Islamismo, intolerância e a resistência dos muçulmanos LGBT

Islamismo, intolerância e a resistência dos muçulmanos LGBT

Por Sergio Viula

muçulmanos lgbt nos euaMuçulmanos LGBT nos EUA em passeata pelos direitos LGBT

Domingo passado, publiquei aqui um texto, intitulado “O que a xenofobia judaica tem a ver com a homofobia dos três monoteísmos”. Não é preciso pensar muito para se perceber que o cristianismo e o islamismo importaram da Torá muitos de seus princípios, doutrinas e mandamentos.

No texto da coluna de hoje, gostaria de pensar brevemente sobre o que há a respeito das relações entre pessoas do mesmo sexo no livro sagrado dos muçulmanos o Alcorão, também chamado de Corão.

Destaco aqui a menção feita, na 7ª Surata, ao profeta Ló – ou Lot como eles grafam no Corão:

E (enviamos) Lot,(505) que disse ao seu povo: Cometeis abominação como ninguém no mundo jamais cometeu antes de vós,

Acercando-vos licenciosamente dos homens, em vez das mulheres. Realmente, sois um povo transgressor.

E a resposta do seu povo só constituiu em dizer (uns aos outros): Expulsai-vos da vossa cidade porque são pessoas que desejam ser puras(506).

Porém, salvamo-los, juntamente com a sua família, exceto a sua mulher, que se contou entre os que foram deixados para trás.(507)

E desencadeamos sobre eles uma tempestade.(508) Repara, pois, qual foi o destino dos pecadores!

Apesar dessa passagem e mais umas poucas que abordam as relações entre homens, não se pode dizer que o Corão tenha regras realmente aplicáveis a questões contemporâneas que nada tem a ver com promiscuidade sexual, tais como: casamento igualitário e demais direitos civis dos cidadãos gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros. Por isso, as nações que adotam o islamismo como religião oficial ou que tem maioria populacional muçulmana agem de modos diferentes para com as pessoas LGBT: há países que punem com a pena de morte qualquer pessoa encontrada em ato sexual com alguém do mesmo sexo e há países que aplicam penas mais brandas, como prisão.

É preciso esclarecer que a homossexualidade e a transexualidade nem sempre são tratadas do mesmo modo. Explico:

No Irã, homossexuais são enforcados, inclusive adolescentes. Porém, se o indivíduo for transexual e fizer a operação de adequação genital, não será perseguido. Isso porque tal pessoa será absorvida pela cultura do binarismo de gênero que os líderes islâmicos geralmente enfatizam e fazem questão de preservar.

A má notícia é que há registro de homens gays que se submeteram à transexualização para escaparem à perseguição para logo depois caírem em depressão, porque nunca foram mulheres transexuais, mas homens gays cuja identificação com o gênero masculino foi profunda e irreversivelmente violada.

Vale lembrar que essa brecha para a aceitação das pessoas transexuais não existe invariavelmente em todos os países muçulmanos. E há um estranho silêncio sobre homens transexuais, ou seja, aqueles que nasceram com genitália feminina e assumem o gênero masculino. Levando em consideração que a adequação genital de vagina para pênis não corresponde tão perfeitamente quanto seu inverso, é bem provável que os homens transexuais não desfrutem do mesmo beneficio que as mulheres transexuais – aquelas que nasceram com genitália masculina e exibem identidade feminina.

Enquanto a sanguinária perseguição contra pessoas LGBT em diversos países islâmicos continua sendo patrocinada pelo Estado ou propositadamente ignorada por ele, um filme fez enorme sucesso no Ocidente. Seu nome é A Jihad for Love. Trata-se de um documentário com depoimentos de pessoas muçulmanas que são LGBT. Elas falam de seus dramas, aspirações e vivências. A revista A Capa fez matéria sobre isso.

A rede jornalística Al Jazeera publicou notícia sobre um Imã assumidamente gay no Canadá. Obviamente, ele só pôde se assumir e permanecer em liberdade (para não dizer vivo), graças à democracia canadense e à laicidade daquele Estado. Transcrevo um trecho traduzido por mim aqui, mas a matéria pode ser encontrada no site da Al Jazeera.

Ele tem sido condenado por outros líderes muçulmanos, e alguns imãs locais têm se recusado a cumprimenta-lo. Mas o Imã Daayiee Abdullah – que se crê ser o único imã assumidamente gay das Américas – orgulha-se de sua história.

Ele nasceu e cresceu em Detroit, onde seus pais eram batistas [da Convenção Batista] do Sul. Aos 15 anos, ele assumiu-se para eles. Aos 33, enquanto estudava na China, Abdullah se converteu ao Islã, e foi estudar religião no Egito, na Jordânia e na Síria. Mas como homem gay na América, ele viu muçulmanos gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros terem suas necessidades espirituais negligenciadas e se tornou o primeiro imã a oferecer apoio comunitário. (continua nosite da Al Jazeera)

Por aí, já se vê que o número de pessoas LGBT entre muçulmanos não é diferente do número encontrado em outros grupos religiosos e não religiosos. Na verdade, levando-se em conta a naturalidade da homossexualidade, da bissexualidade e da transgeneridade, é de se esperar que essas pessoas sejam encontradas em quaisquer grupos humanos. Agora, o modo como cada grupo lida com essa diversidade é que pode ser produtivo ou destrutivo. Se o grupo produz e reproduz homofobia, bifobia e transfobia, então haverá sofrimento, mas se essas características humanas forem encaradas com a naturalidade que já trazem em si mesmas, então não haverá conflito quanto ao que se é, como se ama, e como se vive.

A grande questão que salta aos olhos das pessoas ateias, agnósticas e céticas é:

Para que ser religioso e querer participar de uma comunidade de fé que, além de todos absurdos do ponto de vista epistemológico, ético e existencial, ainda acumula e cultiva preconceitos contra homoafetivos, biafetivos e transgêneros?

A pergunta parece até retórica, mas não é tão simples assim. As pessoas não são religiosas porque são heterossexuais e nem deixam de sê-lo porque são lésbicas, gays, bissexuais ou transexuais.

Uma coisa, porém, é certa: o número de pessoas secularizadas em locais que são maciçamente religiosos vai crescendo discretamente. E entre elas também existem aquelas que, sendo LGBT, ousaram pensar livremente, chegando à conclusão de que religião, qualquer que seja ela, não é mais verdadeira que qualquer mito rebaixado à posição de mera produção cultural – o que não deixa de conferir-lhe algum valor, obviamente, mas longe de ser o de verdade absoluta.

Parece-me que a melhor maneira de se combater o fanatismo violento é promovendo o esclarecimento da população com foco nos direitos humanos e no pensamento secularista humanista, porque suas premissas dão espaço para a convivência pacífica de todos, sem adotar qualquer crença religiosa como verdade final.

Aliás, é esse conceito de verdade como revelação divina, que não pode ser questionada, que mobiliza tanta gente para atos de violência como o que vimos na última quarta-feira, quando extremistas islâmicos mataram Charlie Hebdo e outras 11 pessoas na França. Não nos dobremos de modo algum, mas também não percamos a clareza do pensamento racional, acompanhado daquela terna firmeza que caracteriza as pessoas serenas e donas de si, porque de fanáticos, bastam os extremistas religiosos.

Vale a pena ver esse documentário de Bill Maher sobre religião. Ele dialoga com várias e o que a gente vê não tem preço!!! Bom demais! Que haja luz (a da razão bem informada)!!!!

 

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* Sergio Viula foi pastor batista, é formado em filosofia, administrador do blog Fora do Armário www.foradoarmario.net, autor de Em Busca de Mim Mesmo, livro que fala sobre religião, sexualidade e ateísmo, é membro da Liga Humanista Secular do Brasil, e pode ser encontrado no Facebook em:https://www.facebook.com/sergio.viula

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