Quando é que você vai ser feliz?

Por Sergio Viula
Publicado originalmente no AASA

garoto pensando

Muita gente vive o tempo todo no mundo das hipóteses. São pessoas que dizem: “Se eu tivesse dinheiro, seria feliz”; “se eu tivesse um grande amor, seria feliz”; “se eu morasse em outro país, seria feliz”; “se eu tivesse saúde, seria feliz”; “se meus pais não fossem assim ou assado, eu seria feliz”; e por aí vai.

Porém, todas essas coisas não passam de desculpas que as pessoas dão a si mesmas e aos outros para tentarem justificar suas frustrações e a falta de vontade de transformá-las em força para realizarem as mudanças que poderiam viabilizar sua felicidade, tornando tudo mais leve e mais gostoso.

Em momentos como o que vivemos atualmente no Brasil, os sentimentos de frustração aumentam, seja por uma razão ou por outra. Uns ficam frustrados em terem governos que não desejam. Outros, em pensar que esses governos poderão ter fim antes do que esperavam. Essas frustrações vampirizam parte da energia que poderia ser investida na construção das condições necessárias à auto-realização. Como dizia Espinosa, as paixões tristes nos enfraquecem.

Considerem cuidadosamente o que digo, meus amigos e minhas amigas: há 500 anos, essa quimera chamada Brasil faz parte do mapa do mundo. Já foi colônia, vice-reino, império, república (desde 1889 até hoje), mas nunca foi o que a maioria esmagadora dos brasileiros esperava de um país que tem a ousadia de dizer-se “mãe gentil, pátria amada, Brasil”.

Como república, já vivemos em ditadura, abertura e democracia, tanto com voto indireto como com voto direto. Em 1988, nossa assembleia constituinte produziu umas Constituições mais avançadas do mundo. E ainda assim, o Brasil continua tratando os filhos desse solo de modo nada gentil. A podridão está em todas as esferas de poder, passando por todos os partidos (ou, para ser cauteloso nas generalizações: quase todos) e não há muito o que possamos fazer.

Dizem que não sabemos votar. Mas como votar bem quando as chapas são decididas pelos partidos? Os candidatos, dentre os quais somos obrigados a escolher um governante ou legislador, são praticamente da mesma fabricação. Seria mais fácil escolher um anjo do bem entre os seguintes candidatos: o Demônio, o Diabo, Satanás, o Capiroto, o Sete Pernas, o Unha Fendida, o Tinhoso. Alguém poderia dizer: “Mas todos esses nomes não se referem ao mesmo indivíduo?” Eu responderia: Sim, mas imaginemos que sejam candidatos diferentes com a mesma essência. Essa é uma metáfora do que somos obrigados a encarar no processo eleitoral brasileiro, na maioria dos casos. Então, como dizer que o povo não sabe votar? Talvez não saiba, mas nunca teremos certeza enquanto o quadro eleitoral for esse.

Na verdade, os palácios de onde se exerce o poder executivo, seja em nível federal, estadual ou municipal, tornaram-se escritórios para despachar de acordo com os interesses de seus verdadeiros patrões: as grandes empresas, entre elas as igrejas, é claro, mas não exclusivamente e nem principalmente. Empresas no campo do petróleo, da engenharia, do câmbio, da farmácia, dos transportes, entre outras. Estas são as mãos que controlam as marionetes – os políticos. E isso pode ir do presidente aos vereadores, que comportam-se como vaquinhas de presépio diante dos interesses dessas empresas, ganhando muito dinheiro para isso, e como testas-de-ferro quando a casa cai. Isso tem sido historicamente assim.

A diferença é que agora, vemos os ratos comendo-se uns aos outros, encurralados pela justiça. Delatam-se uns aos outros na esperança de escaparem mais cedo da cadeia ou não serem lançados nela. Mas aqui também existem muitos riscos, pois a delação sem prova material pode ser mera calúnia, e esta não deveria ser admitida no processo jurídico, uma vez que ela mesma também é crime.

Ao cultivarem esse clima de desalento geral, setores interessados em sabotar o projeto democrático, o sonho republicano, bem como qualquer possibilidade de se promover igualdade e bem-estar social, a partir do crescimento econômico e do fortalecimento das instituições republicanas e democráticas, podem acabar tirando vantagem desse quadro, facilitando o acesso de fascistas ao poder estatal. Isso seria uma catástrofe ainda maior, pois aí teriam eles poder para executarem suas agendas sanguinárias.

O ponto central é: precisamos tomar cuidado com essas manobras sem deixarmos de investigar aquelas outras coisas, sejam quem forem os possíveis envolvidos: Dilma, Lula, Aécio, Cunha, Calheiros, etc.

Enquanto vemos o circo – em seu pior sentido – desfilando verdadeiros shows de horror na mídia, governadores como Alckmin ainda não explicaram a máfia das merendas. Pezão ainda não pagou os atrasados do funcionalismo. Pior ainda, esse senhor que (des)governa o Rio de Janeiro está endividando o estado através de empréstimos milionários. Há que se ver que comissões podem estar sendo repassadas para cada empréstimo realizado. Lembram-se que foram fechados os buracos por onde os ratos eram alimentados com financiamento de campanhas por empresas privadas? As ratazanas cavarão outros. Então, duvido muito que esse “endividamento” seja algo fortuito.

Por essas e outras, o tema dessa coluna é: Quando você vai ser feliz? Porque se você está pensando em ser feliz só no dia em que o Brasil se livrar dos roedores que devoram suas riquezas, você provavelmente vai morrer sem saber o que é felicidade. É preciso que junto com a luta por justiça e igualdade, aprendamos a construir nossa própria felicidade sem dependermos diretamente de quem ou do que quer que seja. Não importa se é uma condição específica, ou uma pessoa da família a quem você se submete (refletida ou irrefletidamente), ou mesmo um governante que você considera um crápula, mas que terá que suportar até o final de seu mandato – você nunca será plenamente feliz se condicionar sua realização pessoal e suas alegrias mais profundas a essas pessoas ou circunstâncias. É preciso cultivar uma autonomia que não despreza o outro, mas que também não o supervaloriza, seja para o bem ou para o mal.

O Brasil tem mais de 500 anos. Você provavelmente não viver nem 100. Alguns não chegarão sequer aos 30 ou 40. Como é que você pode adiar sua felicidade? Mortais não têm tempo a perder. Quanto ainda você vai esperar para ir atrás do que deseja? Mas lembre-se: dificilmente, a felicidade pode ser construída por meios injustos. Não se engane.

Ressalto mais uma vez: não adianta dizer que os outros impedem sua felicidade. Se isso acontece, é porque você permite que eles o façam. Então, no final das contas, é você mesmo que se sabota. Livre-se desse padrão de pensamento-comportamento e construa sua própria felicidade. Cabe a você descobrir como realizar a sua. Não existem cartilhas. E por que não começar agora mesmo? Tudo o que temos é esse átimo. Aproveite-o ao máximo.

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