Cerimônia Fúnebre Humanista: Um jeito digno de dizer adeus

Por Sergio Viula

Originalmente publicado no AASA

caixão

Cerimônia Fúnebre Humanista: Um jeito digno de dizer adeus

Por Sergio Viula

Durante esse ano de 2014, perdi alguns amigos e parentes. Isso quer dizer que seus corpos voltaram ao solo como acontece com todos os outros seres vivos. Nenhum deles fica flutuando no espaço. Mesmo quando caem nos mares, rios e lagoas, acabam indo para o fundo ou para a margem, ou seja, à terra. Basta que suas funções sensório-motoras sejam interrompidas para que eles tombem.

Nesses momentos, vi de tudo: gente chorando, gente rezando, gente pregando, gente sofrendo calada, gente ausente durante o ritual fúnebre. Eu mesmo só pude estar presente a um deles esse ano.

Cada vez que um desses amigos ou parentes deixou de ser, eu senti tristeza e saudade. Aliás, saudade não é outra coisa senão a tristeza de não ter mais a companhia de quem nos faz bem. Impossível não parar e pensar na morte quando uma pessoa querida se vai. Pensar na morte sem sofrer de alguma obsessão por ela pode ser extremamente motivador a viver mais e melhor. Também nos ajuda a exercitar a humildade, porque percebemos que somos indispensáveis apenas até sermos dispensados. 😉

A maior parte das pessoas no Brasil professa alguma religião, mesmo que superficialmente. Por isso, não é de admirar que os enterros sejam sempre cheios de alusões a deuses, vida além-túmulo e outras crenças.

Sendo ateu, eu não participo ativamente de nenhum desses rituais, mas compareço sempre que possível. Não considero o cadáver mais do que um organismo que já está em processo de desorganização, decomposição, desagregação, dissolução para se reorganizar ou recompor sob outras formas na natureza. Nada além disso.

As memórias do morto ou da morta, porém, são valiosas e procuro mantê-las vivas, mesmo que apenas parcialmente, porque o tempo me obrigará a esquecê-las ou a morte interromperá definitivamente minhas lembranças por mais doces que sejam.

Já imaginou como é funeral sem religião?

Muitas pessoas não sabem que um funeral sem religião pode ser um funeral cheio de significado e até mais humano. Há quem já tenha participado e gostado da leveza com que são feitos. Então, eu gostaria de pensar como seria um funeral humanista no artigo de hoje.

Funerais não-religiosos são um direito tanto quanto os funerais religiosos. Cemitérios e crematórios têm que permiti-los do mesmo modo que o fazem com os rituais fúnebres religiosos.

Muitas pessoas não se sentem confortáveis com funerais que carregam alguma crença religiosa, mesmo que seja inter-religiosa ou ecumênica. Além disso, esses ritos não fazem o menor sentido quando realizados em memória de alguém que era ateu. Além disso, um funeral humanista, mesmo não incluindo hinos e orações ou outras formas de manifestação religiosa, é perfeitamente compatível om pessoas religiosas e com pessoas ateístas.

Todavia, vale ressaltar que uma cerimônia humanista não inclui material, discurso ou mesmo insinuações anti-religiosas. Se fosse assim, não seria humanista, pois nada é mais desumano do que provocar mais desgosto do que já passam os que enterram seus mortos.

Como se faz um funeral humanista, então?

Um funeral humanista lembra a vida da pessoa que morreu, refletindo sobre sua contribuição para o mundo e para os outros.

Ele também se torna uma oportunidade para que familiares e amigos compartilhem sua tristeza e criem laços de apoio para aqueles que estiveram mais próximos da pessoa falecida.

Um funeral humanista inclui:

  1. Música
  2. Uma reflexão não-religiosa sobre a morte
  3. Leituras de poesia e prosa
  4. Recordações sobre a pessoa falecida, incluindo suas realizações e o que significou sua vida
  5. Palavras de adeus
  6. Um momento de silêncio (aqui pessoas que tenham alguma fé religiosa poderão orar em silêncio se desejarem e os demais podem apenas refletir sobre a vida)

Funerais humanistas devem ser oficiados por um(a) humanista experiente que saiba conduzir um momento como esse com sensibilidade e sabedoria. Em alguns países, já existem pessoas fazendo esse trabalho em caráter profissional. A Associação Humanista Britânica, por exemplo, mantém um cadastro com profissionais de competência e dignidade comprovadas. No Brasil, existem redes que auxiliam nesse sentido também, como é o caso da Liga Humanista Secular do Brasil (LiHS) e outras organizações semelhantes.

Pessoalmente, costumo dizer que já que morrerei mais cedo ou mais tarde, e uma vez que vivendo, terei que enterrar os que forem morrendo, gostaria que funerais humanistas fossem tomando o lugar dos funerais religiosos, especialmente quando a vida chegar para meus amigos ateus, agnósticos, céticos e humanistas secularistas.

Aliás, gostaria muito que fizessem o mesmo quando fosse a minha vez de abotoar o paletó, vestir o pijama de madeira, virar presunto, esticar as canelas ou – aí vai a expressão que eu mais gosto – virar purpurina. 😉 Porque para a morte, podemos inventar incontáveis eufemismos, mas o que não conseguimos até agora foi descobrir um remédio que perpetue a vida.

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* Sergio Viula foi pastor batista, é formado em filosofia, administrador do blog Fora do Armário www.foradoarmario.net, autor de Em Busca de Mim Mesmo, livro que fala sobre religião, sexualidade e ateísmo, é membro da Liga Humanista Secular do Brasil, e pode ser encontrado no Facebook em:https://www.facebook.com/sergio.viula

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