Fim de um ciclo (religião e LGBT) e começo de outro

Por Sergio Viula

Originalmente publicado no site do AASA

Fim de um ciclo (religião e LGBT) e começo de outro

 

solidão

Durante algumas semanas escrevi sobre uma série de religiões (as mais populares) e suas visões sobre a sexualidade humana, as identidades de gênero, ou seja, a diversidade sexual de um modo geral.

Conforme os recortes que eu queria dar a cada texto, alternei entre isso e aquilo. Agora, quero falar de sentimentos – aquilo que nos caracteriza como seres racionais e passionais ao mesmo tempo. Na verdade, tudo isso é resultado do corpo, seja a razão ou a emoção, e as duas coisas nem podem ser colocadas tão dicotomicamente como se costuma fazer quando se fala que tal coisa é da razão e que tal outra coisa é da emoção, pois tudo isso tem origem num mesmo lugar: no cérebro, que nada mais é do uma parte extraordinariamente complexa do corpo que só há relativamente pouco tempo na história do conhecimento do corpo atraiu a atenção merecida.

O primeiro sentimento que pretendo enfocar é o da solidão. Esse que leva tantos bilhões de pessoas a buscarem a companhia de outros indivíduos nas diversas agremiações religiosas e seus rituais, porque sofrem de um vazio que, acreditam, só poder ser preenchido por um deus, um espírito guia, ou algum outro tipo de protetor-acompanhante que subsista numa forma não carnal, seja ela transcendente ou imanente.

Esse sentimento que também faz com que busquemos a companhia de outros seres humanos nos diversos bares comhappy hour depois do expediente; que transforma as redes sociais em hábito incontornável; que superlota estádios de futebol, boates, blocos de carnaval; que leva tanta gente a ver no casamento sua maior, senão única, chance de ser feliz; que sobrecarrega os filhos com a expectativa de preencherem essa estranha carência que eles nunca satisfarão definitivamente sequer em si mesmos, quanto menos em seus pais biológicos ou adotivos; e por aí vai.

Nascemos sós e morremos sós. Somos expelidos do útero-aquário, quente e escuro, para a amplitude do mundo exterior, com suas luzes ofuscantes e seus barulhos assustadores. A solidão é parte essencial de nossa existência desde sua origem. Mesmo quando estamos cercados de gente, estamos sós. Ninguém penetra nossa essência por mais íntimo que nos pareça. O ônus e o bônus de nossas decisões são só nossos, e se alguém se oferece para dividir a alegria, não recebe parte da nossa, mas constrói sua própria ao nosso lado e sempre do seu próprio jeito. Se alguém nos oferece meios de reduzir o eventual ônus de alguma decisão pessoal, continua sobre nós a sensação de que falhamos e que agora, além disso, ainda somos devedores ao outro. Não há ato de caridade que não humilhe o carente uma segunda vez.

Gostamos de nos reunir para fazermos coisas em conjunto, mas continuamos agindo sozinhos. O esforço conjunto pode levar o grupo a realizar mais. Uma falha individual pode prejudicar todo o grupo. Contudo, ainda estamos agindo no espaço delimitado por nossas capacidades e interesses pessoais, assim como todos os demais.

Quando morremos, não há quem possa morrer a nossa morte. Aliás, essa é mais uma falácia da esquizofrênica religião cristã que diz que “Jesus morreu a nossa morte para que vivêssemos sua vida” (canção gospel). Nada mais distante da realidade, nada mais desesperadamente solitário do que afirmar tal coisa numa tentativa inútil de preencher o que não pode ser ocupado por nada ou ninguém: esse vácuo onde nos inventamos e existimos chamado solidão.

O hinduísmo e algumas outras religiões de mística mais introspectiva dirão que devemos buscar a união com o divino, mas tudo isso é igualmente motivado pela solidão, essa sensação de que não nos bastamos, de que precisamos de outro para que sejamos completos.

O mito grego do andrógino faz referência a isso. Originalmente, o ser humano apresentava três formas distintas, segundo o mito: macho e fêmea separadamente, e o andrógino que era macho e fêmea ao mesmo tempo, bastando-se completamente. Receoso do que podiam fazer com tanta autossuficiência, Zeus decidiu separa-los em dois. Para que não fossem extintos, porque muitos morriam de tristeza, por se recusarem a comer e cuidarem de si, Zeus virou seu órgãos sexuais para frente de modo que pudessem encontrar parceiros e parceiras para o ato amoroso. Porém, mesmo quando se uniam à outra parte no relação sexual, os andróginos divididos por Zeus sabiam que nunca voltariam a se sentir plenos como antes. Fica nítida a preocupação dos gregos com essa sensação de incompletude que nos caracteriza, afinal o próprio mito está dominado por essa noção.

E não importa se somos homossexuais, bissexuais, heterossexuais, cisgêneros, transgêneros, de gênero indefinido, intersexuais ou qualquer outra categoria que utilizemos para denominar a experiência humana no campo das sexualidades e das identidades, sempre nos sentimos incompletos. Para algumas pessoas, isso pode ser tão estressante que chega a provocar desequilíbrio mental, comportamento compulsivo, desenvolvendo hábitos nocivos à própria saúde física e mental.

Essa nossa comum condição de solidão deveria nos tornar menos obtusos e insensíveis para com o sofrimento alheio, porque não estamos tão alheios a esse sofrimento como gostaríamos de imaginar: sofremos de modos semelhantes, mesmo quando as causas parecem diferentes.

Na verdade, os caminhos que fazemos é que parecem diferentes, porque desenhamos nossa trilha no próprio ato de andar. Diferentes pés farão sempre caminhos muito particulares. Podemos até pensar que caminhamos juntos, porque mantemos algum tipo de conexão com o outro, mas cada caminhante é tecelão de sua própria trajetória.

Graças ao desejo de preencher a solidão, muita coisa bela e boa foi já foi produzida, mas algumas coisas ruim também: arte, esporte, religião (infelizmente), configurações familiares, sociedades de todos os tipos, festas populares ou exclusivas, e por aí vai.

Nossa solidão nos motiva ao encontro. E há encontros que são extremamente enriquecedores, mesmo que jamais deem conta plena ou definitivamente de nossa solidão. Sobre isso, eu escrevi um texto certa vez a respeito de “A magia do encontro” que vale a ser lido.

Sandra de Sá se enganou quando disse: “Solidão, dá um tempo e vai saindo.” Ela só se vai quando nós mesmos já não somos mais. Ser é ser sozinho, mesmo quando somos ao lado de muitos outros. E quanto mais cedo reconhecemos isso, mais cedo ficamos livres dos que capitalizam em cima disso, especialmente os empresários da fé, sejam padres, pastores, gurus ou qualquer liderança religiosa (ou não). Há, contudo, muitos outros que podem manipular pessoas ávidas por dar conta de sua própria solidão: familiares dominadores, amantes manipuladores, chefes inescrupulosos, e por aí vai. Ou podemos, nós mesmos, fazer tais coisas numa tentativa inútil de controlar o outro para tentar preencher nossa própria carência.

Quanto mais cedo percebemos nossa solidão e procuramos realizar o máximo de autonomia possível, melhor podemos cooperar uns com os outros em nossa fantástica, mas árdua, jornada existencial.

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