Do animismo ao ateísmo: a trajetória de quem morreu sem jamais ter existido de fato

Por Sergio Viula

Originalmente publicado no AASA

 

deus morreu coluna do viula

Nota: Quando Nietzsche disse a célebre frase “Deus morreu”, ele não se referia especialmente a deus algum, nem mesmo ao quimérico deus cristão. Ele se referia à metafísica como sistema que tentava entender o mundo físico a partir do suprassensível: todo aquele conjunto de crenças em pós-mundos, supra-mundos, realidades para além do natural. Obviamente, foram no pacote essas pobres criaturas nascidas de nossa imaginação atormentada, às quais chamamos deuses. 

Vamos ao que interessa, então. 😉

O pensamento animístico tem povoado a mentalidade humana desde tempos imemoriais. E por animismo, quero dizer a ideia de que todos os seres têm alma, sejam pedras, árvores, animais ou seres humanos. Provavelmente, foi essa crença na “anima” (alma) que abriu espaço na imaginação humana para coisas como a manipulação dos elementos por meio de encantamentos. Surgem os feitiços, a magia.

Com o tempo, os humanos passaram a crer que essas almas ou espíritos teriam o poder de se deslocar pelo mundo sem a necessidade de um corpo. Novos personagens entram na economia da superstição humana: fantasmas, guardiões das florestas, espíritos de antepassados, seres sobrenaturais de diferentes espécies (duendes, gnomos, fadas, etc.). Tudo isso foi ganhando status de realidade na imaginação do amedrontado homo sapiens (eternamente órfão, querendo ou não), especialmente devido a sua falta de compreensão dos fenômenos naturais, principalmente aqueles mais imediatamente ligados a sua rotina: tempestades, secas, raios, doenças e coisas do gênero.

Daí ao surgimento dos deuses, bastou um pouco mais de imaginação. Foi só superdimensionar um ou mais desses supostos seres espirituais para que os deuses finalmente se estabelecessem no acervo imaginário humano. Diferentes grupos humanos atribuíram status de realidade a diferentes deuses. É bem provável que o estabelecimento desses deuses em conexão com  famílias, clãs e tribos tenha contribuído para a formação das identidades nacionais.

Graças ao princípio de economia que subjaz a muitas das nossas operações cerebrais, não demorou até que as pessoas começassem a imaginar que talvez não existissem tantos deuses, mas apenas um que acumulasse todo o poder. Alguns daqueles deuses nem eram lembrados ou devidamente cultuados, tantos eram eles.

Portanto, transferiram os departamentos que estavam sob o comando de vários deuses individualmente para um deus só. Todos os deuses, menos o grande sortudo, foram demitidos sem aviso prévio. A fortuna, a saúde, os raios, as chuvas, os rios, os mares, as colheitas, o gado, as guerras, os partos e demais aspectos da experiência humana, bem como os fenômenos que a afetam, passaram a ficar a cargo dessa quimera que veio a ser considerada o deus todo-poderoso, todo-sapiente e presente em toda parte ao mesmo tempo.

Mas, ninguém se engane. Deuses são criaturas difíceis de matar. Assim, os resquícios daquela imaginação mais primitiva persistiram na atual dulia (veneração aos anjos e santos, como classifica a Igreja Católica) e na hiperdulia (culto especial à Virgem Maria, acima de santos e anjos e logo abaixo da Trindade), só para citar dois exemplos. Basta notar que os santos continuam encarregados das mesmas tarefas das quais os deuses demitidos se ocupavam: São Judas Tadeu é o padroeiro dos aflitos e desesperados; Santo Expedito é o padroeiro das causas impossíveis; Santa Edwiges é a padroeira dos endividados; Santa Luzia é a padroeira dos olhos; Santa Cecília é a padroeira dos músicos ou da música sacra; e por aí vai.

Mas, não nos esqueçamos do culto à Virgem Maria, também encarregada de vários departamentos. Tem a N. Sra. das Cabeças, a N. Sra. da Conceição (concepção), a N. Sra. do Bom Parto, a N. Sra. da Boa Morte, a N. Sra. Desatadora dos Nós, enfim, são ilustres senhoras para todos os gostos e necessidades.

O que significam esses santos e esses diversos títulos de Maria, afinal? Significam que a mentalidade dos primitivos politeístas continua presente, a despeito do alegado monoteísmo judaico, cristão e muçulmano. Cada um a seu próprio modo manteve ou adaptou, sem medo de inchar a máquina administrativa celestial, os semi-deuses que serviam aos deuses antigos sob a forma de santos, anjos, arcanjos, querubins, serafins, diabo, demônios e outras criaturas afins. O catolicismo condensou todas as deusas-mães, tão comuns em tantas culturas antigas, na pessoa de Maria, a quem chamam sempre de rainha do céu, virgem perpétua, mãe santíssima, fazendo referência a sua suposta superioridade em relação a outras tantas mulheres que, assim como Maria, viveram dominadas por todo tipo de violência misógina num mundo onde o patriarcalismo e machismo faziam o que bem entendiam sem qualquer constrangimento.

Mas ao destronarem tantos deuses para entronizarem apenas um, os seres humanos fizeram um movimento extremamente perigoso para a sobrevivência de qualquer deus que permanecesse de pé, a despeito de todos os que já haviam caído: tornaram-se TEOCIDAS — e isso bem antes do Renascimento do século 17, do Esclarecimento do século 18, da Revolução Industrial do século 19 e da Revolução Científico-Tecnológica do século 20 que segue em pleno vapor nesses primeiros 15 anos do século 21.

Mas por que me referi a todos esses séculos, ou seja do 17 ao 21?

Porque nunca antes na história desse mundo (risos), houve tantos teocidas no planeta. Os primeiros foram os próprios religiosos. Eles mataram centenas, milhares até mesmo milhões de deuses através de suas guerras santas, inquisições, textos sagrados, cultos religiosos e sermões. Deixaram apenas um de pé, mas esse também foi derrubado, apesar de ainda ser invocado por milhões de sonâmbulos existenciais.

O que quero dizer é que aquele que se cultua hoje como deus todo-poderoso não passa de um cadáver (para usar uma expressão de Nietzsche). Esse deus a quem os abraâmicos pouparam em sua sanha teocida também foi mortalmente ferido e sangrou até a última gota de seu fantasmagórico sangue pelos últimos cinco séculos, aproximadamente. O que judeus, cristãos e muçulmanos fazem hoje é cultuar um morto. Deus não faz sentido. Toda tentativa de explicar a vida e assumir ou ditar comportamentos a partir da crença nele e em seu mundinho supra-terrestre é mera obstinação e saudosismo de um tempo em que a a classe sacerdotal tinha a última palavra sobre tudo. Todo culto religioso atual não passa de um evento social com alta lucratividade para a maioria de seus organizadores. Provavelmente, há pessoas que acreditam de fato e até organizam suas comunidades pensando em preservar o que consideram a verdade divina, mas essa suposta verdade divina não se justifica mais, especialmente  à luz dos conhecimentos acumulados e dos testemunhos da história.

O monoteísta devoto não é diferente de seus correlatos politeístas e animistas, que seguem cultuando deuses a quem os TEOCIDAS judeus, cristãos e muçulmanos assassinaram há muito tempo. Todos os cultuadores daqueles deuses cultuam cadáveres ainda mais velhos que o cadáver do deus abraâmico, também falecido há muito tempo. Aliás, foram os próprios abraâmicos que, ao matarem todos os outros deuses, acabaram envenenando o seu. Os desafios que estes colocaram diante dos cultuadores de outros deuses acabaram sendo arma uma carregada e engatilhada apontada para a cabeça de seu deus único e todo-poderoso. Foi uma questão de tempo até que ela fosse disparada, não importando quão rebuscado fosse o palavrório pseudo-filosófico ou pseudo-científico que esses mesmos abraâmicos usassem para salvar a vida de seu deus (vida que só era possível mesmo na imaginação dos que criam).

E por que ainda há quem carregue o cadáver de deus como se ele pudesse andar por conta própria?

Porque os seres humanos não são apenas racionais. Eles são passionais e misturaram muitos sentimentos ao culto à divindade. A adoração e a submissão mental à ideia de um deus são viciantes. Além disso, uma vez incorporado um hábito ou tradição, eles passam a controlar a pessoa, em vez do contrário. Basta ver quantos seres humanos cumprem ritos cujos significados eles desconhecem completamente. Contudo, se não os cumprem, sentem-se culpados ou ficam com medo de sofrerem consequências. O medo e a culpa são os grandes alicerces da crença religiosa, assim como dos ímpios sistemas e estruturas que dela advém.

Mas, observe bem: não é a crença em deus o maior problema. O maior de todos os problemas, a meu ver, é a crença na existência da alma e em sua imortalidade. Pouca diferença faria um deus que não tivesse o poder de punir ou recompensar eternamente uma alma que não pode morrer. Eis aí a grande sacada dos teólogos judeus, cristãos e muçulmanos: ameaçar a suposta alma dos fiéis (e dos infiéis que creem) com tormentos eternos ou tentar seduzi-la com prazeres eternos como meio de controlar os indivíduos. Por isso, ateus incomodam tanto – não podem ser controlados – e por isso, são tão perigosos – podem despertar outras consciências convenientemente dominadas se forem levados a sério.

Céu e inferno são as duas asas de um mesmo abutre. Você acabará devorado de qualquer modo, porque o único bem de fato que você possui, que é a vida aqui e agora, será diariamente sacrificado por uma ilusão até que não lhe reste mais um dia sequer e nem memória do que se foi.

Aliás, vale lembrar que outros sistemas de crença funcionam com a mesma lógica, inclusive a crença na reencarnação e em carmas. O abutre continua o mesmo: não fazer o que os mestres mandam acumula carma negativo e traz sofrimento, mas fazer fielmente o que eles ensinam compensará o carma acumulado de outras existências, aliviando o sofrimento. Se for bom o suficiente, poderá até se tornar um mentor, um guia de luz, um avatar, um com a divindade, dependendo da religião em questão. E isso vai do hinduísmo ao kardecismo, passando pelas mais diversas agremiações espiritualistas.

Por isso, a crença na imortalidade da alma é a maior ferramenta de mobilização de seres humanos. Ela é capaz de motivar pessoas relativamente inteligentes a darem a seus líderes aquilo que estes sempre ambicionaram: submissão e subserviência incondicionais, ou seja, poder.

Por isso, sugiro que você termine a leitura desse post assistindo meu vídeo sobre a imortalidade da alma e suas consequências nefastas. E que todos tenham uma boa semana, assim como uma vida sem cadáveres amarrados às costas, sejam eles de que deuses forem!

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3 comentários sobre “Do animismo ao ateísmo: a trajetória de quem morreu sem jamais ter existido de fato

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