O equívoco de quem não sabe fazer distinção entre vingança e justiça.

Sergio Viula

Originalmente publicado no AASA

vingança de deus

“MINHA É A VINGANÇA. EU RETRIBUIREI.”

Quem foi o doido que disse isso?

Jeová!

O equívoco de quem não sabe fazer distinção entre vingança e justiça.

Por Sergio Viula

Quando um deus confunde justiça com vingança, claro está que ele mesmo não passa de uma projeção da paupérrima mentalidade de homens vingativos e movidos pela temerária emoção da ira, em vez de se conduzirem pela racionalidade e pela benignidade.

Bem, isso é exatamente o que encontramos nas três escrituras sagradas dos três maiores monoteísmo do nosso tempo: judaísmo, cristianismo e islamismo.

As escrituras judaicas dizem em Ezequiel 25:17 o seguinte (grifo meu): “E executarei sobre eles grandes vinganças, com furiosos castigos, e saberão que eu sou o Senhor, quando eu tiver exercido a minha vingança sobre eles.”

As escrituras cristãs, em 2 Tessalonicenses 1:7,8, dizem o seguinte (grifo meu): “…quando se manifestar o Senhor Jesus desde o céu com os anjos do seu poder,
Com labareda de fogo, tomando vingança dos que não conhecem a Deus e dos que não obedecem ao evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo…”

Nas escrituras muçulmanas, Sürah 22:57, versão inglesa editada pela Saheeh International, está escrito seguinte (traduzo logo a seguir): “And they who disbelieved and denied Our signs – for those there will be a humiliating punishment.” “E aqueles que descreram e negaram Nossos sinais – para esses haverá uma punição humilhante.”

Vejamos então o que há de errado no conceito de vingança para que o consideremos diametralmente oposto ao conceito de justiça.

De acordo com o Dicionário Aurélio, vingança é: “atitude de quem se sente ofendido ou lesado por outrem e efetua contra ele uma ação mais ou menos equivalente.”

Essa definição mostra claramente a incoerência de um deus que seja, ao mesmo tempo, perfeito e vingativo. Se um dos aspectos da perfeição de deus é a imutabilidade, ele não pode se abalar com o que acontece externamente. Em outras palavras, nada abaixo (muitíssimo abaixo dele, já que ele é o Altíssimo) deveria atingi-lo – nem mesmo minimamente. Isso quer dizer, entre outras coisas, que ele não deveria e nem poderia se sentir ofendido ou lesado por outrem. Afinal, quem poderia lesa-lo? Se alguém pudesse causar-lhe algum mal, esse alguém teria encontrado em deus uma fraqueza, uma imperfeição, e deus já não seria tão grande assim.

Se, além disso, esse deus sentisse vontade de efetuar contra o ofensor uma ação mais ou menos equivalente, ele seria tão mesquinho quanto qualquer bandidinho em boca-de-fumo nos milhares pontos de tráfico espalhados Brasil afora.

Pior ainda: não existe a menor equivalência entre a ofensa humana e a vingança perpetrada por esse deus. A razão é simples: quem escreveu isso não entendia a diferença entre justiça e vingança e nem conseguia pensar de modo coerente a tal perfeição divina e os sentimentos humanos atribuídos à divindade.

Observe a desproporção: a desforra é uma eternidade de sofrimento sem fim e sem medida, mas as ofensas podem ser tão tolas quanto não declarar que “Jeová é Deus” (judeus), que “Jesus é o salvador” (cristãos), ou que “Alá é Deus e Maomé é o seu profeta” (muçulmanos).

E não importa se isso aconteceu durante os meros 10 anos de vida de uma criança que morra precocemente ou durante os 120 anos de um ancião duro na queda – o castigo será insuportável e sem fim. Só que não. Isso é apenas imaginação de mentes ambiciosas que sabiam manipular homens medrosos e culpados como ninguém.

Mas, nem mesmo o mais fiel dos judeus, cristãos ou muçulmanos poderá ter certeza de que viveu como seu deus queria, porque a menor ofensa pode trazer grande vingança. Vide a mulher de Ló, transformada em estátua de sal por ter simplesmente dado uma olhadinha para trás (Velho Testamento). Ou, então, Ananias e Safira, mortos por deus diante dos apóstolos, porque venderam um terreno e entregaram o valor como se fosse 100% da venda, mas guardaram uma parte para si de um terreno que era dos próprios (Novo Testamento). Veja como muçulmanos que falham em cumprir certos rituais são assassinados como infiéis, apesar de uma vida de dedicação ao seu deus (em todas as teocracias muçulmanas atuais). E isso tudo baseado nos textos sagrados.

Parece que os deuses dos três monoteísmos abraâmicos não são melhores que quaisquer outros mitos antigos, afinal. Pelo contrário, há deuses muito mais interessantes em outras paragens.

O que é a justiça, então?

Novamente, o Dicionário Aurélio oferece várias pistas:

No campo do conceito, é a prática e exercício do que é de direito; a conformidade com o direito; o direito; a retidão.

No campo institucional, são os magistrados e outros indivíduos do foro; o poder judiciário; a lei penal; a punição jurídica.

No campo a ética, é fazer o justo; o merecido; obrar ou julgar segundo o que é justo.

Mas nossas mentes foram colonizadas para pensar de modo muito diferente daquele que seria justo de fato.

Fomos educados a pensar que a vingança de deus é boa. E muitas pessoas ficam felizes quando um desafeto sofre, porque atribui a deus a vingança que ela mesma não poderia ter executados sem se tornar condenável. E como é que deus pode continuar sendo bom fazendo a mesma coisa que me tornaria condenável?

A vingança nunca é boa. A vingança é filha da intemperança, da falta de domínio próprio. Ela nos tenta porque desejamos fazer o mal, mas quando não o fazemos é porque exercemos nosso domínio próprio para reprimir as ações motivadas por tais sentimentos. O problema é que um deus realmente benigno nem mesmo deveria (ou sequer poderia) desejar fazer o mal. E, sendo a vingança destituída de benignidade, é uma contradição aceitar que deus seja benigno e vingativo ao mesmo tempo. Ele não pode ser os dois. Ou ele se vinga e é maligno. Ou ele não se deixa afetar pelo seu derredor, e não se vinga de modo algum, e é benigno.

Por causa desse equivoco, muitas pessoas toleram a vingança feita pelos próprios seres humanos, uns contra os outros, chegando a dizer que o tal vingativo pode ter sido usado por deus para fazer justiça. Veja a confusão de termos e conceitos aparecendo aí novamente. NÃO HÁ JUSTIÇA NA VINGANÇA. Só há ira e intemperança. Só há orgulho e egoísmo trabalhando juntos.

Mas será que a justiça existe mesmo? Será que ela é um ente? A resposta é simples: NÃO! Nós somos os que produzimos a justiça.

Mais do que isso: o fato de algo estar em conformidade com as leis, não significa que seja justo. Pode ser legal, juridicamente falando, enforcar adolescentes gays no Irã, mas isso não é justo. Pode ser legal escravizar outras pessoas, como já o foi no Brasil, mas isso não é justo.

Como diz André Comte-Sponville, “quando a lei é injusta, é justo combatê-la – e pode ser justo, às vezes, violá-la.”

Mas vai além disso: nem mesmo distribuir as oportunidades ou bens em proporções iguais para todos, sem distinguir suas individualidades e necessidades pessoais, é necessariamente fazer justiça. Daí, as vagas especiais para motoristas cadeirantes em estacionamentos; a prioridade no atendimento a pessoas idosas e grávidas; a reserva de vagas para pessoas com necessidades especiais em concursos públicos; a exigência de que as empresas privadas incluam pessoas com necessidades especiais nos seus quadros de funcionários; e por aí vai.

Para que haja igualdade, será preciso que se trate de modo diferenciado aqueles que têm necessidades diferentes.

Para quem ainda não conhece a lei que regulamenta a contratação de pessoas com necessidades especiais, trata-se da lei número 8.213, de 24 de julho de 1991. Seu artigo 93, diz o seguinte:

A empresa com 100 ou mais funcionários está obrigada a preencher de dois a cinco por cento dos seus cargos com beneficiários reabilitados, ou pessoas portadoras de deficiência, na seguinte proporção:

– até 200 funcionários……………… 2%

– de 201 a 500 funcionários……….. 3%

– de 501 a 1000 funcionários……… 4%

– de 1001 em diante funcionários… 5%

Não adianta alinhar corredores sem quaisquer necessidades especiais com corredores que apresentem alguma deficiência física e/ou mental no ponto de partida e dizer que todos eles estão recebendo as mesmas oportunidades, ou chances, de ganhar. Se alguns deles são cegos, amputados ou portadores da Síndrome de Down, alguma concessão terá que ser feita para que eles tenham realmente as mesmas chances que os outros que não são portadores de deficiência alguma.

Não há mudança sem conscientização e mobilização. Quando as leis ferem os direitos básicos dos seres humanos ou quando nem mesmo há legislação para efetivar esses direitos, precisamos pressionar nosso legislativo e nosso judiciário para que considerem essas injustiças e aprimorem o Direito. Esse é o melhor caminho para garantirmos a todos possibilidades de vida mais justas, pelo menos o mais justo possível. Cito Comte-Sponville de novo:

“E para isso, é necessário um critério, ainda que aproximativo, e um principio ainda que incerto. O princípio deve estar do lado de certa igualdade, ou reciprocidade, ou equivalência, entre indivíduos, sem se reduzir a ela. É a origem da palavra equidade (de aequus, igual), que seria sinônimo de justiça.”

Os justos tendem a essa igualdade, mas os injustos querem combatê-la.

Não é fácil ser justo, mas é doce o fruto da justiça. E para produzir justiça, vale a pena seguir o conselho de Alain (pseudônimo de Émile Chartier):

“Em todo contrato e em toda troca ponha-se no lugar do outro, mas com tudo o que você sabe e, supondo-se tão livre das necessidades quanto um homem pode sê-lo, veja se, no lugar dele, você aprovaria essa troca ou esse contrato.”

O justo faz isso, mesmo que nem se dê conta de que o faz. O injusto, por sua vez, não quer que os sujeitos sejam iguais e livres, porque isso dificultaria ou inviabilizaria suas iníquas transações e o alcance de seus alvos mesquinhos. Ele gosta da opressão, desde que o oprimido seja o outro, especialmente se tira proveito do sistema iníquo que o cerca.

Daí, essa cortina de fumaça que os homens mais injustos e privilegiados do país (alguns pastores, padres, políticos, empresários, etc.) costumam deflagrar em torno de qualquer iniciativa de promover a igualdade de direitos na diversidade das individualidades e suas respectivas necessidades. Você vai reconhecer a palavra; ela se tornou um chavão na boca desses malfeitores e de outros que costumam repeti-los sem que se deem conta do embuste que estão reproduzindo: PRIVILÉGIOS.

Vejamos alguns casos recorrentes e muito facilmente observáveis:

  1. Isentar ateus da participação em cultos ou outras práticas religiosas na escola ou no local de trabalho. Isso já foi chamado de privilégio, apesar de testemunhas de jeová, por exemplo, conseguirem até isenção do serviço militar obrigatório, por causa de suas crenças religiosas;
  1. Garantir os mesmos direitos ao casamento civil, independente do sexo dos parceiros. Isso já foi chamado de privilégio. É mera igualdade e não subtrai nada dos que já gozavam desse direito;
  1. Considerar os crimes de homofobia como crimes de ódio, assim como os crimes motivados por racismo e misoginia. Isso já foi chamado de lei de privilégios, mas trata-se apenas de uma das muitas respostas que devem ser dadas, diante do aumento dos assassinatos motivados por homofobia e transfobia, amplamente divulgados na imprensa brasileira – uma realidade inegável;
  1. Combater a violência contra a criança, inclusive praticada pelos próprios pais com castigos corporais. Isso já foi alvo de amplo ataque por parte de fundamentalistas e conservadores da pior espécie;
  1. Reformar o sistema penitenciário (a palavra mesmo já vem de penitência, um conceito religioso de castigo, punição para expiação) para que seja, na verdade, um sistema de reintegração social, que, ao mesmo tempo em que prive o criminoso de sua liberdade, eduque-o para ser produtivo, ajudando-o a superar aquelas deficiências pessoais (internas e externas) que cooperaram para que ele praticasse o delito, indo parar ali. Isso já foi chamado de privilégio para bandidos, quando, na verdade, além de ser justo, evitaria novos ataques à sociedade.

E por aí vai…

Talvez, nós ateus, secularistas e humanistas devamos nos empenhar em sermos mais justos que a média. Não podemos esperar que a justiça se faça independentemente de nós mesmos. Sabemos que não há um deus que garanta a justiça. Pelo contrário, os deuses que os homens criaram não passam de seres (imaginários) vingativos e inúteis, que nunca promoverão o bem, efetivamente.

Mas o que é um justo, afinal?

Cito André Comte-Sponville novamente:

“É alguém que põe sua força a serviço do direito, e dos direitos, e que, decretando nele a igualdade de todo homem com todo outro, apesar das desigualdades de fato ou talentos, que são inúmeras, instaura uma ordem que não existe, mas sem a qual nenhuma ordem jamais poderia nos satisfazer. O mundo resiste, e o homem. Portanto, é preciso resistir a eles – e resistir antes de tudo à injustiça que cada um traz em si mesmo, e que é si mesmo. É por isso que o combate pela justiça não terá fim.”

O mundo, porém, será um lugar mais justo ou menos justo, mais feliz ou infeliz, dependendo de quantos indivíduos se disporão a ser justos no melhor de suas habilidades pessoais. Não se constrói um mundo justo sozinho, mas não se pode esperar pelos outros para começar. E isso pode começar em casa, na escola, no trabalho, nas redes sociais, e aonde mais sua influência chegar. Você está disposto a ser um desses construtores?

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P.S.: Escrevi o texto acima ontem e tive a grata surpresa de ver essa matéria do Jornal O Dia hoje (segunda, 11/05/15). Encaixa-se perfeitamente no conceito de igualdade que eu discuti acima. Confira: http://odia.ig.com.br/noticia/economia/2015-05-09/geracoes-de-graduados-formados-a-partir-da-politica-de-cotas-ja-fazem-diferenca.html Feliz em ver isso. 🙂

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