Boa-fé, uma virtude indispensável à vida bem vivida.

Por Sergio Viula

Originalmente publicado no AASA

 

boa fé

Quando pensamos em boa-fé, logo nos vem à mente aquela pessoa tolinha, bobinha, que acredita em qualquer trambiqueiro. Essa é uma confusão que se faz por associarmos boa-fé à ingenuidade. Uma pessoa ingênua não vê mal em nada. Só que boa-fé, como a penso aqui, é outra coisa bem diferente.

A pessoa de boa-fé é aquela que é fiel ao que crê, àquilo que considera verdadeiro, seja em público ou em privado. Como diz André Comte-Sponville, em seu  Pequeno Tratado das Grandes Virtudes, Ed. Martiins Fontes, SP, 2010:

“Ser de boa-fé não é sempre dizer a verdade, pois podemos nos enganar, mas é pelo menos dizer a verdade sobre o que cremos, e essa verdade, ainda que a crença seja falsa, nem por isso seria menos verdadeira. É também o que se chama de sinceridade (ou veracidade, ou franqueza), e o contrário da mentira, da hipocrisia, da duplicidade, em suma, de todas as formas, privadas ou públicas, da má fé.” (p. 213, 214).

Nunca sentimos tanta falta dessa virtude em tantas áreas e em tantas relações como hoje em dia. Essa sensação talvez se dê, porque, em alguma medida, somos produtos do nosso próprio tempo, e, provavelmente, a boa-fé tenha sido uma raridade em todos os tempos. Vai saber…

Mas, se boa-fé não é ingenuidade, ela também não se esgota na sinceridade para com o outro. Pelo contrário, ela é, antes de tudo, sinceridade para consigo mesmo. Ela é a recusa de nos enganarmos a nosso próprio respeito. A boa-fé se constitui no reconhecimento de quem somos, com nossas potencialidades e fraquezas, nossas virtudes e defeitos, nossas características naturais e culturais, nossas preferências e recusas. E por amar a verdade, a boa-fé nos levará a verificar, inclusive, se tudo o que pensamos como defeitos e virtudes a nosso próprio respeito são mesmo defeitos, e não virtudes, e vice-versa, porque muito do que pensamos já vem contaminado com interpretações terceirizadas que passam, muitas vezes, por verdades inquestionáveis, mas não são.

Uma vez que a boa-fé tem a ver com sinceridade, deve-se dizer tudo?

Comte-Sponville dá uma resposta muito interessante a essa pergunta:

“Claro que não, pois não é possível. Falta tempo, e a decência o impede, a doçura o impede. Sinceridade não é exibicionismo. Sinceridade não é selvageria. Temos o direito de nos calar, e até devemos fazê-lo com frequência. A boa-fé não proíbe o silêncio mas sim a mentira (ou o silêncio apenas quando mentiroso), e ainda assim nem sempre…”  (p. 216)

Parece necessário fazer uma distinção aqui: Mentir para o outro ou ocultar-lhe aquilo que possa ser mais pesado do que ele seria capaz de carregar parece aceitável, até mesmo recomendável, às vezes. Por ouro lado, mentir ou ocultar ao outro aquilo que ele tem o direito de saber, e cuja omissão poderia prejudicá-lo, parece injustificável.

Nada pior, porém, do que mentir para si mesmo. A mentira que se conta a si próprio parecer ser intrinsecamente indigna, qualquer que seja a situação, especialmente quando dita por razões egoístas ou mesquinhas.

Mas pensando na mentira ou ocultação aceitável e até recomendável, pergunto: será que alguém ousaria dizer queCorrie Ten Boom, uma mulher protestante holandesa que abrigou judeus em um esconderijo em sua casa, durante a segunda guerra mundial, estaria errada quando mentiu aos nazistas para proteger as pessoas refugiadas em sua casa?

Ora, mas, não diz a Bíblia que o diabo é o pai da mentira (João 8:44) e que todo que ama e pratica a mentira vai arder no lago de fogo e enxofre, que é a segunda morte? (Apocalipse 22:15)

Sim, diz. Mas e daí? Parece que a ética dos supostos “servos de Deus” na época em que escreveram isso era bem limitada, tanto quanto seu conhecimento de mundo.

Outra coisa é um fundamentalista ou conservador desvairado começar a espalhar vídeos caluniosos e editados para parecerem dizer o que nunca foi dito, só para desacreditar seus oponentes, como acontece quando espalham vídeos falsificados ou memes sobre o Deputado Jean Wyllys, alvo preferido desses homofóbicos fascistas que adorariam ver uma dessas duas ditaduras implantadas no Brasil: a militar ou a religiosa. E elas podem andar muito bem juntas, como já vimos em vários casos na história mundial.O nome disso é má-fé, mas não esgota o conceito. Má-fé não é somente mentir para os outros.

Má-fé é mentir a si mesmo sobre si mesmo. Jean Paul Sartre desenvolve um pensamento muito instigante sobre isso, no qual expõe a má-fé como sendo uma defesa equivocada contra a angústia. A má-fé se efetiva no pensamento e nas ações do indivíduo quando este atribui suas escolhas a fatores externos, tais como o destino, os astros, Deus, um plano transcendental determinante, etc. De acordo com o existencialismo de Sartre, a tentativa de fugir da autodeterminação é má-fé.

De acordo com o existencialismo sartreano, ao tomar consciência de que sua vida e destino não estão nas mãos de terceiros, sejam eles deuses ou homens, o ser humano experimenta a angústia. Não seria exatamente o pavor dessa angústia o fator principal a manter tantas pessoas atadas às crenças religiosas, bem como às agremiações que funcionam em torno de tais doutrinas e dogmas, e de figuras que supostamente detém poder ou conhecimento sobrenatural? Muito provavelmente, sim. O desejo de atribuir a outros a responsabilidade por seu destino, seja para sucesso ou fracasso. Daí, Deus e o Diabo serem criaturas tão amadas. Eu disse criaturas? Ah, sim? Então falei certo. Claro, porque esses dois personagens criados pelos homens, e a quem os homens atribuem existência própria, às custas de muita ginástica mental, são seus bodes expiatórios por excelência. A Deus, atribuem todo o bem, sucesso, felicidade. E ao Diabo, todo o mal, fracasso e infelicidade. Má-fé elevada à milionésima potência.

Ser honesto para consigo mesmo, doa o quanto doer. Ser honesto para com os outros no melhor das nossas forças, sempre considerando compassivamente o quanto de força eles têm para encarar o que entendemos como verdadeiro, preferir sempre a sinceridade à mentira, o conhecimento à ilusão, sem deixar de rir, preferencialmente de si mesmo, eis aí uma boa maneira de viver a vida.

A má-fé alheia não suporta quem vive assim. E daí? Isso também é escolha – uma péssima escolha… pior para eles. 😉

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