Avião da Chapecoense cai. Luto.

Por Sergio Viula

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Avião quadrimotor de produção inglesa que levava a Chapecoense era usado pela Lamia, empresa boliviana, e tinha 17 anos.

Semana passada, durante uma atividade de conversação numa aula de inglês avançado, um aluno falava sobre a admiração dele pela Chapecoense. Mechapecoense.pngu aluno dizia que era a primeira vez que o time disputaria uma partida tão importante como essa. Ele torce por outro time, mas estava feliz pela conquista que recompensava todos os esforços do time e alegrava a torcida.

A Chapecoense é um time de Santa Catariana que tem esse nome porque sua sede fica na cidade de Chapecó.

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Chapecó – SC

A investigação sobre o que teria causado a queda do avião ainda está em andamento, mas não consigo deixar de ficar perplexo diante de algumas coisas:

1. A vida é feita de probabilidades. Se aviões podem cair, alguns aviões cairão, sem que haja qualquer plano divino para isso. Na verdade, seria admirável se jamais um só avião tivesse caído ou viesse a cair até o fim da história da aviação. Isso, sim, seria notável justamente por ser altamente improvável, mas não impossível. O que quero dizer com isso é que o fato do avião da Chapecoense ter caído não cumpre qualquer propósito como gostam de dizer padres, pastores, médiuns, etc.

2. A sobrevivência de alguns é fruto de probabilidades também. Geralmente, depende de vários fatores relacionados à posição do passageiro dentro da aeronave, a distância dele em relação ao ponto de impacto e diversos outros aspectos, nada tendo a ver com livramento divino. Nem a morte no acidente nem a sobrevivência à queda do avião têm qualquer coisa a ver com uma ação divina. Deus não entra nessa economia, seja para matar dezenas de passageiros, seja para salvar meia-dúzia deles. Morremos como qualquer outro ser vivo morre no planeta, mas podemos morrer de modos mais variados que a maioria das espécies, porque inventamos de tudo e praticamente tudo envolve algum risco de morte. São inúmeras novas formas de morrer misturadas a inúmeras novas formas de viver. A queda de um avião é uma delas.

3. Entendo que as pessoas recorram a deus (ou deuses) para obter consolo, mas ainda que isso seja comovente, é logicamente um absurdo. Se deus não protegeu o voo, como confiar nele para qualquer outra coisa? Se ele podia salvar alguns, por que não todos. Se nem uma folha cai de uma árvore sem o consentimento dele (palavras atribuídas a Jesus), então como ele pode se safar dessa? Se ele é responsável por isso, seja por omissão ou por ação direta, que miserável ele é, moralmente falando. Quem faria ou permitiria tal coisa se não fosse um psicopata insensível? Na verdade, o resgate e os cuidados médicos serão os únicos salvadores dos poucos que tiverem sobrevivido à queda.

Mas esse post não se destina apenas a comentar a revolta que sinto sempre que vejo esse tipo de fala “escapei, graças a deus” (e os outros morreram graças a quem?), ou “deus é bom e vai consolar a família” (se deus fosse bom, ele não permitiria isso), ou “fulano agora está no céu e melhor do que nós” (mesmo que o céu existisse, ninguém poderia estar certo do destino de ninguém, mas o fato é que se os mortos estão melhores do que nós é somente porque pararam de sofrer, mas quem de nós gostaria de estar no lugar deles agora?).

Todas essas e outras frases mais do que batidas sempre que uma tragédia acontece depõem mais contra deus e contra a religião do que a favor deles.

E o luto?

O luto é necessário. Os parentes e amigos têm que fazê-lo. Precisam chorar, sentir a falta, a revolta pela perda, mas precisam seguir em frente. Eu já fiz alguns lutos depois de renunciar às crenças por entender que elas não passavam de produção cultural e – por isso mesmo – nada tinham de sobrenatural.

Meu mais doloroso luto foi por minha avó paterna. E mesmo nesse momento, não me veio à mente o mais leve traço de crença ou à minha boca uma só palavra de oração. Tudo o que eu pensava era que ela tinha sido uma grande mulher, uma amiga espetacular, que morreu de câncer simplesmente porque seres humanos podem morrer de câncer (não há qualquer propósito ou razão sobrenatural para se ter câncer). Ela fez e continua fazendo uma falta para a qual não havia qualquer substituição ou compensação.

Meu luto demorou, mas foi feito. E o que resta hoje? Boas memórias dessa guerreira e inspiração por seu amor e dedicação a mim e outros parentes.

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Seleção e equipe de apoio dentro do avião que caiu. Reprodução Internet

Meus sentimentos para com os que perderam seus amados

Então, no dia de hoje, manifesto meus sentimentos de tristeza pela perda de todas essas vidas e também me alegro pelos que sobreviveram. Não, eu não atribuo coisa alguma nisso tudo a qualquer entidade sobrenatural. É dos seres humanos o crédito pela criação dessas entidades supostamente sobrenaturais (deus, anjos, espíritos, carma, reencarnação, ressurreição, paraíso, etc). É também dos seres humanos o crédito por toda a articulação que  fazem entre essas crenças e o que acontece em suas vidas.

As famílias e amigos nunca esquecerão, mas quase certamente conseguirão seguir em frente. Assim como eu nunca esquecerei minha avó, eles nunca esquecerão seus amados, mas tenho feito o que ela mesma fez até seu último dia: vivo tudo o que desejo viver na medida das minhas possibilidades e o farei até o dia em que um dos milhões de possíveis “interruptores” da vida me atinja e meus átomos sejam liberados para configurarem outros seres vivos ou não-vivos, sempre de acordo com as dinâmicas intrínsecas à própria natureza. Foi assim que eu vim a ser e que outros estão vindo a ser nesse momento e virão a ser depois de mim, a partir dos elementos que me compõe e que se decomporão quando as funções vitais forem interrompidas.

O que podemos fazer daqui para frente?

Viver cada dia o mais sossegada e felizmente possível, fazendo o que estiver a nosso alcance para realizar o que desejamos sem injustiçar ninguém.

Tem alternativa melhor?

 

Obrigado, Chapecoense.

Vocês inspiraram e ainda vão inspirar muitos, Chapecoense. Obrigado pelas alegrias vividas e proporcionadas. Uma das cenas de alegria mais intensa do time:  https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=1050689458374266&id=350981738345045

 

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Judeus ateus estão aí muito antes de Cristo

Por Sergio Viula

MOISÉS E A FILHA DE FARAÓ OS 10 MANDAMENTOS.jpg

 

A presunção dos crentes, especialmente dos neo-pentecostais não tem limite mesmo. Dia desses, topei com um link que dizia que a novela Os 10 Mandamentos, produzida pela Rede Record de TV, a emissora do Macedo, e o seu subproduto, o filme, conquistaram até ateus. Não sei de onde tiraram essa ideia. Que pesquisa fizeram para verificar esse dado?

Meus pais acompanhavam essa novela – ou seria essa estratégia proselitista? Sempre que eu ia à casa deles, e eles estavam assistindo o que eu considero “uma pobreza no campo da criatividade” na televisão contemporânea (não é o único exemplo de pobreza cultural na TV), eu era obrigado a assistir aquele caleidoscópio de xenofobia, machismo, subserviência ao sacerdócio, ignorância e por aí vai.

Enquanto via o desfile de preconceitos glamourizados na novela, só conseguia lamentar a empolgação deles, porque não era como as emoções que sinto quando vejo Batman, sabendo que o cavaleiro negro é mero exercício de imaginação; eles acreditam que sejam fatos. Quanta ingenuidade.

Então, fico me perguntando quem seria esse “ateu” que foi conquistado por essa fraude criada por sacerdotes e outras lideranças ao longo da história de um povo que nunca conseguiu vivenciar a tão almejada unanimidade em torno da fé imposta pela classe sacerdotal judaica. Sacerdotes que desvirtuaram fatos históricos, criaram mitos, sacralizaram uma linhagem (os filhos de Arão e demais membros da tribo de Levi)  só para justificar seu domínio sobre as demais, e por aí vai.

Não faltam indícios de como líderes religiosos judeus se ressentiam da existência de ateus em seu pequeno mundo sectarista. Esses metidos a eleitos de deus não conseguiram conter seu rancor, que marca presença no livro de Salmos, por exemplo.

Claro que muitos desses textos foram escritos do ponto de vista de religiosos que adorariam acabar com essa “raça” de judeus ateus.

Um crente contemporâneo poderia dizer: Como podem esses judeus terem permanecido ateus? Como podem não ter acreditado em deus depois de tantos milagres?

Mas que milagres? Milagres que nunca aconteceram? Milagres que foram criados para manter o povo atrelado à religião e sustentando seus clérigos?

De qualquer modo, apesar da linguagem depreciativa contra os ateus, aqui vão alguns indícios da existência de judeus ateus no período das escrituras judaicas. Os dois primeiros versos parecem repetidos, mas não são. Observe as referências:

Disse o néscio no seu coração: Não há Deus. Têm-se corrompido, e cometido abominável iniqüidade; não há ninguém que faça o bem. (Salmos 53:1)

Disse o néscio no seu coração: Não há Deus. Têm-se corrompido, fazem-se abomináveis em suas obras, não há ninguém que faça o bem. (Salmos 14:1)

Pela altivez do seu rosto o ímpio não busca a Deus; todas as suas cogitações são que não há Deus. (Salmos 10:4)

Judeus ateus recentes

Mas judeus ateus não são somente um fenômeno dos tempos bíblicos, eles também estão entre nós nos dias de hoje. Entre alguns notáveis (mortos e vivos), estão:

Karl Marx, que nasceu em uma família de etnia judaica, mas foi criado como um luterano e está entre os pensadores ateus mais notáveis e influentes da história moderna.

Sigmund Freud, que escreveu O Futuro de uma Ilusão, no qual ele tanto evitou crença religiosa quanto delineou as suas origens e perspectivas.

A anarquista Emma Goldman, que nasceu em uma família judaica ortodoxa e rejeitou a crença em Deus.

A primeira-ministra israelense Golda Meir, que ao ser perguntada se acreditava em Deus, respondeu: “Eu acredito no povo judeu, e o povo judeu acredita em Deus.” Percebe-se que como qualquer político, ela também era mestre na arte de dizer sem ter dito.

O filósofo francês e judeu Jacques Derrida declarou: “Eu passaria perfeitamente por ateu”.

O cineasta Woody Allen, que ironicamente já disse o seguinte: “Como posso acreditar em Deus, quando na semana passada fiquei com minha língua presa no rolo de uma máquina de escrever elétrica?”

Avram Noam Chomsky, que é um linguista, filósofo, cientista cognitivo, comentarista e ativista político norte-americano, reverenciado em âmbito acadêmico como “o pai da linguística moderna, ainda vivo (2016), e um dos mais notáveis exemplos de judeu ateu extremamente comprometido com o humanismo.

Os judeus ateus nos EUA e em Israel hoje

O site do Paulo Lopes veiculou um artigo em que Phil Zuckerman, autor de Invitation to the Sociology of Religion, afirma que os judeus talvez sejam o menos religiosos dos grupos “religiosos” do mundo.

Nos EUA, onde existem quase tantos judeus quanto em Israel, só 22% dizem que a religião é “muito importante” em suas vidas, contra uma média nacional de 60%. Os judeus americanos são a categoria que menos frequenta o templo, reza, crê na vida após a morte e considera que a Bíblia é a palavra de Deus.

Claro que os chamados não-religiosos não necessariamente ateus, mas incluem muitos deles.

A matéria continua dizendo que em Israel, a proporção de ateus e agnósticos está entre as maiores do mundo – entre 15% e 37%.

Segundo o site do Paulo Lopes, um trabalho de 1995 indicou que quase 50% da população se classificava como não religiosa (lo dati, em hebraico), contra 20% de ortodoxos.

Zuckerman, autor da obra citada acima, diz que faz mais sentido hoje classificar os judeus como grupo étnico do que como constituindo uma religião. Isso não resolve o problema dos rabinos, mas “salva” o judaísmo do ateísmo. Diz ele: “Eu pelo menos me considero um bom judeu ateu.”

Ou seja, o ateísmo não é o fim do judaísmo, porque é possível ser judeu e ateu, uma vez que ser judeu não é apenas acreditar em Yahweh – o deus de quem os cristãos acreditam que Jesus seja a encarnação – o que, por sua vez, é uma blasfêmia para os judeus ortodoxos, diga-se de passagem.

Essa característica de judeus ateus – ou, como alguns preferem chamar, os judeus seculares – de participarem da vida comunitária judaica, incluindo as tradições rabínicas, acaba tornando a presença ateia entre judeus religiosos uma realidade discreta, mas eles estão lá. Um texto do professor Yaakov Malkin (tradução por Ronen Perlin) foca exatamente sobre isso:

Judeus seculares, isto é, judeus que se liberaram da obrigatoriedade da observância de práticas tradicionalistas, são judeus fiéis, tão quanto qualquer outro judeu, demonstrando sua crença pelo seu modo de viver através da educação que oferecem aos filhos, na medida em que celebram as datas nacionais e festivais próprios, na sua percepção de judaísmo enquanto manifestação cultural e não manifesto religioso.

Judeus seculares acreditam em humanidade, que homens e mulheres construíram nossos valores morais, que criaram D’s (ele próprio) com todas as leis e mandamentos que os religiosos se lhe delegam (à D’s).

Em outras palavras, judeus ateus (ou seculares) acreditam na humanidade, não em deus e supostas revelações. Eles consideram que o deus judaico e suas leis foram criados pela própria humanidade. Portanto, são os próprios homens e mulheres que constroem os valores morais.

Os judeus ateus adotam uma ética racionalista e solidária, sem recorrer ao divino em si, mas quando agem justa e benignamente, sua comunidade acredita que eles estão agindo como bons judeus, não como bons ateus. Os homens e seus pensamentos viciados, não é mesmo?

Comparativamente, os judeus ateus humanistas mostram-se muito mais solidários e capazes de atitudes altruístas do que judeus ortodoxos, que são geralmente extremamente fanáticos, assemelhando-se a fundamentalistas islâmicos e fundamentalistas cristãos sob vários pontos de vista.

A pergunta que fica é: Por que tanta gente que nem é judia alega acreditar no deus judaico, mas atribui a ele características e ações que para o próprio judeu religioso são consideradas blasfemas?

Outra pergunta: Por que acreditam tão piamente em “milagres” como esses que a novela e o filme “Os 10 Mandamentos” retomam como se fossem absolutamente reais e inquestionáveis?

Entre os judeus mesmo, sempre houve muitos que não acreditavam no deus tribal parido entre tribos nômades e posteriormente elevado à posição de deus único e verdadeiro – tudo isso, graças a vários fenômenos culturais e à ambição por poder da parte das lideranças religiosas, que geralmente tentavam controlar os governantes, especialmente os monarcas, e continuam tentando influenciar o Legislativo, o Executivo e o Judiciário nos dias de hoje.

Tanto o cristianismo quanto o islamismo beberam das tradições judaicas. Portanto, todos eles estão fundamentados sobre tradições que não são mais divinas do que quaisquer outras no mundo – tudo sendo construção cultural com inúmeras adaptações ao longo dos séculos. E o próprio judaísmo não ficou imune às tradições de outros povos aos quais eles mesmos consideravam ‘imundos’.

O judaísmo tomou emprestadas crenças de outros povos. Os cristãos, idem.

Se apenas 10% de tudo o que é dito no vídeo abaixo fosse verdade, isso já seria o suficiente para colocar o cristianismo e o judaísmo em xeque. Nada há de revelado ali. Quanto ao islamismo, ele toma emprestado do judaísmo, do cristianismo e de superstições árabes contemporâneas a Maomé.

 

VOCÊ NÃO PRECISA DE RELIGIÃO PARA SER BOM. A RELIGIÃO NÃO O TORNA MELHOR NEM PIOR. MAS CUIDADO: EM NOME DOS DEUSES, JÁ SE “SANTIFICOU” O ÓDIO EM MUITAS FORMAS E SE CONDENOU O AMOR EM DIVERSAS OUTRAS.

Pregadores em sala de espera: Só não são mais chatos por falta de espaço…

Por Sergio Viula
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Fui ao escritório de direitos autorais da Biblioteca Nacional registrar uma obra e ouvi quatro crentes falando sobre suas crenças. Os quatro eram daquele tipo bem fanático. Um sabia meia-dúzia de versículos, que recitava sem o menor senso crítico. Os outros o ouviam e concordavam como se aquela fosse a mais absoluta verdade. Só que não.

Fiquei pensando em como as pessoas ‘papagaiam’ o que ouvem sem investirem o menor tempo em raciocinar sobre a validade disso tudo. E o pior é a falsa humildade pretextada cada vez que o cara diz “não sou eu que digo, é a Bíblia” ou “eu não sou nada, sou só um servo”. Na verdade, ele se acha o porta-voz de deus – o que supostamente o coloca numa posição mais elevada que os outros.

E a repetição da frase “…porque não somos bastardos, somos filhos”? É muita carência emocional. Muita necessidade de pai, carai! Vê se cresce, bebezão.

É engraçado que todo mundo se veja como intérprete fiel da Bíblia e que acredite ter a verdade final sobre cada letra posta ali. Gente que é incapaz de interpretar corretamente uma questão do Enem, mas se sente doutor em textos antigos, traduzidos a perder as contas, cheio de pontos controversos, que encontram contradições, sobras ou faltas quando se comparam manuscritos antigos – o que não significa ‘originais’, como dizem muitos indoutos no assunto. Não existem originais. Nem mesmo um sequer. Os mais antigos são cópias, de cópias de cópias e apresentam várias discrepâncias entre si.

O problema, portanto, já começa com o texto em si. Depois disso, tem as traduções que corrompem sentidos nas cópias das cópias das cópias em hebraico, aramaico e grego. E, depois de tudo isso, ainda tem os problemas de interpretação, seja por falta de conhecimento, seja por má-compreensão do que está escrito – que já não é original -, seja por pilantragem mesmo, porque certas interpretações serves aos propósitos de manipuladores e exploradores da credulidade de fiéis ignorantes, culpados, medrosos e tão ambiciosos quanto seus líderes, mas não tão espertos.

Claro que não perdi meu tempo discutindo com aqueles crentes pregadores oportunistas que fazem de uma sala de espera um púlpito para todo o tipo de asneiras consideradas sagradas.

Como eu tinha coisas mais importantes para fazer, tais como almoçar e corrigir provas, decidi simplesmente pegar meu protocolo de solicitação de registro de autoria de uma obra e saí. ^^

A maioria dos leitores devotos da Bíblia costuma evitar qualquer pensamento sobre os problemas que as escrituras “sagradas” colocam diante do leitor sem o menor pudor. Por isso, listei esses 10 problemas da Bíblia do modo mais claro que pude. Convido todos a lerem esse texto: 10 Grandes Problemas da Bíblia.

Outra postagem que gostaria muito que as pessoas acessassem é essa que coloquei na forma de um híbrido de vídeo e podcast. O conteúdo foi apresentado numa das poucas igrejas que têm coragem de ouvir o contradito sem perder a linha: a Igreja Reformada Ecumênica de Copacabana, agora se reunindo em Botafogo. Como não consegui filmar a palestra, decidi gravar o que você poderá ver/ouvir aqui: MÊS DA BÍBLIA: Um ateu na Igreja Reformada Ecumênica .

Agora, deixando o texto bíblico de lado e pensando numa frase que os crentes adoram repetir, sugiro a leitura desse texto: Um corpo nunca será livre enquanto a mente ainda tiver senhores. A frase a que me refiro é aquela que diz que Jesus Cristo é o Senhor. Vale a pena dar uma olhada. Mas, infelizmente, muitos preferem nem se expor a uma fala que não reforce suas frágeis crenças, ou seja, aqueles que preferem viver na bolha do fanatismo que renega tudo para tentar resguardar aquilo por meio do que esperam ser salvos: a fé. E para se consolarem de tudo o que estão perdendo em nome dessa obediência cega a textos corrompidos e pessimamente interpretados, eles repetem: “De que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” Isso é mera anestesia existencial e não resolve o problema: ele perde muita coisa boa que os líderes religiosos demonizam e não ganha absolutamente nada com isso. Sobre essa ficção chamada alma imortal ou espírito eterno, assista: A imortalidade da alma e suas consequências nefastas.

Não tenha medo. Ele é matéria-prima para todo tipo de superstição e estas são as ferramentas que os manipuladores de mente utilizam para controlar seus pensamentos e suas ações.

Um corpo nunca será livre enquanto a mente ainda tiver senhores

Por Sergio Viula

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Por que me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que vos digo? (Lucas 6:46)

No dia da Consciência Negra, celebramos a libertação dos escravos no Brasil. Não nos apressemos em acreditar que foi um ato de generosidade. O Brasil foi o último país da América Latina a reconhecer o direito à liberdade da numerosa população negra, tratada como propriedade da elite branca escravocrata. A exploração cruel e desumana da força de trabalho e até da capacidade reprodutiva de negras e negros contava com abomináveis leis que só foram banidas em 1888, quando foi oficialmente assinada a Lei Áurea no Brasil. Digo oficialmente, porque até hoje há quem trabalhe como escravo nos rincões desse país. Felizmente, a lei agora está a serviço de combater tal abominação, não de legitimá-la. E todo cidadão que tome conhecimento ou suspeite de exploração de trabalho escravo deve denunciá-lo. O número 100 pode ser usado em todo o território nacional para essa denúncia.

Outro tipo de escravidão

Mas hoje eu gostaria de fazer uma outra denúncia. Eu quero denunciar a escravidão dos corpos a partir da dominação da mente. Não há mais chicotes, troncos, algemas, gargalheira, palmatória, peia, vira-mundo, libambos ou máscaras de flandres, tão prazeirosamente utilizados por feitores que se deleitavam no sofrimento dos negros escravizados em nome dos senhores de engenho, esses ‘nobres’ cristãos pais de família, cujas esposas e filhos eram mimados pelas negras que, por causa disso, nunca puderam cuidar de seus próprios filhos como convinha, porque o leite branco que seus peitos negros produziam era primeiro dos filhos dos senhores. Uma senhora escravocrata colocando suas tetas nas bocas insaciáveis de seus próprios rebentos para amamentá-los? Isso era um absurdo. As mamas das escravas é que deviam garantir a vida dos escravocratas mirins – os mesmos que torturariam seus filhos pretinhos. Mas não é essa a minha denúncia hoje, apesar de já tê-la registrado só por mencionar essas crueldades.

Provavelmente, alguns devem ter pensado que eu falaria sobre o absurdo bíblico da autorização da escravidão pelo texto considerado ‘sagrado’, mas também não é esse meu foco hoje. De qualquer modo, já que falamos nisso, vale lembrar que a Bíblia foi usada por escravocratas para justificar religiosamente o que eles provavelmente fariam por amor ao dinheiro com ou sem ela, mas a consciência desses ‘ilustríssimos’ senhores podiam contar com a aprovação e a bênção divina sobre o massacre, graças aos profetas e apóstolos bíblicos.

Vejamos alguns exemplos:

E quanto a teu escravo ou a tua escrava que tiveres, serão das nações que estão ao redor de vós; deles comprareis escravos e escravas. (Levítico 25:44)

Em outras palavras: Judeus, vocês podem comprar escravos de outros povos. O Brasil, pelas mãos dos portugueses, foi buscá-los na África.

Se alguém ferir a seu servo, ou a sua serva, com pau, e morrer debaixo da sua mão, certamente será castigado; Porém se sobreviver por um ou dois dias, não será castigado, porque é dinheiro seu. (Êxodo 21:20,21)

Em outras palavras: Torturar pode. Matar, não. Mas se morrer um ou dois dias depois, mesmo que em decorrência das torturas, não tem problema. Ficará impune.

Geralmente, se pensa que não se podia ter um escravo hebreu, ou seja, do povo judeu, mas o livro de Êxodo, o mesmo que conta a saída do povo de Israel do Egito, permite, desde que não seja pelo resto da vida. Veja:

Se comprares um servo hebreu, seis anos servirá; mas ao sétimo sairá livre, de graça. (Êxodo 21:2)

Até os sacerdotes da tribo de Levi compravam escravos:

Mas quando o sacerdote comprar alguma pessoa com o seu dinheiro, aquela comerá delas, e os nascidos na sua casa, estes comerão do seu pão. Levítico 22:11

Daí, já se vê que a Bíblia não é mesmo um livro de onde se possa extrair boa moralidade, exceto se, guiados pela razão esclarecida a partir de conhecimentos que vão muito além dela, o leitor escolher aqui e ali alguma passagem que escape dos hábitos típicos da era do bronze e da lógica dos impérios que vieram bem depois dela.

Minha denúncia sobre escravidão hoje é outra

Mas o que quero denunciar hoje é como o cristianismo continua dominando as mentes das pessoas sob o pretexto dessa relação senhor/escravo. Por isso , abri esse artigo com o versículo “Por que me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que vos digo? “(Lucas 6:46). Concedendo, para fins de argumentação, que Jesus tenha mesmo dito tais palavras, ele próprio estaria partindo de uma dialética escravocrata para dizer o que esperava de seus seguidores. E se isso é verdade, pode-se dizer que Jesus também reproduzia os discursos que circulavam em sua época. E isso nos faz lembrar que ele não constituía exceção a essa regra.

A passagem acima é uma repreensão aos que reconhecem seu senhorio, mas não agem como seus escravos. Seriam aqueles que dizem que ele é Senhor (a tradição a coloca em maiúscula quando atribuída a Jesus), mas não fazem o que ele diz. O raciocínio é o seguinte:

Senhor = dono de escravos. Escravos têm que fazer o que seu dono diz, caso contrário serão castigados. O castigo que esse Senhor, chamado Jesus aplicará aos que o chamavam de ‘Senhor’, mas não faziam o que ele diz, é muito pior do que todos os instrumentos de tortura juntos. É um castigo eterno – um fogo que não se apaga. Ele deixa isso bem claro nos trechos abaixo:

Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.

Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitas maravilhas?

E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade. (Mateus 7:21-23)

Em outra passagem recheada de termos como servo e senhor, ele encerra dizendo qual será o destino dos que não o serviram:

Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos; (Mateus 25:41)

Mas, a lógica escravocrata no Novo Testamento não é utilizada apenas por Jesus, a quem geralmente se atribui uma doçura extraordinária (nem sempre correspondente ao que está escrito); ela também é utilizada pelos apóstolos. Paulo, por exemplo, escreve aos Coríntios, ou seja, aos cidadãos de uma cidade de cultura helênica acostumados a discutir filosofia, política e valorizar a saúde, a força e a beleza dos corpos, a seguinte exortação:

Fostes comprados por bom preço; não vos façais servos dos homens. (1 Coríntios 7:23)

Em outras palavras: Não vos façais escravos dos homens, exceto se esse homem for Jesus ou um de seus apóstolos, é claro.

E o que Paulinho quer dizer com isso?

Essas palavras foram ditas num contexto em que Paulo discutia sobre relações sexuais e casamento, instando os coríntios a terem uma esposa em regime conjugal monogâmico e vitalício. Mas é também nesse capítulo que ele exorta os que se converteram sendo escravos na casa de algum rico a não procurarem a abolição, a libertação, e só a aceitassem se esta lhes fosse oferecida. A passagem é de um conformismo irritante. Tudo o que Paulo quer é que as pessoas se submetam a Cristo — o que significa sujeitar-se completamente ao comando dos líderes da igreja, inclusive dele mesmo. Fiquem quietas e obedeçam – era a ordem. Não pensem em escravidão, trabalhem (para eles e para nós). ^^ Veja o contexto imediatamente anterior ao versículo acima.

Cada um fique na vocação em que foi chamado. Foste chamado sendo servo? não te dê cuidado; e, se ainda podes ser livre, aproveita a ocasião. Porque o que é chamado pelo Senhor, sendo servo, é liberto do Senhor; e da mesma maneira também o que é chamado sendo livre, servo é de Cristo. Fostes comprados por bom preço; não vos façais servos dos homens. Irmãos, cada um fique diante de Deus no estado em que foi chamado. (1 Coríntios 7:20-24 – grifo meu)

De qualquer modo, é bom que se diga que a palavra Senhor, que significa dono de escravos e que foi romantizada pelo uso piega que os cristãos fizeram dela, aparece pelo menos 740 vezes no Novo Testamento. O termo original é de origem grega, língua em que foram escritos os quatro evangelhos canônicos e o Novo Testamento como um todo. O termo grego é κύριος (lê-se Kyrios): Senhor, ou dono de escravos.

Ora, se ele é Senhor, aqueles que o consideram assim são seus escravos. Aberta está a porta para a dominação de todo tipo de liderança inescrupulosa que simplesmente declare “Assim diz o Senhor”, e isso é o que mais fazem os líderes cristãos, especialmente os evangélicos pentecostais.

E por que é que traduziram a palavra escravo para servo no Novo Testamento?

Porque os termos escravo ou escrava — tais como são — provocam desconforto nos leitores. E devem provocar mesmo, senhoras e senhores. Esses termos são herança de uma cultura escravocrata que foi grandemente, mas não totalmente (ainda), superada por ideias iluministas, racionalistas, humanistas. Como o que está escrito não poderia ser facilmente modificado, principalmente quando se repete centenas de vezes, os tradutores optaram por suavizar o termo, trocando ‘escravo’ por ‘servo’, mas essa artimanha não escapa a uma simples verificação nos manuscritos gregos.

Em grego, a palavra  δούλος (lê-se doulos) significa escravo e tem sido traduzida por servo. Mas esperem aí! Um servo, geralmente visto como um empregado, não seria alguém sujeito a ser amarrado. Contudo, a palavra δούλος (doulos) é derivada de um verbo que indica a ação de “amarrar” (δέω,  lê-se “deu”), ou seja, exatamente um escravo, aquele que está amarrado a outro e é propriedade sua.

Não por mera coincidência, a resposta de Maria ao anjo Gabriel, quando este lhe anunciou que ela seria a mãe de Jesus por ação direta de Deus, sem intercurso sexual, foi a seguinte:”ἰδοὺ ἡ δούλη [doulé] κυρίου” (Lc 1, 38). Essa passagem é traduzida assim: Eis aqui a serva do Senhor. O correto, porém, seria: Eis aqui a escrava do Senhor.

Vejam bem, os senhores podiam fazer uso sexual de suas escravas. Seus filhos eram considerados bastardos, pois não tinham a paternidade reconhecida. Diferentemente, dos filhos ‘legítimos’, eles eram colocados a trabalhar. Muitas vezes, eram odiados pelas senhoras (as esposas dos senhores) e pelos herdeiros destes. E isso acontecia no período greco-romano e no período da escravatura no Brasil.

A reposta de Maria, apesar de também romantizada pela Igreja, segue o padrão de submissão das escravas: os senhores podiam fazer o que quisessem dos corpos delas, pois eram propriedades deles. Claro que no Brasil a Igreja Católica tentava (nem sempre conseguia) evitar isso em nome da castidade do matrimônio, mas o contexto de Maria era o greco-romano. Ela disse literalmente que o Senhor podia fazer dela como quisesse, porque ela era sua escrava.

Disse então Maria: Eis aqui a ESCRAVA do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra. E o anjo ausentou-se dela. Lucas 1:38 (os tradutores modernos colocaram a palavra serva para amaciar a dureza do texto bíblico, mas o que está dito no texto grego é escrava (ἰδοὺ ἡ δούλη [doulé] κυρίου).

A submissão ao comando de outro como sendo seu senhor, seu dono, proprietário da sua vida, mesmo que se diga que o preço para a sua compra como escravo foi o próprio sangue dele, é perigosíssimo. Especialmente, porque aqui entra um componente afetivo gerador de culpa. Se não há obediência e submissão, além de rebelde, você é ingrato. Afinal, como pode desprezar o sangue dele na cruz? E blá, blá, blá. Os padres e pastores manipuladores de mentes adoram isso.

E para não deixar esse sentimento de culpa e de dívida cair no esquecimento, existe todo um aparato. Sim, porque ele teria morrido abnegadamente por você, mas vai te mandar para o inferno eterno sem pensar duas vezes se você não se submeter totalmente a ele. Sobre o aparato da memória culpada, o catolicismo instituiu cada missa como a repetição do sacrifício de Jesus na forma da Eucaristia. Toda missa, ele é recrucificado. O pão verdadeiramente seu corpo e o vinho é verdadeiramente seu sangue. No protestantismo, há uma pequena diferença: cada culto de ceia é um lembrete desse sacrifício, não uma repetição dele. Podíamos dizer que o choro dos participantes é livre, mas nem tanto, pois até o choro é escravo de um sentimento de culpa e dívida.

Quando Jesus diz “não podeis servir a dois senhores”, ele deixa claro que exige exclusividade, mas como mortos não mandam em ninguém, quem realmente manda são seus supostos representantes. E para se certificarem de que sejam obedecidos até pelos relutantes, eles dizem que Jesus vai voltar e é bom que os encontrem servindo, ou seja, agindo como escravos. Os apóstolos foram os primeiros, mas não os únicos a perceberem isso. E o mecanismo funciona. Colocaram na boca de Jesus palavras muito convenientes, legitimando seu comando como líderes da igreja:

Quem vos ouve a vós, a mim me ouve; e quem vos rejeita a vós, a mim me rejeita; e quem a mim me rejeita, rejeita aquele que me enviou. (Lucas 10:16)

Em outras palavras: Se não fizerem o que vocês mandam (apóstolos), estão desobedecendo a mim (Jesus). Daí, a transferir isso para pastores, padres, cardeais, bispos, auto-proclamados apóstolos, missionários, diáconos, freiras, frades, etc. foi só uma questão de tempo.

E é disso que os pastores e padres vivem. Se você não obedece ao que eles dizem, você está desobedecendo ao próprio Senhor (dono de escravos) Jesus. Mas se você ouve o que eles dizem (obedece ao seu comando), então você está servindo ao Senhor (o escravocrata celeste) como bom e obediente escravo.

Existe um componente extra para manter os escravinhos de Jesus servindo pacientemente. Trata-se do seguinte:

Escravos nunca ganhavam nada por servirem bem. Jesus teria prometido recompensas depois da morte. Quão sedutor! Só que não.

 

Ah, se isso não bastasse para manter o escravo sempre servindo, havia o outro lado da moeda: o castigo eterno. E quanto mais improvável ou difícil de verificar for uma ameaça, maior ela tem que parecer para fazer efeito. Essa tática funciona a partir daquele pensamento: “E se for verdade?” Isso, por sua vez, leva o indivíduo a obedecer mesmo que seja só por via das dúvidas.

Tal raciocínio é o mesmo que leva um crente a dizer a um ateu: “Prefiro continuar fazendo isso, porque se você estiver certo, eu não vou sofrer nada depois da morte, mas se eu estiver certo, você está perdido.”

Aqui está o chave do poder que o inferno exerce sobre os crédulos. E essa chave é muito bem manuseada por pastores e padres para arrancar dinheiro, mão de obra grátis, votos em eleições, pressão contra projetos de lei que favoreçam os direitos civis de pessoas a quem muitos desses pastores e padres odeiam gratuitamente, entre outras coisas.

E se alguém questionar tal coisa, eles rapidamente sacam o seguinte versículo da cartola, quero dizer da Bíblia:

Vigiai, pois, porque não sabeis quando virá o senhor da casa; se à tarde, se à meia-noite, se ao cantar do galo, se pela manhã, Para que, vindo de improviso, não vos ache dormindo. (Marcos 13:35,36)

Em outras palavras, escravo tem que trabalhar. Se o dono do escravo chegar e pegá-lo dormindo, esse escravo vai se ver com ele. Isso cria um estado de alerta e ansiedade que faz qualquer cristão um pouquinho mais literalista viver sob a égide do medo. Qualquer trovoada, e o ‘fiel’ se mija todo.

A escravidão é um ‘negócio’ rentável, mas só para uma minoria

O enriquecimento fabuloso de pastores e padres a partir da dominação das mentes dessas pessoas e do controle de seus corpos é um dos mais eloquentes sinais de sua vileza, mas eles não poderiam fazer coisa alguma se os próprios ESCRAVOS não achassem que é um privilégio sustentar a ganância de seus feitores como se prestassem um serviço ao seu SENHOR (aquele judeu que supostamente os comprou como sua propriedade).

Não apenas isso. Além de perderem dinheiro, deixam de viver experiências maravilhosas e de descobrir coisas fantásticas sobre si mesmos, o mundo em que habitamos, as espécies com as quais o dividimos, o universo ao redor dele, etc. E tudo porque estão agindo com base no medo (e se for verdade), na culpa (sou pecador e preciso de perdão) ou da ganância (se eu servir a Deus, ele vai me recompensar). Em nada disso há nobreza, só um bando de escravos sujeitos a aproveitadores acreditando que se perderem sua vida, achá-la-ão. Só que não. Perdendo suas vidas, perdem tudo. E passar a vida a serviço desses feitores é perder tudo.

Como é lastimável que, em pleno século 21, tanta gente ainda viva relações abusivas com a religião sentindo-se confortável com uma dominação da qual deveriam querer se libertar imediatamente. E tudo isso numa lógica escravocrata.

Diga não aos senhores e seus feitores!

Seja livre! Seja dono de si mesmo.

Sobre isso, sugiro também a leitura desse post (basta clicar no título abaixo):

Você é dono dos seus pensamentos?

A pastorada caça-niqueis está enlouquecida: queda drástica na arrecadação.

Por Sergio Viula

Com informações da UOL.

pastor-sem-dinheiro

Apesar da crise na arrecadação pelas igrejas caça-niqueis, não se iludam: esses pastores devem ter dinheiro a perder de vista em paraísos fiscais ao redor do mundo. É um PF para a PF, quero dizer, um prato feito para a polícia federal. ^^

 

A crise que se abateu sobre o Brasil de forma mais grave esse ano (2016), vem afetando até os dízimos da pastorada caça-niqueis. É aquela história: O Senhor é meu pastor, nada me faltará, desde que a plebe miserável não seja abandonada pelos governos e/ou pelos mestres de fantoches que controlam o mercado. Mas, isso parece ter sido ignorado pelos pastores fundamentalistas midiáticos que não pouparam ataques ao governo que elevou a renda de seus rebanhos ao longo de 12 anos. Ensandecidos por ambição e vingança, esqueceram-se que era do bem-estar dessa turma de pobres promovidos socialmente há tão pouco tempo e tão fragilmente que seus cofres se alimentavam e seus templos, sejam aquelas barulhentas salas em qualquer esquina ou as mais suntuosas e tecnologicamente aparelhadas catedrais nos endereços mais caros das capitais brasileiras.

Sim, porque, gostem ou não os opositores aos governos petistas, foi ao longo da administração Lula e Dilma que salário mínimo obteve aumento real, empregos foram gerados e distribuição de renda foi promovida entre as camadas mais desprovidas da sociedade por meio de programas  sociais que iam do bolsa-família ao financiamento educativo.

Com a queda do governo que Malafaia e seus asseclas costumavam chamar de ‘petralha’, apesar de terem sido incluídos em muitas posições importantes (erro gravíssimo do PT), como Crivella no Ministério da Pesca, só para citar um, eles acabaram tomando um tiro no pé: Michel Temer, a quem eles apoiaram tão devotamente, não está nem aí para os pobres (exatamente como esses pastores também não estão), mas como são esses pobres que constituem a maior parte do público-alvo dessas igrejas, prejudicá-los significa interromper ou reduzir o fluxo que sustenta a vida regalada que esses comerciantes da fé levam às custas do suado dinheiro de quem acreditando que Deus proverá o que eles precisam se eles proverem primeiro o que o pastor e a igreja necessitam. “Dai e ser-vos-á dado…” Seimmm.

Me dá o teu que depois eu te dou o meu – já ouviram falar dessa brincadeira? Na maioria das vezes, só um come.

cavalos

Esse negócio de dar dinheiro ao pastor para receber de Deus depois não dá certo.

Segundo o site UOL, a queda nos dízimos e ofertas estavam tirando programas pastorais (insuportáveis, diga-se de passagem) do ar. Logo se vê que a crise pode ter seu lado bom. Isso foi em março, mas parece que de lá para cá as coisas só pioraram, exceto pelo fato de que esses patifes conseguiram eleger vereadores que compactuam com suas agendas e interesses. Até prefeito, eles conseguiram eleger, como foi o caso de Crivella no Rio de Janeiro, para vergonha de uma cidade que tinha fama de cosmopolita, mas não passa de uma aldeia dominada por tiranos idolatrados.

Reproduzo abaixo o que a UOL noticiou em itálico e com uns comentários meus em cores:

A crise econômica já afeta de forma profunda a sociedade, inclusive as igrejas evangélicas. Algumas denominações já demonstram isso de forma clara. A Igreja da Plenitude, do evangélico Agenor Duque, acaba de ficar fora do ar por uma semana no canal RBI, devido a falta de pagamento.

Já a Igreja Mundial de Valdemiro Santiago, vem “penando”: perdeu praticamente todos os horários que comprava na RedeTV! –também por atraso no pagamento– e agora mal consegue manter sua emissora na TV fechada (Rede Mundial).

(…)

Nas últimas semanas a igreja de Valdemiro aumentou as campanhas e “desafios” (leia-se “carnês”), nos quais fiéis colaboram com uma doação “extra” mensal, que pode ser de R$ 200 a R$ 2000. A justificativa é que, sem doações, será impossível manter a TV Mundial no ar e as rádios.

Estima-se que a Mundial tenha ao menos R$ 11 milhões mensais fixos em aluguéis de horários em TVs, rádios e aluguel de templos. Aliás, há inúmeros casos de aluguel atrasados na Mundial país afora.

 

Cá entre nós, fica a dica: nunca alugue propriedade sua para igrejas. Se elas não pagam, você não vai conseguir despejá-las com facilidade. Elas conseguem adiar o despejo na Justiça por muito tempo. Cuidado com esse papo que eles adoram fazer: “Irmão, é para a obra de Deus”. É golpe certo, tolinho.

O horário da Plenitude saiu da grade por mais de uma semana, mas agora voltou –assim que pagou a dívida com a emissora. A igreja colocou sua primeira-dama, Ingrid Duque (mulher de Agenor), para agradecer “a todos que ajudaram” com doações para que “a obra continue”.

Essas mulheres de pastores vedetes são muito parecidas com as mulheres de Cunha e de Temer. Elas costumam ser ótimos acessórios na hora de sensibilizar os bobos que dariam um braço por uma boa foto da ‘tradicional família brasileira’ pendurada no gabinete do pastor, mas esquecem que elas vivem como monarcas enquanto as mulheres que as bancam seriam tratadas como quase escravas se trabalhassem no serviço doméstico de suas mansões e seus filhos como estorvos indesejados que só servem para distrair suas mães no serviço.

Já Valdemiro está “proscrito” da TV aberta há quatro anos, desde que perdeu horários na Band e na RedeTV.

O líder da Mundial tem vivido na pele a mais madrasta das crises, aliada a uma inédita fuga de fieis. E tudo começou com longa reportagem do “Domingo Espetacular” (Record), que denunciou o líder da Mundial por lavagem de dinheiro de fiéis, em 2012. (grifo meu)

Veja bem, é muito  bom que a TV aborde as pilantragens desses pastores, mas acreditar que a Rede Record falou das armações de Valdomiro Santiago por amor ao jornalismo, aos fatos e aos legítimos interesses da sociedade é de uma ingenuidade que faria jus mesmo a um inferno de fogo e enxofre com choro e ranger de dentes (pena que não exista de fato).

A verdade é que Macedo e Valdomiro são concorrentes. E Macedo ainda amarga o fato de Valdomiro ser cria sua e tê-lo traído abrindo uma concorrente: a Igreja Mundial do Poder de Deus. A reportagem da TV de Edir Macedo foi uma maneira de desestabilizar a concorrência imposta por Valdomiro. Tudo bem que seja lobo comendo lobo, mas eu não vejo a hora da PF, o FBI, a Scotland Yard e outras polícias federais do mundo investigarem os negócios espúrios da organização controlada por Edir Macedo.

Ministério Público, polícia e –o pior– a Receita Federal causaram grande perda de patrimônio ao auto- intitulado apóstolo, que foi obrigado a vender bens e fazendas milionárias.

Bom, mas quero ver isso acontecer com Macedo, Soares, Malafaia e alguns outros medalhões do execrável evangelho da prosperidade, que nada mais é do que um truque para a exploração de pobres e ignorantes ambiciosos o suficiente para apostarem em canalhas bons de papo que digam o que eles querem ouvir, desde que bancados por seu suado dinheirinho que somam incontáveis milhões no final das contas.

Só que também a Igreja Universal assiste à queda no pagamento de dízimos, mês a mês, desde o ano passado. (grifo meu)

Isso, sim, são verdadeiras boas novas! Nada dói mais nesse Tio Patinhas da fé e sua pastorada pilantra do que a queda nas arrecadações. Pena que seja preciso que tantos sejam lesados financeiramente para que só então percebam que lesada mesmo eram as cabeças deles por colocarem suas dispensas sob os cuidados de ratazanas dessa estirpe.

Pastores ouvidos nos últimos dois dias pela coluna sob a condição de anonimato confirmam a queda, mas afirmam que a orientação da direção da igreja, no momento, é “entender o momento econômico” e, ao contrário das demais, não forçar a doação, fazer exigências ou lançar grandes “desafios” aos fiéis.

Claro, falar demais em crise na igreja é despertar o ceticismo: onde está o Deus que tudo provê? Se ele só funcionou nos 12 anos que antecederam o golpe, então não deve ter sido realmente o autor do milagre.

Sobre outros exemplos da estupidez humana nesse final de ano, leia: 

A estupidez humana é insuperável mesmo

 

Sobre as falcatruas da Universal e de seus líderes, leia o livro que Macedo mandou cassar. Ele se encontra em PDF aqui. Veja as instruções para baixá-lo GRATUITAMENTE em seu computador, tablet ou smartphone:

O livro que Macedo mandou caçar. Eu comprei antes da decisão judicial. Leia aqui.

 

BBC faz matéria sobre ateus: apenas 1 dos 480 mil candidatos a vereador no Brasil (2016) é ateu declarado.

Preconceito, agressividade e desconfiança: como é ser ateu no Brasil

Passava das 22h30 do último dia 2 de outubro quando o então candidato a verador por São Paulo Edmar Luz (PPS-SP) publicou em seu perfil no Facebook uma nota de agradecimento aos 709 eleitores que votaram nele. Minutos depois, começaram a surgir as primeiras mensagens em sua timeline: algumas de apoio, outras de zombaria.

Dos mais de 480 mil candidatos a vereador, Edmar era o único declaradamente ateu do Brasil. “Enquanto uns demonstram curiosidade em saber como um ateu lida com as questões cruciais da vida, como morte e doença, outros, mais exaltados, reagem com desprezo e agressividade”, relata o candidato.

Durante a campanha, Edmar perdeu a conta das vezes em que foi insultado nas ruas. A cena era sempre a mesma: ele distribuía o “santinho” com a propaganda política, o eleitor dava uma rápida lida no papel e, dali a pouco, vociferava algum palavrão, indignado.

“Demônio” e “Satanás” eram os mais recorrentes. Não bastasse, ele sofreu ataques nas redes sociais e, o mais curioso, recebeu críticas até de quem também se diz ateu.

“Religião não define caráter”

No Brasil, a rejeição aos ateus não se limita aos que pleiteiam cargos políticos. Levantamento da Fundação Perseu Abramo, de 2008, mostra que 42% dos brasileiros admitem sentir aversão aos descrentes. Desses, 17% declararam sentir ódio ou repulsa e 25%, antipatia.

“Já fui até ameaçado de morte”, afirma Daniel Sottomayor, um engenheiro civil que ajudou a fundar, em 2008, a Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (Atea) ─ entidade que reúne 17 mil membros e mais de 592 mil seguidores no Facebook.

Inspirada em uma campanha britânica, a Atea tentou estampar anúncios em ônibus de quatro capitais brasileiras, em 2010. Não conseguiu. A propaganda foi considerada ofensiva e rejeitada pelas empresas. Um ano depois, nova investida. Dessa vez, a associação conseguiu espalhar alguns poucos outdoors pelas ruas de Porto Alegre (RS), com slogans do tipo “Religião não define caráter” ou “Somos todos ateus com os deuses dos outros”.

“Enquanto as notas de Real louvarem a Deus, as escolas públicas tiverem ensino religioso e as repartições do governo ostentarem crucifixos, os ateus continuarão ser tratados como cidadãos de segunda classe”, protesta Sottomayor.

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Para Eli Vieira Araújo, da Universidade de Cambridge, as campanhas ateístas não são efetivas porque se valem de slogans

 

Na opinião do biólogo Eli Vieira Araújo, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, campanhas ateístas não são efetivas porque se valem de slogans que, como qualquer frase de efeito, estão “cheios de furos”.

É o caso de “A fé não dá respostas. Só impede perguntas”. “Sabe quem refutaria essa frase? Isaac Newton. Ele fez ciência só até por volta dos 30 anos. Depois disso, dedicou-se à teologia”, diz Araújo.

Um dos fundadores da Liga Humanista Secular do Brasil (LiHS), Eli afirma que, quando o assunto é não ter vergonha de se assumir publicamente, ateus e agnósticos ainda têm muito a aprender com a experiência de gays e lésbicas.

“Embora ainda seja difícil para muita gente lidar com LGBTs fazendo carícias públicas, até quem tem ojeriza a eles reconhece que estão dentro de sua liberdade num país laico”, analisa.

O preconceito que ateus e agnósticos sofrem ao redor do mundo encorajou o cineasta Micael Langer a abordar o tema em Godless – The Truth Beyond Belief(Sem Deus – a verdade além da crença, em tradução livre) que deve chegar aos cinemas no segundo semestre de 2017.

Em alguns países, negar a existência de uma entidade divina pode significar a perda do emprego. Em outros, uma sentença de morte. “Muitas vezes, os ateus preferem se trancar no armário a passar por situações constrangedoras”, diz.

Até o momento, Langer já entrevistou dois dos incrédulos mais famosos do planeta: o biólogo evolucionista britânico Richard Dawkins, autor de Deus, Um Delírio, e o sociólogo americano Phil Zuckerman, de A Sociedade Sem Deus.

“O público-alvo do meu filme não são os ateus. Meu objetivo é trazer um pouco de luz a um debate que, apesar de ser importante e afetar a vida de milhões de pessoas, costuma ser varrido para debaixo do tapete.”

 

LEIA A MATÉRIA NA ÍNTEGRA AQUI: BBC BRASIL – Preconceito, agressividade e desconfiança: como é ser ateu no Brasil