Você é dono dos seus pensamentos?

 

Por Sergio Viula

Originalmente publicado no AASA

Você é dono dos seus pensamentos?

 

É amplamente conhecido o ódio dos fundamentalistas muçulmanos contra qualquer sinal de diversidade ou de discordância das normas arbitrariamente estabelecidas por odiadores que viveram antes deles, principalmente autoridades políticas e religiosas.

Mas, atenção: Ninguém nasce num mundo “virgem” em termos de normas. Não existe uma sociedade sequer, na qual um indivíduo possa nascer sem que esteja sujeito a normas que o constrangem e o modelam em sua mais íntima subjecérebro preso a dogmastividade.

Antes mesmo do primeiro choro do recém-nascido, uma série de normas já estão operando para “enformá-lo” tão-logo ele chegue ao mundo. Essas normas envolvem gênero, sexualidade, crenças, classe social, etnia, nacionalidade, e determinarão muito do pensamento e comportamento desse indivíduo futuramente.

Por isso, não basta que se retire um fanático muçulmano, vítima de extremismos, ainda mais extremos do que o seu próprio, da região em que vivia, para que esse refugiado ou imigrante se livre do sistema de coerções que restringiam e continuam restringindo seu pensamento e comportamento.

Isso é o que temos visto da parte de refugiados muçulmanos homofóbicos, os quais, trazendo toda a bagagem de preconceitos que acumularam em sua terra de origem, ameaçam, torturam e até matam seus conterrâneos homossexuais com base nos mesmos pressupostos esposados pelos grupos extremistas, dos quais eles também fugiram: o Estado Islâmico, o Boko Haram, a Al Qaeda, entre outros.

Na Suécia, dois jovens marroquinos mataram um cidadão homossexual, mas além do espancamento que resultou em morte, eles o insultaram com xingamentos homofóbicos o tempo todo. Por fim, enrolaram uma cobra morta no pescoço da vítima. Não escaparam, porque um dos jovens teve seu DNA identificado graças a resquícios de seu sangue na cobra – símbolo do mal personificado para judeus, cristãos e muçulmanos. Um vídeo com as cenas do espancamento foi recuperado pelos investigadores suecos, mesmo depois de apagado, e a cena do crime pôde ser vista em detalhes.

Além desse episódio na Suécia, a Holanda tem se preocupado com o sofrimento dos refugiados sírios que são gays. Eles têm sido submetidos a todo o tipo de constrangimento e risco de morte entre seus patrícios, igualmente refugiados. Tanto assim que esse mês (dez/15), o Ministro da Justiça holandês, Klaas Djikoff, decidiu criar uma ala separada para os refugiados que venham a sofrer assédio homofóbico ou que voluntariamente se identifiquem como gays ao serem recebidos nos espaços de recolhimento. Inicialmenre, o ministro hesitou em criar esse espaço, porque considerava que essa seria uma forma de segregação com base em orientação sexual. Porém, levando em consideração o risco real para a vida dessas pessoas, ele não viu outra alternativa.

Em julho desse ano, um jovem iraquiano contou à BBC (http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/07/150723_ei_homossexuais_tg) como escapou de ser entregue pelo próprio pai ao Estado Islâmico. O pai estava ciente do destino dos homens gays entregues aos milicianos extremistas. Ele sabia que o filho provavelmente seria atirado de um prédio, sob a excitada aprovação da multidão, mas mesmo assim pretendia fazê-lo. O rapaz conseguiu escapar a tempo.

Tragicamenre, é justamente esse o tipo de multidão que emigra para outros países, tentando escapar do ISIS e outros grupos. Suas mentes deformadas pela homofobia – continuamente alimentada pelas crenças e normas estabelecidas ao longo de séculos de doutrinação religiosa naquelas sociedades – vai com eles, obviamente. Vale lembrar que muitas dessas pessoas consideram a si mesmas como fiéis e amáveis seguidoras de Alá e de seu profeta. A noção que têm de si mesmas e das outras pessoas é patologicamente distorcida pelos sistemas de coerção baseados em crenças e discursos que elas mesmas consideram como sagrados, apesar de violarem qualquer noção de direitos humanos.

Sensível a essa terrível realidade que os refugiados LGBT tem enfrentado, mesmo quando chegam a terras consideradas mais seguras que seus países de origem, foi que o presidente Barack  Obama decidiu priorizar o recebimento dos refugiados com esse recorte identitário que fogem da morte na Síria. A decisão foi anunciada pela Casa Branca no último dia 09.

Mas por que trago essas notícias hoje? Entre outras coisas, para que reflitamos sobre o sofrimento que essas pessoas estão vivenciando, mesmo depois de chegarem a destinos onde acreditavam que teriam paz e alguma chance de começar uma nova vida.

Isso nos diz muito sobre os males que os discursos religiosos podem causar aos seres humanos, mas, muito mais do que isso, gostaria de chamar a atenção dos meus queridos leitores e das minhas queridas leitoras para o fato de que nós também estamos sujeitos a sistemas de coerção, que, de modo semelhante àqueles, modelam nosso pensamento de muitas maneiras, assim como o pensamento das pessoas que nos rodeiam – o que pode nos dar a falsa sensação de que não podemos estar errados. Afinal, muita gente pensa do mesmo jeito e é impossível que tanta gente esteja enganada. #sóquenão. Podemos estar absolutamente enganados. E para piorar, podemos estar sendo reforçados em nosso engano por pessoas tão enganadas quanto nós mesmos. Como quebrar essa corrente de equívocos, então?

Felizmente, apesar das múltiplas influências e interações que ajudaram a constituir nossa subjetividade, podemos pensar o pensamento. Não é fácil, mas é possível. E como o modo como nos vemos e vemos os outros, e a maneira como agimos no mundo, tem muito a ver com o que pensamos a partir de pressupostos já cristalizados em nossa cultura, antes mesmo que pudéssemos problematizá-los, devemos nos esforçar sinceramente por reconhecer e compreender o modus operandi dessa rede de coerções.

Ao nos darmos conta de como essas coisas se interconectam e nos constituem, poderemos reconstruir os caminhos que nos trouxeram aqui. É preciso que identifiquemos o que não é racional, razoável e justificável a partir de uma ética que inclua o máximo de empatia possível, a fim de mudarmos o que for preciso para que nos tornemos seres humanos mais abertos, livres e felizes e para que sejamos proativos na produção das condições de existência que permitirão que outros também o sejam.

Infelizmente, a desconversão, a apostasia, ou seja lá como queiram chamar o abandono da fé por alguém que ainda há pouco era crente, não é suficiente para garantir que o indivíduo fará uma completa travessia para fora das caixinhas mentais que lhe foram impostas ou daquelas que ele abraçou irrefletidamente, a partir das interações sociais que vivenciou desde que nasceu. Por isso, ainda existem tantos ateus que reproduzem preconceitos engendrados pelas crenças e pelas instituições religiosas – e não me refiro apenas à homofobia e seus derivados.

De qualquer modo, ver um ou outro ateu usando termos como “gayzista”, por exemplo, para desmerecer a luta das pessoas LGBT por direitos iguais é algo que me causa profundo estranhamento. Primeiro, porque o termo foi cunhado por fanáticos do movimento neo-pentecostal americano quevenderam essa ideia para extremistas evangélicos no Brasil, como foi o caso de Julio Severo, que através de seus canais na internet, serviu de interface entre os pastores extremistas e caça-níqueis  americanos e brasileiros do ignóbil quilate de Silas Malafaia, Marco Feliciano e outros. Note bem o que estou dizendo: EU, SERGIO VIULA, já ouço  Júlio Severo usando esse termo há anos. Há uns 14 anos!!! De repente, o mais fake de todos os fakes de filósofo, o insuportável Otávio de Carvalho, começou a usar o termo também. Bastou isso para que alguns ateus (não mais inteligentes do que essa turma de ignorantes) achassem o termo engraçadinho e começassem a usá-lo para fins de piada e para desmerecer o que realmente está em jogo: as justas demandas das pessoas LGBT por direitos iguais, bem como a liberação da sociedade das mesmas amarras que atam todos esses fundamentalistas (e, digo-o com vergonha alheia, alguns ateus ignorantes também) num amontoado de esquizofrênicas inutilidades contemporâneas.

Além do total nonsense do termo gayzista, ele justapõe dois substantivos historicamente antagônicos – gay e nazista.

Gays foram torturados, mortos e esquecidos nas cadeias, mesmo depois do final do Holocausto nazista, graças ao parágrafo 145 do Código Penal da Alemanha, sendo os homossexuais e transgêneros de vários tipos o único grupo que sofreu dupla violência: a dos campos de concentração e a da não compensação pelo governo alemão do pós-guerra.

A justaposição dos dois termos (gay e nazista) está longe de ser inocente. Ela foi pensada, através da cunhagem  do híbrido gayzista, dar a entender que existe esse (outro) absurdo semântico, a “ditadura gay”.

Quando você quiser mostrar claramente a altura, a largura e a profundidade da sua ignorância e má-fé, use interno gayzista na presença de gente que não faz uso desse termo e nem advoga a ridícula ideia de ditadura gay. Você será imediatamente reconhecido como membro do nada seleto grupo dos completos idiotas.

Ironias à parte,  não use esses termos para se referir à comunidade LGBT e sua luta. Não seja conivente com os que trabalham na mesma lógica do ISIS, dos nazistas, dos fundamentalistas cristãos e dos judeus ultraortodoxos, só para citar alguns. Todos eles estão presos à mesma matriz de crenças e de moralidade abraâmica. Liberte-se disso o quanto antes.

É por isso que eu já disse reiteradas vezes que penso o seguinte: nenhum ser humano, principalmente se for cético, agnóstico ou ateu, deveria se contentar em simplesmente não adotar um credo religioso. Para além disso, cada um desses seres humanos deveria fazer um trabalho sério de desconstrução de conceitos e preconceitos. Mas isso apenas para abrir espaço para a construção de conceitos e valores que não admitam – sob qualquer hipótese – a restrição das liberdades humanas, seja no campo do pensamento ou da expressão de si mesmo. E por expressão, refiro-me às expressões identitárias, bem como às expressões de ideias e de afetos. E associemos a isso o direito legítimo à autorrealização, seja ela qual for, desde que não viole os direitos fundamentais das outras pessoas.

Simplificando: O fato de um sírio, iraquiano ou iraniano ser gay, e se realizar como ser humano enquanto tal, não viola o direito de qualquer muçulmano, cristão, judeu, hindu, budista, ou religioso de qualquer outra filiação, muito menos de ateus e agnósticos.

Por outro lado, o ódio homofóbico de qualquer uma dessas pessoas viola direta e gravemente os direitos das pessoas homossexuais, bissexuais e trans, inclusive o mais essencial deles, que é o direito à vida. Isso, por si só, já deveria fazer qualquer ser humano inteligente e desprovido de má-fé, ou que não sofra de alguma psico/sociopatia, a abandonar qualquer pragmática anti-LGBT.

O que não podemos admitir, sob hipótese alguma, é que o ódio LGBTfóbico que caracteriza certas sociedades do Oriente Médio, da África e da Ásia venha a lançar raízes em países que se tornaram o sonho imigratório dessas pessoas exatamente por funcionarem sobre bases mais humanistas e secularistas.

Por isso mesmo, refaço aqui a pergunta do título: Você é dono dos seus pensamentos? Ou será que os pensamentos que você tão obstinadamente considera seus são, na verdade, o resultado de uma espécie de contínua “colonização”, resultante de sua inserção nessa rede discursiva altamente complexa e profundamente influente que o rodeia e perpassa desde o primeiro contato dos seus pulmões com o oxigênio do ambiente em que você nasceu? Lembre-se que nossa sociedade foi doutrinada sob bases muito semelhantes às do islamismo: as bases dos monoteísmos judaico e cristão são essencialmente as mesmas. Na verdade, o islamismo é uma combinação de judaísmo e cristianismo com crenças correntes no tempo de Maomé e seus sucessores.

Se isso o consola, temos sido (todos) colonizados por essas ideias em alguma medida. Mas não confunda consolo com resignação. Não parece ser uma atitude correta resignar-se diante do simples fato de que você não é o único. Lembre-se que você pode reavaliar, refletir, expor-se a outras maneiras de ver e de pensar as mesmas coisas. Você pode realizar profundas mudanças em seu modo de pensar, falar e agir, mesmo que leve muito tempo nesse processo. Mas, que sejam mudanças para garantir mais liberdade, mais abertura para a diversidade de sujeitos com igualdade de direitos, para a assumir e usufruir o próprio corpo, de modos cada vez menos sujeitados às arbitrariedades de gente que vive de mal com o mundo e consigo mesma.

Que você e eu atinjamos uma abertura maior para o pensamento racional, razoável, acompanhado daquela compaixão que nos resguarda de fazermos o que não gostaríamos que fizessem conosco ou nos livra de nos omitirmos  naquilo que gostaríamos que outros agissem, caso fôssemos nós na berlinda.

Em uma frase: Não podemos admitir nada menos que as condições de existência que garantam um lugar seguro ao sol para todos, todas e todxs!

Boa semana!

Sergio Viula

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