NÃO APRENDA A SER PAI COM A BÍBLIA. E veja por quê.

Por Sergio Viula

Originalmente publicado no AASA

pai

NÃO APRENDA A SER PAI COM A BÍBLIA.

E veja por quê.

A maioria das pessoas acredita sinceramente que a Bíblia seja uma excelente fonte de inspiração e de aprendizado para tudo na vida, especialmente quando se trata das relações familiares. Bem, nada poderia estar mais distante da verdade do que isso, e sendo hoje o dia dos pais, acho que seria muito oportuno visitar alguns “amiguinhos” bíblicos.

Abraão, por exemplo, mandou seu filho Ismael com a mãe, que era escrava de Sara, sua esposa, para o deserto sem qualquer logística de sobrevivência, apesar de ser podre de rico. Ele sabia que seu filho estava sendo enviado para a morte, mas o fez assim mesmo. Não interessa a historinha do anjo que “providenciou” água nem o que mais tenha inventado a imaginação humana para justificar a expulsão e o subsequente retorno da escrava com seu filho. O que importa aqui é que Abraão foi um tremendo canalha.

Isso aconteceu depois que Sara lhe deu outro filho, Isaque, a quem o velho Abraão, supostamente sob as ordens de deus, levou para sacrificar no monte Moriá. A Bíblia tenta dar toda uma explicação “espiritualizada” para esse absurdo, mas é óbvio que isso estava mais para surto psicótico do que para qualquer teste de virtude. Isaque seria sacrificado como muitos povos faziam a seus inúmeros deuses. Aliás, o deus dos judeus não era melhor que qualquer deles, porque também recebia oferendas semelhantes, inclusive prescritas pelas leis do Levítico: animais sangrados até a morte, cereais, azeite, etc.

Assim sendo, um dos mais importantes personagens bíblicos revelou-se como um desprezível filicida. Claro que se pode dizer que ele não chegou às vias de fato. Afinal, Ismael (o filho de Agar) e Isaque (o filho de Sara) viveram para formar numerosos povos, mas Abraão foi longe o bastante para sabermos que ele acreditava que pudessem existir bons motivos para matar um filho, como no caso de Isaque em que ele chegou a pegar o cutelo para sangra-lo, sendo supostamente impedido por deus, e como no caso de Ismael, quando ele o expulsou de casa sabendo que morreria no deserto. Detalhe: em ambos os casos os filhos eram extremamente jovens, portanto, vulneráveis.

A expulsão de Ismael:https://www.bibliaonline.com.br/acf/gn/21/10

A quase imolação de Isaque:https://www.bibliaonline.com.br/acf/gn/22/6

A história de Ismael não é alvo de atenção dos escritores bíblicos. E isso por uma simples razão: todos os escritores bíblicos vieram da descendência de Isaque. Guerrinha de famílias determinando muito do que se pode dizer e ouvir, escrever e ler. Por isso, não sabemos exatamente que tipo de pai foi Ismael, mas sobre Isaque, podemos dizer que não foi nada exemplar.

Para começar, Isaque demonstrava preferência pelo seu filho Esaú. Talvez como forma de compensação, Rebeca tinha em Jacó o seu queridinho. A tensão entre os dois irmãos só fazia crescer, de modo que até mesmo no leito de morte, Jacó usou de um subterfúgio para enganar seu pai e tomar a bênção que seria de Esaú. Isso porque a preferência de Isaque por Esaú encontrava respaldo num dispositivo de discriminação sacralizado entre o povo judeu sob o eufemismo de “direito à primogenitura” e também como “a bênção do primogênito”. Detalhe: Esaú só era mais velho que Jacó por minutos, porque eles eram gêmeos. Por ter “roubado” a bênção do irmão, valendo-se da cegueira do pai, Jacó teve que fugir para não ser morto por Esaú, só sendo perdoado muitos anos depois, porque o irmão ainda foi generoso o suficiente para isso.

Não foram suficientes as mancadas de seu avô (Abraão) e de seu pai (Isaque) para que Jacó aprendesse a ser um pai melhor. Ele também demonstrava afeto especial por José, seu filho mais novo. Vale lembrar que Jacó teve filhos com várias mulheres: duas esposas que eram irmãs (!!!) e as escravas delas, totalizando quatro mulheres. E do mesmo jeito que elas competiam entre si, seus filhos também eram tratados com níveis diferentes de apreço – o que culminou na venda de José pelos próprios irmãos para uma caravana de mercadores a caminho do Egito.

Deixando os patriarcas de Israel para trás, eu poderia falar de Samuel, metido a grande profeta, mas péssimo pai. Poderia falar de Saul que desprezava seu filho Jônatas por seu amor a Davi. Poderia falar de Davi que teve vários filhos, mas era um guerreiro ambicioso que só queria acumular terras e tesouros, negligenciando todos eles. Tanto que seu filho Absalão acabou se revoltando contra ele, sendo morto num confronto com os soldados do pai. Além disso, Davi dava preferência à Salomão em termos de sucessão, mesmo ele não sendo o primeiro filho e nem o filho da primeira mulher. Salomão era filho de Bate-Seba, mulher de Urias, com quem Davi se casou depois de acabar com a vida do marido dela. E mesmo assim, Davi quase não transferiu o reino para Salomão, apesar de já estar nas últimas no leito de morte. Depois, o próprio Salomão teve mais mulheres que qualquer rei de Israel e certamente teve mais filhos do que os prórpios escritores bíblicos foram capazes de registrar, sendo o principal deles Roboão, que considerava o próprio pai um homem que explorava severamente os súditos e os povos subjugados, como se pode ver no versículo abaixo:

E falou-lhes conforme o conselho dos jovens, dizendo: Meu pai agravou o vosso jugo, porém eu o aumentarei mais; meu pai vos castigou com açoites, porém eu vos castigarei com escorpiões. 2 Crônicas 10:14

E foi por causa disso que o povo se rebelou contra Roboão, filho de Salomão, herdeiro do trono, que acabou rachando o reino de Israel em dois e ficando com a menor parte.

A lista continua, mas já podemos ver que tipos foram os patriarcas, os reis e os profetas só por essa mostragem.

Por isso, digo sem receio que se alguém quiser aprender a ser bom pai, a primeira coisa que deve fazer é não seguir os conselhos bíblicos nem os exemplos de seus personagens. Entre os mais sórdidos ensinamentos, está de assassinar o filho que simplesmente maldisser seu pai ou sua mãe, e o estímulo ao espancamento como forma de disciplina, porque filhos, assim como esposas, eram considerados objetos de propriedade do pai ou marido.

A lógica é a mesma: a vontade do pai/marido vai prevalecer nem que seja na base da porrada, como diz o livro de Provérbios:

A estultícia está ligada ao coração da criança, mas a vara da correção a afugentará dela. Provérbios 22:15

Ah, e não é coisa só de Velho Testamento, não – o que já seria bem desprezível. A ideia do filho morrer por causa de algum momento de rebeldia está no Novo Testamento também, porque em se tratando de Bíblia, o absurdo não pode parar:

Quando um homem amaldiçoar a seu pai ou a sua mãe, certamente morrerá; amaldiçoou a seu pai ou a sua mãe; o seu sangue será sobre ele. Levítico 20:9

E quem amaldiçoar a seu pai ou a sua mãe, certamente será morto.Êxodo 21:17

Porque Deus ordenou, dizendo: Honra a teu pai e a tua mãe; e: Quem maldisser ao pai ou à mãe, certamente morrerá. Mateus 15:4

Porque Moisés disse: Honra a teu pai e a tua mãe; e quem maldisser, ou o pai ou a mãe, certamente morrerá. Marcos 7:10

O Novo Testamento tenta amaciar o tom, dizendo “honra teu pai e tua mãe para que se prolonguem teus dias…”, mas, na verdade, essa estratégia eufemística visava a verter a ideia de ” para que não sejam encurtados os teus dias” em “para que se prolonguem teus dias”. São duas coisas bem diferentes e só servem para confundir o leitor a respeito da pena de morte para quem simplesmente amaldiçoasse ou dissesse mal de seus pais, conforme lei instituída por Moisés e seus comparsas.

Só que não para por aí. Nem deus escapa. Esse deus pai, que é projeção da mente dos homens que estabeleceram as regras do jogo entre os judeus, não podia ser diferente da neurose que o criou, é claro.

Deus é tão egoísta, sanguinário e concentrado em como manter sua reputação diante de terceiros como qualquer desses maus pais das escrituras bíblicas. As maldições e castigos que ele promete, ao menor sinal da menor desobediência ou descuido, revelam muito de seu caráter sanguinolento. O clímax foi não ter poupado seu próprio filho, e único, como diz João 3:16.

Um pai que envia para o castigo mais terrível e desprezível seu filho unigênito – que ainda por cima é inocente – não pode ser bom exemplo para pai algum. Não bastasse isso, ele ainda manda para o inferno aqueles que não entenderem ou não aceitarem tal plano absurdo – o que, paradoxalmente, torna a crucificação do próprio filho inútil e desnecessária para cada um desses bilhões de condenados, sendo muitos deles eternamente punidos por não entenderam a economia judaico-cristã de salvação.

Indubitavelmente, o cristianismo é construído sobre uma terrível concepção de paternidade.

Assim, fica a dica: quer ser um bom pai? Apenas ame incondicionalmente.

Oriente seu filho ou filha com carinho, passe tempo de qualidade com ele e com ela, entenda que eles não são propriedades suas e nem extensões de você mesmo, muito menos uma espécie de segunda chance para ser bem-sucedido em coisas que você não fez ou nas quais fracassou na vida quando tinha a idade deles.

Seus filhos são PESSOAS. São INDIVIDUALIDADES. São autores de suas próprias biografias. Você pode e deve participar, mas jamais determinar o que eles serão e farão de si mesmos.

Ao mesmo tempo que isso assusta, também liberta.

Assusta, porque a maioria dos pais acha que pode e sabe mais do que podem ou sabem de fato; liberta, porque você não é responsável pela maior parte das coisas que seus filhos farão na vida, especialmente se você tiver sido um pai presente, amoroso e compreensivo nos anos da infância e adolescência.

Lembre-se, eles são indivíduos autonômos, seja para o melhor ou para o pior. E você não pode e nem deve assumir a parte que é só deles.

Resumindo, pais que não atrapalham já ajudam muito. E pais que jogam para longe de si as neuroses do patriarcalismo, das quais essas escrituras judaico-cristãs são produtos e produtoras ao mesmo tempo, terão chance de serem pais melhores.

Felizmente, entre aqueles que atribuem à Bíblia alguma importância, existem muitos que não a obedecem ao pé da letra. Isso pode explicar como puderam ser melhores pais do que os próprios pais da Bíblia e do que o pai “divino” de Jesus, apesar de acreditarem ter tirado dessas escrituras algum ensinamento útil ao exercício de sua paternidade.

A palavra pai já foi usada para muita bobagem. Cito três casos:

1. O diabo é o pai da mentira (quem mente são os homens, especialmente aqueles que afirmam a existência do diabo);

2. Deus é o papai do céu (desse pai, todos somos e sempre fomos órfãos por razões óbvias);

3. Em dezembro, as crianças são presenteadas pelo papai noel (invenção humana, assim como as duas anteriores).

Que tal sermos pais de verdade de filhos que são de verdade? Não somos miniaturas de deus e eles não são cópias gorduchas de anjos. Não somos seus criadores nem seus donos e eles não são nossos eternos aduladores sob pena de banimento de nosso suposto paraíso particular.

O que você nunca vai aprender com as escrituras judaico-cristãs e dificilmente vai extrair de outras crenças religiosas, mesmo que elas estejam recheadas de palavrinhas encantadoras como “deus é amor”, “o amor é o cumprimento da lei” para disfarçar um rosário de erros imperdoáveis em suas páginas e doutrinas, inclui o seguinte, mas essa lista pode ser acrescida de muitas outras:

1. Criar os filhos para serem autônomos;

2. Ajuda-los a desenvolver o pensamento crítico;

3. Fomentar uma atitude ética para com a vida, inclusive uma capacidade maior de empatia em relação ao próximo e aos animais;

4. Prepara-los desde a infância para viverem livres de sentimentos discriminatórios em relação a raça, religião, cultura e orientação sexual;

5. Instigar a curiosidade científica;

6. Desarmar mecanismos sociais e culturais de “demonização” do corpo, de desprezo ao mundo que nos rodeia;

7. Cria-los num ambiente de afirmação da vida e do prazer que a acompanha, sem a negação da dor que muitas vezes nos atinge, mas pensar em como supera-la ou transforma-la em força.

Pais inteligentes e amáveis se preocupam em viver e educar assim, em vez de perder seu tempo ouvindo o que padres, pastores e outros líderes religiosos afirmam ser a “vontade de deus” ou dos deuses para a vida de seus filhos. Entre as maiores loucuras que alguns pais já fizeram por darem ouvidos a esses supostos “iluminados” ou “ungidos”, estão a recusa de tratamento médico, a recusa de vacinação (como vimos novamente há pouco com a vacinação contra o HPV em meninas de até 13 anos), o home schooling (educação escolar em casa para evitar o ensino científico e/ou inclusivo), a proibição de acesso à cultura popular infantil (filmes, desenhos, jogos, etc), o espancamento, o exorcismo, a pressão para que essas crianças ajam como pequenos mensageiros de deus, inclusive fazendo supostos milagres , etc.

Ser um bom pai inclui proteger as crianças desses predadores de consciências e corpos. Que tipo de pai você quer ser? Pense bem antes de responder.

Feliz dia dos pais!

*Sergio Viula é pai de dois filhos, uma com 25 anos e outro completando 22 anos em 2016

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