suas leis foram criados pela própria humanidade. Portanto, são os próprios homens e mulheres que constroem os valores morais.

Os judeus ateus adotam uma ética racionalista e solidária, sem recorrer ao divino em si, mas quando agem justa e benignamente, sua comunidade acredita que eles estão agindo como bons judeus, não como bons ateus. Os homens e seus pensamentos viciados, não é mesmo?

Comparativamente, os judeus ateus humanistas mostram-se muito mais solidários e capazes de atitudes altruístas do que judeus ortodoxos, que são geralmente extremamente fanáticos, assemelhando-se a fundamentalistas islâmicos e fundamentalistas cristãos sob vários pontos de vista.

A pergunta que fica é: Por que tanta gente que nem é judia alega acreditar no deus judaico, mas atribui a ele características e ações que para o próprio judeu religioso são consideradas blasfemas?

Outra pergunta: Por que acreditam tão piamente em “milagres” como esses que a novela e o filme “Os 10 Mandamentos” retomam como se fossem absolutamente reais e inquestionáveis?

Entre os judeus mesmo, sempre houve muitos que não acreditavam no deus tribal parido entre tribos nômades e posteriormente elevado à posição de deus único e verdadeiro – tudo isso, graças a vários fenômenos culturais e à ambição por poder da parte das lideranças religiosas, que geralmente tentavam controlar os governantes, especialmente os monarcas, e continuam tentando influenciar o Legislativo, o Executivo e o Judiciário nos dias de hoje.

Tanto o cristianismo quanto o islamismo beberam das tradições judaicas. Portanto, todos eles estão fundamentados sobre tradições que não são mais divinas do que quaisquer outras no mundo – tudo sendo construção cultural com inúmeras adaptações ao longo dos séculos. E o próprio judaísmo não ficou imune às tradições de outros povos aos quais eles mesmos consideravam ‘imundos’.

O judaísmo tomou emprestadas crenças de outros povos. Os cristãos, idem.

Se apenas 10% de tudo o que é dito no vídeo abaixo fosse verdade, isso já seria o suficiente para colocar o cristianismo e o judaísmo em xeque. Nada há de revelado ali. Quanto ao islamismo, ele toma emprestado do judaísmo, do cristianismo e de superstições árabes contemporâneas a Maomé.

 

VOCÊ NÃO PRECISA DE RELIGIÃO PARA SER BOM. A RELIGIÃO NÃO O TORNA MELHOR NEM PIOR. MAS CUIDADO: EM NOME DOS DEUSES, JÁ SE “SANTIFICOU” O ÓDIO EM MUITAS FORMAS E SE CONDENOU O AMOR EM DIVERSAS OUTRAS.

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3 comentários sobre “Judeus ateus estão aí muito antes de Cristo

    1. Até hoje, não se achou um só vestígio da passagem dos judeus – supostamente centenas de milhares deles – no Egito, que era a maior potência da época. Isso só para dar um exemplo. Existem muitos outros. A maioria das “histórias” da Bíblia não têm evidência alguma fora dela mesma. Até mesmo o recenseamento que supostamente teria “obrigado” José e Maria a irem para Belém, onde Jesus teria nascido, nunca foi realizado pelos romanos, apesar de Lucas afirmar que foi realizado “no tempo em que Quirino era rei da Síria” (Lucas 2). Veja bem, são duas “histórias” que são supostamente históricas, mas não apresentam quaisquer vestígios em registros para além da Bíblia, e estamos falando de povos que registravam sua história por escrito, não apenas oralmente como outros povos faziam por não terem escrita. E as duas histórias são fundamentais para judeus e cristãos (a suposta escravidão no Egito) e para cristãos (o propalado nascimento de Jesus em Belém). Esses dois bastam para demonstrar que não é “um desafio muito grande” dizer que a Bíblia é uma invenção. Desafio realmente muito grande – se não for absolutamente impossível – é demonstrar que ela tenha inspiração divina. Não tem sequer evidência histórica para a maioria dos seus grandes eventos.

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