Hoje, eu não queria dizer nada.

Por Sergio Viula

Originalmente publicado no AASA

não quero dizer nada - aasa

Relutei muito em escrever o texto dessa coluna hoje. Na verdade, gosto de pensar no tema antes de escrever a respeito dele. Não que eu não tenha algo a dizer, mas falta a vontade de dizê-lo. E eu mesmo não sei por quê. Talvez, porque já tem muita gente dizendo muita coisa o tempo todo em todo lugar. Acho que estou com saudade do silêncio. Talvez, porque eu mesmo esteja um pouco cansado de dizer o que penso sobre tantas coisas.

Ando meio desanimado com o ser humano de um modo geral. Pode ser que esse cansaço seja comigo mesmo no final das contas, sei lá. Vejo tanta incompreensão, intolerância, discussão sem sentido e sem qualquer objetivo mais nobre. Vejo tanta gente boa sendo injustiçada, enquanto tanta gente mesquinha passa incólume. Mas isso acontece desde que o mundo é mundo. Por que isso me afetou hoje, não sei. Acho que não foi hoje. Esse sentimento já vem me acompanhando há um tempinho, mas varia de intensidade. Tanto assim que há pouco mais de duas ou três semanas, eu saí de todos os grupos ateístas e LGBT dos quais fazia parte. Um total de mais de 40. Por quê? Cansaço. Ninguém me fez nada direta ou pessoalmente. Simplesmente, cansei de certas discussões. Não ouvir certas coisas mantém as pessoas que eu (acho que) conheço em posições mais altas no meu ranking valorativo. Ah, antes que eu me esqueça: o mesmo deve acontecer comigo: quando falo, caio no conceito de alguns e subo no conceito de outros. Mas, o que isso quer mesmo dizer, afinal? ^^

Essa semana, assisti um vídeo no Facebook em que Muhammad Ali dizia tanta coisa verdadeira sobre o modo como os negros eram tratados nos EUA que eu quase dei um curtir no vídeo. Mas, no final do vídeo, ele disse que foi por uma injustiça dessas que ele se tornou muçulmano. Tipo, depois de ser campeão mundial pelos EUA, uma garçonete se recusou a lhe vender um cachorro quente, porque o estabelecimento para o qual ela trabalhava não servia negros. Isso me revolta é claro, mas a pergunta que me veio à mente foi: Cara, por que você não se tornou logo ateu? Ou por que não se voltou para a religião dos seus ancestrais? De que maneira, o islamismo, um misto de judaísmo, cristianismo e crenças populares que circulavam na Arábia do tempo de Maomé pode ser uma alternativa melhor?  Como escolher uma religião que foi pretexto para outros invasores dominarem o norte da África, assim como o foi o cristianismo? Homens africanos degolados, mulheres africanas estupradas e feitas de escravas, crianças separadas de seus pais com finalidades sexuais e de trabalho forçado!!! Como isso pode ser mais emancipador do que aquilo?

Daí, vi muita gente curtindo e compartilhando, provavelmente porque concordaram com o que ele falou sobre racismo, mas não perceberam a sutileza com que ele estava, na verdade, divulgando o islamismo ao dar esse ‘testemunho’ de conversão.

Fiquei pensando no crescimento do Islã no Brasil e na possibilidade desses muçulmanos nascidos aqui, com todos os direitos de cidadão brasileiro garantidos, elegerem deputados e senadores dentre os líderes de suas comunidades religiosas, gente comprometida com o islamismo. Dinheiro para as campanhas não lhes falta. Só precisam de eleitores, mas se o islamismo vier mesmo a ser uma das três maiores religiões do Brasil em 15 ou 20 anos, isso não seria mais empecilho.

Que tragédia seria isso! Além da bancada fanática de católicos e evangélicos que já amargamos, poderíamos ter representantes fanáticos do Islã com toda sua misoginia, homofobia, ódio às artes, ao secularismo e ao laicismo, ódio aos ateus, aos religiosos que não sejam muçulmanos e a tudo o que nos parece inofensivo, mas que lhes parece blasfemo.

Países com democracias bem mais maduras que a nossa resistem a essas influências, mas não sei se nós conseguiríamos fazer isso, uma vez que mal resistimos aos atentados fundamentalistas evangélicos e católicos contra a laicidade do Estado brasileiro. Imaginem, então, se essa marolinha virar onda de verdade.

Além disso, acabei de assistir o canal Nostalgia (Youtube) falando sobre a vida, a carreira e a morte de Michael Jackson – um dos artistas que eu mais amei (e ainda amo!) ao longo da minha breve vida. Não pude deixar de me emocionar com o talento, mas também me entristeci novamente com o sofrimento imposto sobre ele por uma mídia ansiosa por ganhar dinheiro, custe o que custar aos infelizes que ela pega para judas. Ele também enfrentou muito sofrimento por causa do vitiligo (confirmado, inclusive por autópsia). Teve também o acidente que quase o matou, enquanto ele gravava um comercial para a Pepsi. Sem falar no inferno que foi ter um pai como o dele. Com toda sua docilidade e aparente fragilidade, Michael Jackson superou tudo isso e tornou-se um dos maiores ícones do pop, mas não só isso: ele também foi um dos maiores filantropos entre as celebridades de todos os tempos, doando fortunas para 62 organizações beneficentes, principalmente aquelas voltadas para o bem-estar das crianças.

Rever a história de Michael Jackson me trouxe de volta a ideia de que  seres humanos incríveis podem ter vidas muito dolorosas, mesmo obtendo sucesso em suas carreiras e finanças. E tudo isso por causa da mesquinhez de outros seres humanos, incapazes dos mesmos feitos mas muito competentes na “arte” da fofoca, da chantagem e da sabotagem.

Como seria bom que cada um cuidasse apenas de sua própria vida! Melhor ainda se cada um valorizasse e fizesse bom uso do que tem, enquanto procura realizar novos sonhos, em vez de ficar contando cada níquel que o vizinho faz ou quão feliz ele parece ser.

Mas, pior do que o outro sabotando  a vida da gente, é a autossabotagem. Como seria bom que cada um fizesse o que bem entendesse de sua própria vida sem se importar com a aprovação ou reprovação do outro, desde que a realização de seu desejo não prejudicasse terceiros. Terrível coisa é viver pensando em agradar plateias não pagantes e com quociente intelectual e emocional abaixo da mediocridade.

Hoje mesmo conversei com um rapaz que me disse ter passado anos de sua vida tentando ser algo que não era por medo de parecer o que os outros poderiam reprovar. Eis aí uma das mais terríveis maneiras de alguém se autossabotar. Existem muitas outras.

Viver já dá muito trabalho. Ser feliz e prolongar essa felicidade, idem. Agora, tentar viver para agradar os outros é insuportável e nunca se traduzirá em felicidade de fato.

Como é que Muhammad Ali, Michael Jackson e esse rapaz cujo nome eu mantenho no anonimato vieram parar aqui, eu não sei… Talvez, porque todos três sofreram mais por causa do que os outros falaram deles ou para eles (ou até do que eles imaginaram que diriam) do que por uma limitação natural. Incrível como o social nos afeta e até nos modela, seja para melhor ou para pior, para mais ou para menos. Felizmente, podemos participar ativamente nesses processos e nos recusarmos a nos submetermos a essas circunstâncias, pessoas ou sistemas.

Bem, para quem não queria dizer nada, acho que já falei até demais. Desculpem a interrupção abrupta, mas vocês podem pegar o que acabaram de ler e fazer algo ou nada com tudo isso. O que sei é que vou me recolher aos meus pensamentos novamente. Tenham todos um ótimo final de domingo nesse 10/01/16 e uma semana com mais alegrias.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s