Candomblé e pessoas LGBT

Por Sergio Viula
Originalmente publicado no AASA
candomblé

Candomblé e pessoas LGBT

Dando continuidade à serie de postagens sobre religião e sexodiversidade.

O Candomblé é uma religião derivada do animismo africano onde se cultuam os orixás, voduns ou nkisis, dependendo da nação. O Candomblé tem mais de três milhões de seguidores em todo o mundo, sendo o Brasil o país em que conta com mais adeptos.

Hoje em dia vemos os cultos a vários orixás numa mesma casa, mas esse é um fenômeno brasileiro, causado pela importação de escravos vindos de diferentes nações, pois cada nação africana praticava, originalmente, o culto a um único orixá. A figura do zelador de santo surge nas senzalas, sendo o homem chamado de babalorixá e a mulher de iyalorixá.

O Candomblé, assim como outras religiões de matriz africana, era proibido pela Igreja Católica e perseguido pela polícia. Dava cadeia cultuar os orixás no Brasil. A Revista de História tem um artigo interessante e amplo sobre isso. Isso, porém, acabou favorecendo o sincretismo entre os orixás do candomblé e os santos católicos – coisa que os puristas da tradição africana procuram desfazer hoje em dia. Atualmente, estima-se que 70 milhões de brasileiros frequentem os terreiros em algum momento da vida, mesmo que não seja um seguidor dedicado.

Sexodiversidade no Candomblé

Hoje em dia, o Candomblé aceita homossexuais amplamente. Curiosamente, já houve um período em que homens, fossem heterossexuais ou homossexuais, não podiam ser iniciados como rodantes (aqueles que entram em transe). Isto quer dizer que homens não podiam dançar nas rodas de Candomblé mesmo que entrassem em transe espontaneamente. O Candomblé, diferentemente dos monoteísmos abraâmicos foi, durante muito tempo, uma religião predominantemente matriarcal. Ainda hoje as mães-de-santo (ou zeladoras de santo), as iyalorixás são figuras marcantes.

joãozinho da goméia

No entanto, o homossexual Joãozinho da Goméia, reconhecido como o mais ousado homem a enfrentar as matriarcas para ocupar seu devido espaço, veio a galgar o sacerdócio e tornou-se internacionalmente reconhecido. Seu nome era João Alves de Torres Filho. Ele nasceu em Inhambupe, no dia 27 de março de 1914 e morreu em São Paulo, no dia 19 de março de 1971.

Joãozinho foi um sacerdote do Candomblé de Angola. Nenhum outro rivaliza com ele em popularidade até hoje, apesar de muitos homossexuais terem obtido reconhecimento nos terreiros. Ele é chamado de Joãozinho da Goméia por causa da rua para onde transferiu seu primeiro terreiro na Bahia.

Em 1948, Joãozinho da Goméia, migrou para o Rio de Janeiro, onde abriu sua casa de santo no município de Duque de Caxias, na Rua General Rondon, 360, onde atendia políticos, embaixadores, cônsules, o próprio Getúlio Vargas e a sogra de Juscelino Kubitschek, além de artistas como Ângela Maria, na época a “Rainha do Rádio”. Tudo isso fez com que passasse a frequentar a imprensa. Joãozinho era mesmo um vanguardista dentro de sua tradição religiosa, mas ele mesmo nunca falava de seus clientes. Eram seus filhos-de-santo que espalhavam essas notícias, orgulhosos de seu pai.

Depois de sua morte, seus assentamentos foram transferidos para uma nova Goméia, em Franco da Rocha, São Paulo, onde os ibás de seu Oxossi e de sua Iansã são cuidados e “alimentados”, e podem ser visitados pelos adeptos que fazem parte da família de santo.

Os Orixás e a diversidade sexual e de gênero

Muitos africanos tornaram-se intolerantes para com a homossexualidade e a transexualidade somente depois que religiões estrangeiras foram impostas sobre as culturas africanas. É fato que a invasão foi feita a duas mãos: de um lado a do estado europeu invasor e do outro a das igrejas aliadas e financiadas por esses mesmos Estados. Espanha, Portugal e França com a Igreja Católica; Holanda com a Igreja Reformada; Inglaterra com a Igreja Anglicana; e por aí vai.

Tradicionalmente, em muitas culturas africanas, homossexuais e transexuais eram reverenciados como espíritos dos deuses.

xangô

Xangô, o deus yorubá do trovão, era frequentemente descrito como um belo homem que se vestia como uma mulher e tinha seus cabelos trançados com acessórios femininos. Os sacerdotes de Xangô são todos homens, e ainda se vestem com aparatos femininos quando realizam rituais tradicionais.

Para o povo Yorubá, Oxumaré não é um orixá, mas sim um vodum, ou seja, uma entidade nascida antes mesmo da própria terra. Nos terreiros do Brasil, porém, vê-se Oxumaré muitas vezes cultuado como orixá. Ele é representado por uma serpente e um arco-íris no panteão yorubá. Oxumaré é visto como sendo diverso do gênero masculino ou como um ser transgênero, transexual. Oxumaré passa metade do ano como caçador e a outra metade como uma sereia, fazendo lembrar Logun-Edé, Ossaim e Erinlé – outros orixás que remetem à transgeneridade e à bissexualidade. (Nota: muito mais pode ser lido sobre esses orixás e a sexodiversidade e a transgeneridade em Queering Creolo Spiritual Traditions – uma amostra pode ser encontrada AQUIem inglês.).

É importante ressaltar que não existe qualquer relação entre “virar” num determinado orixá e ser gay, heterossexual, bissexual ou transgênero. O mais “heterossexual” dos orixás não transformará um gay em heterossexual assim como o mais “homossexual” dos orixás não transformará um heterossexual em gay. As pessoas são o que são. Entre os orixás, alguns eram exclusivamente heterossexuais. Outros, não. Exatamente como qualquer ser humano desde que esse bicho virou gente.

oxumaré

O que fica claro é que as religiões de matriz africana, já em seu nascedouro, têm razões para acolher e celebrar a sexodiversidade e a transgeneridade. Isso coloca essas religiões numa posição privilegiada se comparadas aos monoteísmos abraâmicos fundamentalmente machistas, homofóbicos e transfóbicos – só para citar três preconceitos inaceitáveis às mentes mais esclarecidas.

casamento gay e pai de santo

Enquanto, no Candomblé, mulheres (inclusive lésbicas), gays, bissexuais e transgêneros sempre foram bem-vindos nos terreiros e barracões, inclusive ocupando cargos elevados no sacerdócio, a Igreja Católica ainda discute, em pleno século 21, se mulheres podem atuar no ministério sacerdotal, se as pessoas LGBT podem ser ou não consideradas católicas plenas e aptas a formarem suas próprias famílias; muçulmanos continuam enforcando homens gays ou forçando-os à transexualização, como no caso do Irã; judeus ortodoxos não querem que as mulheres sequer rezem com os homens diante do Muro das Lamentações. E por aí vai. O movimento de inclusão da sexodiversidade e da transgeneridade nesses três monoteísmos é relativamente recente – datando do início da segunda metade do século 20 para cá. Isso contrasta fortemente com o Candomblé, em cujos terreiros já se via a presença de homossexuais atuantes desde 1870, conforme artigo do professor Jocélio Teles dos Santos, do Departamento de Antropologia/UFBA, intitulado Homossexualidade e candomblé.

ariadna candomblé

Isso não quer dizer que não haja gente preconceituosa dentro do Candomblé. Isso quer dizer que o panteão, as tradições orais e os rituais não produzem mecanismos institucionais de promoção do preconceito ou da discriminação por orientação sexual ou identidade de gênero. E nesse quesito, o Oscar de religião mais inclusiva desde a invasão portuguesa vai para o Candomblé. Sem contar que eles também têm a seu favor o fato de não conceberem a ideia de pecado. Em outras palavras, a ideia cristã de pecado não existe no Candomblé. Mas isso não significa que não exista um conceito onipresente de justiça na mentalidade candomblecista.

Claridalia

Mas nem tudo é só louvor. Ainda resta uma noção de que o sexo deve ser evitado durante a iniciação e as obrigações. Seria isso um resquício de moralismo católico? Provavelmente, uma vez que essa não parece ter sido uma preocupação na África ancestral.

Existe uma expressão usada pelo cultuadores dos orixás no Candomblé que é “corpo sujo”. Ela se refere ao corpo depois da relação sexual. Curioso, porque os orixás não têm nada contra o sexo. Ele faz parte da natureza e o orixá é natureza de acordo com as tradições africanas.

O que o Candomblé faz para purificar o corpo depois de uma relação sexual, antes que este entre em contato com o Orixá nos rituais, é prescrever um banho de erva (omim eró) e a abstinência de qualquer contato com o que pertence ao orixá de 12 a 24 horas. É considerado corpo limpo aquele que se absteve de sexo, bebidas e algumas outras coisas.

Uma experiência pessoal.

Conheci um rapaz que era filho de Oxalá. Ele era gay e nós ficamos juntos algumas vezes. Era muito bom estar com ele, mas havia um problema. Ele evitava sexo às sextas-feiras. A alegação era que esse era o dia do seu Orixá e ele precisava estar limpo. Não se tratava de alguma restrição a relações entre pessoas do mesmo sexo. O problema era preceito que ordenava a abstinência do ato sexual, fosse homo ou heterossexual, naquele dia da semana.

Ficamos algumas vezes em dias diferentes, mas houve uma ocasião em que a gente acabou se encontrando numa sexta-feira. Aquele foi o único dia em que o vi angustiado. Ele sabia que estava quebrando um preceito do orixá. Eu, sendo ateu, não sentia o menor remorso em aproveitar o que a vida me oferecia tão generosamente fosse qual fosse o dia. Mas, vê-lo angustiado acabou me sensibilizando.

O relacionamento durou muito, mas eu nunca esqueci essa experiência. Ele era um cara super do bem, mas não posso negar que mais uma vez pude reconhecer numa experiência cotidiana quão libertador pode ser viver livre de deuses, preceitos, rituais e outras coisas, sejam quais forem os deuses: Javé, Jesus, Alá, Oxalá, etc.

Contudo, preciso dizer que o Candomblé conta com muito mais respeito da minha parte, graças à sua abertura aos seres humanos exatamente como são. Se onde há igrejas fundamentalistas houvesse um terreiro de Candomblé e onde há um pastor televisivo houvesse um babalorixá ou uma iyalorixá, certamente NUNCA teríamos ouvido termos como “ex-gay”, “cura gay”, “pecado nefando”, “sodomia”, etc. Isso não é do feitio do Candomblé. Nunca foi e continua não sendo de seu feitio.

Crença em poções mágicas e problemas bem reais

albinos

Não podemos, por outro lado, ser ingênuos e pensar que tradições africanas são sempre tão belas e integradoras como o Candomblé no Brasil. Como exemplo do que a crença cega no sobrenatural pode fazer, cito o caso dos albinos da Tanzânia. Naquele país, alguns acreditam que poções feitas utilizando partes dos corpos dos albinos trariam sorte e riqueza. Isso tem gerado uma caçada a albinos, inclusive bebês, que são brutalmente assassinados para a preparação dessa poções. Em outras regiões, eles são cruelmente perseguidos para serem exterminados porque se acredita que os albinos sejam demoníacos e perigosos. Veja mais nessa matéria da BBC.

Resumo da ópera: em matéria de religião, nenhum povo está isento de seus próprios crimes em nome da crença. Se há pessoas que pensam não poder viver sem religião, sugiro que não colaborem para a manutenção de crenças que violem os direitos humanos dentro desses sistemas religiosos. Que trabalhem obstinadamente para que essas mesmas religiões sejam cada vez mais humanizadas, refletindo no seu dia a dia o mesmo “espírito” que se encontra na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Só isso já resolveria a maior parte dos problemas que enfrentamos no planeta Terra e evitaria novas dores.

NOTA: Se não conseguir ver os posts anteriores nessa tela, clique em COLUNA DO VIULA na coluna da direita do vídeo, e desça a barra de rolagem até o post que deseja ler. Obrigado.

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* Sergio Viula foi pastor batista, é formado em filosofia, administrador do blog Fora do Armário www.foradoarmario.net, autor de Em Busca de Mim Mesmo, livro que fala sobre religião, sexualidade e ateísmo, é membro da ARCA (Associação de Racionalistas, Céticos e Ateus) e da Liga Humanista Secular do Brasil, e pode ser encontrado no Facebook em:https://www.facebook.com/sergio.viula

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