Índia: Ateísmo na terra das religiões

Por Sergio Viula

Com informações de Aloke Tikku, publicadas no Hindustan Times, New Delhi em 28 de julho de 2016.
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Ganesh era filho do deus Shiva com a deusa Parvati. Curiosamente, o menino Ganesh foi criado do barro para assistir a deusa Parvati, enquanto Shiva estivesse fora.

 

Terra dos crentes: Na Índia, apenas 33 mil pessoas são ateias.

Somente 33 mil pessoas entre 1 bilhão e 200 milhões de habitantes da Índia se declararam ateias no censo de 2011.

As mulheres perfazem metade destes 33 mil ateus, os quais correspondem a 0,0027% da imensa população Indiana – contingente populacional equivalente aos habitantes de todos os países do mundo durante anos da I Guerra Mundial.

Essa foi a primeira vez que o censo contou os ateus, ou seja, pessoas que não acreditam na existência de Deus. O censo indiano é feito a cada 10 anos, portanto, o próximo será em 2021.

Destaques

Maharashtra é o lar do maior número de ateus: 71% deles, ou seja, 9.652 pessoas. Meghalaya é a próxima com 9.089. Kerala contabiliza 4.896 ateus, seis vezes mais que a Bengala Ocidental com seus 784 habitantes ateus. A grande Delhi tem apenas 541 deles.

O resultado do censo de 2011 pode ser um tipo de anticlímax para os ateus, uma vez que o Global Religiosity Index de 2012 havia estimado em 3% o percentual de ateus na população indiana. O censo descobriu que são 0,0027%.

Todavia, é relevante que 2 milhões e 900 mil pessoas não tenham revelado ao censo se tinham religião ou a confundiram com outras identidades. Essas pessoas foram alocadas sob a categoria “religião não declarada”. Assim, pode-se presumir que alguns ateus tenham se recusado a responder essa pergunta, sendo também colocados sob essa categoria.

Não é difícil compreender que num país tão marcado pela religião e com famílias tão controladas pelo pai (o “chefe” da família) revelar-se ateu envolva até mesmo o risco de ser segregado ou castigado, fazendo com que muitos se escondam nos “armários” da indiferença religiosa em vez de assumir a mais completa descrença quanto aos deuses.

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A vaca, conhecida como Nandi, era a montaria de Shiva. Além disso, ela teria o papel de controlar os impulsos do deus apontado pela religião como o destruidor e por isso mesmo, o que dá impulso à renovação.

 

Um indicador de que fatores como esses podem ter influenciado o resultado da questão sobre religião é que 66.000 pessoas, portanto o dobro do número encontrado pelo censo, assumiram-se ateias num censo global online, no qual cada voto era identificado com base no endereço de e-mail utilizado.

Um ex-oficial do governo familiarizado com a contagem decenal do censo disse que é preciso manter em mente que os questionários são geralmente preenchidos com base nas informações fornecidas pelo “chefe” da família e não pelos indivíduos mais jovens que podem se inclinar para o ateísmo atualmente.

Um funcionário do censo também disse o seguinte:

“O que eu posso lhe dizer é que houve algumas pessoas incluindo dignatários com altos cargos no governo que não quiseram registrar sua religião no censo. Eles sentiram que sua fé é uma questão pessoal e não queriam que suas ações fossem vistas através do prisma de sua fé.”

Se essas pessoas são ateias ou não, será difícil saber. E como elas, outros podem ter tomado o mesmo curso de ação, uma vez que a Índia ainda é, sob muitos aspectos, um país extremamente conservador. Mas até mesmo no país com o maior número de deuses no mundo, existem seres humanos que conduzem suas vidas sem temer ou sem recorrer ao “sobrenatural”. Isso, por si só, já é extraordinário no sentido de fora do comum e no sentido daquilo que causa surpresa ou admiração.

 

 

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TEOCRATAS querem controlar as escolas: Escola ‘sem partido’

Por Sergio Viula

 

escola sem partido

“Escola sem partido” é um daqueles nomes que servem como envelope colorido e perfumado para disfarçar uma carta-bomba, por exemplo. Ao ouvir o termo, ninguém imagina o poder destrutivo que essa ideologia pode esconder. De fato, ela é ainda mais perigosa à medida em que inspira projetos de lei. O que dizer quando esse projeto de lei tramita, podendo se constituir em lei de fato?

 

A ideologia do “Escola sem partido” é mais uma daquelas aberrações legislativas tão típicas de conservadores irmanados com as bancadas religiosas no Congresso. Quem propõe e/ou defende esse projeto de lei são justamente teocratas que odeiam a laicidade estatal e adorariam ver a escola como extensão de suas igrejas. Já conseguiram garantir o ensino religioso nas escolas públicas, disciplina, na prática, está longe de ser administrada de forma não confessional. Geralmente, é conduzido por gente extremista ligada à igreja católica ou às igrejas evangélicas e reflete a “ânsia evangelística” e a “carga doutrinária” dessas igrejas, em vez de simplesmente pensar o fenômeno religioso de modo mais amplo.

O canal Futura apresentou na quinta-feira passada, 21/07/16, por volta das 20 horas, um debate excelente sobre o “Escola sem partido”. A apresentação que eles mesmos fazem do programa para o canal deles no Youtube (publicado dois dias antes) é a seguinte:

ASSISTA O PROGRAMA AQUI:

Escola Sem Partido – Sala Debate – Canal Futura

O movimento Escola Sem Partido foi criado em 2004 pelo advogado Miguel Nagib, mas ganhou força no início do ano passado com a apresentação do Projeto de Lei nº 867/2015, de autoria do deputado Izalci (PSDB/DF). O objetivo é incluir entre as diretrizes e bases da educação nacional o “Programa Escola sem Partido”. Nele, os professores devem seguir cinco orientações sobre como se portar em sala de aula, em nome de uma “neutralidade ideológica” no ensino. O projeto vem sendo duramente criticado por profissionais da educação, enquanto é apoiado por setores mais conservadores da sociedade. O tema ganhou destaque na agenda política e já está com projetos sendo desenvolvidos no plano Federal, Estadual e Municipal. Em Alagoas, sob o nome de “Escola Livre”, o projeto foi aprovado pelos deputados, vetado logo na sequência pelo governador, mas ainda assim foi publicado no Diário Oficial devido à derrubada do veto pelos mesmos deputados. 


A discussão sobre o Escola Sem Partido passa principalmente pelo papel que atribuímos às escolas. Enquanto os apoiadores defendem que a formação moral do cidadão deve ser restrita ao âmbito familiar, profissionais da educação ressaltam a importância do ambiente escolar para ensinar valores como diversidade, igualdade e inclusão, por exemplo, através do convívio e aprendizado de questões que vão além do espaço familiar/privado, entrando no social/público. 


Até mesmo a constitucionalidade do projeto é debatida por advogados, já que em seu artigo 205 a Constituição Federal afirma: “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. A tentativa de abolir os direitos do professor chega ao extremo na justificativa do projeto, na qual se afirma explicitamente que “não existe liberdade de expressão no exercício estrito da atividade docente”, ou seja, a proposta usurpa dos professores a liberdade de expressão, garantida a todos os cidadãos brasileiros pela Constituição Federal (Art. 5º, IX).

O Sala Debate recebe Fernando de Araujo Penna, professor da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense, e Miguel Naggib, autor do projeto Escola Sem Partido.

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A estratégia desses fundamentalistas religiosos investidos de poder parlamentar costuma ser a mesma:

  1. Depreciar tudo o que não corresponda à agenda missionária deles e/ou à cartilha doutrinária de suas agremiações religiosas;
  2. Demonizar determinados grupos, ideias, livros, hábitos e até desenhos animados e videogames. Tudo é demoníaco, menos a manipulação mental descarada exercida por eles a partir dos temores e das ambições do povo que os segue, inclusive com escancarada exploração financeira;
  3. Dar nomes ao que eles querem depreciar que automaticamente acionem preconceitos, temores e ódios na mente dos que os ouvem – manipulação mental novamente;
  4. Dar nomes aparentemente piedosos ou que soem agradáveis aos ouvidos treinados de seus seguidores e de outras pessoas mal informadas, inclusive aquelas que não os seguiria se soubessem do que realmente se trata o que escondem atrás de tais nomes;
  5. Eleger certas pessoas ou grupos como os inimigos número 1 do “povo de deus”, geralmente aquelas que são obstáculos a realização do projeto teocrático desses mesmos abutres disfarçados de “defensores” de seja lá o que for.

paulo freire

Dessa vez, com o “Escola sem ideologia”, esses caras passaram de todos os limites, provocando reações contrárias até por parte de vários setores da sociedade, principalmente daqueles ligados à educação, já suficientemente sucateada por esses mesmos sabotadores da educação.

Chama atenção que diante dos esforços dos educadores ligados ao sistema público de educação com vistas a obterem melhorias para o sistema em si e aumentos para seus salários mais do que defasados, esses mesmos deputados nunca tenham feito qualquer movimento para pressionar o governo a ouvir esses profissionais, alunos e pais de alunos. Porém, quando o assunto é ensino religioso, eles rapidamente se mobilizam. Se for inclusão de minorias com efetivo combate ao bullying e outros temas, eles rapidamente fundem num bloco para evitar qualquer avanço nesse sentido. Mas para promover essa sabotagem chamada “Escola sem partido”, não falta disposição por parte desses manipuladores da opinião pública. Ou seja, quando é para trabalharem em favor da educação, nada. Mas quando é contra ela, esses deputados demonstram uma disposição invejável para a mobilização.

A Folha de São Paulo também abordou o tema. Não chega nem perto do debate do canal Futura. Recomendo muito que assistam o vídeo acima, mas destaco alguns trechos da matéria da Folha de São Paulo sobre essa ideologia chamada “Escola sem partido”. A matéria foi escrita por Paulo Saldaña e foi publicada em 23/07/2016:

  1. O MINISTÉRIO PÚBLICO CONSIDEROU INCONSTITUCIONAL O “ESCOLA SEM PARTIDO”: Ministério Público Federal encaminhou ao Congresso Nacional nota técnica em que considera “inconstitucional” proposta de incluir o programa Escola Sem Partido na Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Veja o que diz o site da Agência Brasil AQUI.
  1. LEI DA MORDAÇA: Representantes de movimentos estudantis se posicionam contra o que chamam de “Lei da Mordaça”.
  1. A IDEOLOGIA DO “ESCOLA SEM PARTIDO” CONTRARIA A LAICIDADE E SUBVERTE A ORDEM CONSTITUCIONAL: Segundo a procuradora dos Direitos do Cidadão, Deborah Duprat, a iniciativa “subverte” a ordem constitucional: impede o pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas, nega a liberdade de cátedra e a possibilidade ampla de aprendizagem, e contraria a laicidade do Estado, por permitir no espaço público da escola visões morais e religiosas particulares. 
  1. A IDEOLOGIA DO “ESCOLA SEM PARTIDO” QUER SILENCIAR PROFESSORES E ALUNOS: No site e na página no Facebook ligadas ao movimento Escola Sem Partido, são citados supostos casos de doutrinação de esquerda. Projeto do senador Magno Malta (PR-ES) ainda veta a abordagem sobre gênero. A reportagem pediu entrevista com o senador e com o coordenador do movimento, mas não obteve retorno. 
  1. O PROJETO QUER CENSURAR PROFESSORES SOB A DESCULPA DE QUE FAZEM RECRUTAMENTO POLÍTICO: Segundo a justificativa dos projetos, “é fato notório que professores e autores de livros didáticos” utilizam-se das aulas e obras para ter “a adesão dos estudantes a determinadas correntes políticas e ideológicas”. 
  1. NÃO HÁ QUAISQUER DADOS QUE COMPROVEM A “JUSTIFICATIVA” NO ITEM 5 E SE HOUVESSE A ESCOLA TEM MECANISMOS PARA EQUILIBRAR ISSO INTERNAMENTE: Para Marcelo Figueiredo, da PUC-SP, primeiro é necessário saber se há, de fato, um problema de doutrinação. “Até agora não há dados para essas afirmações”, diz. “E se houver, a preocupação deve ser resolvida no ambiente educacional.” 
  1. CONTROLAR OS PROFESSORES COMO MARIONETES NÃO PROMOVE A QUALIDADE DO ENSINO, MAS SEU EMPOBRECIMENTO: O ministro da Educação, Mendonça Filho (DEM), disse que respeita o debate, mas se posicionou contrário a uma lei. “Não teremos uma educação de qualidade por meio do controle do professor. Por mais bem-intencionados que possam ser [os autores dos projetos], criar um tribunal de ideias na escola é complicadíssimo.” 
  1. PROFESSOR TEM QUE TER AUTONOMIA: O secretário de Educação do Estado de São Paulo, José Renato Nalini, diz que enxerga nas iniciativas um “interesse da comunidade em participar do processo educacional. “Todavia, a liberdade de expressão, a autonomia do docente, não se compatibilizam com o estabelecimento de restrições”, diz.

einstein

 É fundamental que todos tomem muito cuidado com as interferências desses fundamentalistas religiosos e outros segmentos a eles assemelhados, especialmente quando se trata de produção e divulgação de conhecimento – a escola é parte desse processo. De igual importância é a formação do cidadão como um todo – tarefa áurea das instituições educacionais.

É preciso que se diga que diversos segmentos têm se posicionado contra os ataques desses fanáticos, especialmente os ateus, agnósticos, céticos, humanistas, laicistas, etc., mas vários cidadãos religiosos, já vitimizados por projetos de segregação e silenciamento promovidos por esses grupos extremistas no dia a dia também têm juntado suas vozes ao coro da resistência.

Diga-se de passagem que muitos desses mandatos políticos foram conquistados através de verdadeiros currais eleitorais instalados em igrejas cujo verdadeiro objetivo é conquistar poder político e econômico.

Escola sem partido”, portanto, nada mais é que um eufemismo para “Escola sob o poder de fundamentalistas religiosos e conservadores extremistas”. Não caiam nessa conversa. As escolas têm que ser cada vez mais plurais, democráticas, engajadas nos debates que circulam na sociedade, enquanto equipam os alunos com os conteúdos de cada disciplina, especificamente.

malala

 

Não percebeu ainda a trama? Basta lembrar do ódio demonstrado por Malafaia, amiguinho de Magno Malta, citado no item 4, quando criticou o Colégio Pedro II, uma instituição na qual professores e alunos têm uma consciência democrática acima da média. Ele chamou o colégio de “antro dos esquerdopatas”. O que é isso senão exatamente aquela técnica citada no número 2 e 5 lá em cima?

malafaia e azevedo

 

Será que esses caras não têm vergonha na cara, não? E por que será que eles não trabalham para acabar com as injustiças que infelicitam tantos cidadãos? Pior, como podem ser tão canalhas, esforçando-se para implementar outras formas de violência disfarçadas sob eufemismos mais palatáveis?

Um extremista com uma arma na mão mata dezenas, centenas, mas um extremista do tipo que costuma compor as bancadas do boi, da bala e da bíblia pode sabotar um país inteiro.

Veja o que diz Leandro Karnal sobre o “Escola sem partido”. Vale dizer que ele já despertou a ira de gente conhecida por seu conservadorismo e simpatia para com ideias de parlamentares fundamentalistas religiosos.

Assista do minuto 45:43 até 49:45, depois vale ver do minuto 53:00 ao 54:44 (apesar do programa inteiro ser ótimo!)

Diga não a esse embuste chamado “Escola sem partido” – mais um truque de teocratas para interferir nas instituições públicas.

 

Vale a pena ver esse trecho em que Leandro Karnal fala sobre sua posição em relação à fé e à solidão e à solidariedade humanas.

RECOMENDO A LEITURA DESSE TEXTO DE BRUNO FERREIRA:

Escola sem partido, mas com religião: http://portal6.com.br/2016/07/21/escola-sem-partido-mas-com-religiao/

O sofrimento humano e as crenças na visão de um ateu

Por Sergio Viula

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O sofrimento humano e as crenças

Originalmente escrito para o Blog Fora do Armário em 23/12/13

As crenças podem ser tão variadas quanto os seres humanos. Há até quem creia na própria crença como meio para aliviar sofrimentos e superar dificuldades pessoais. A questão já não é mais se a fé é remédio ou placebo. Afinal, placebo que ‘funciona’ é remédio, pragmaticamente falando. Mas, para funcionar é preciso que a pessoa que faz uso dele realmente acredite que se trata de um genuíno remédio, pois se o paciente suspeitar de que está diante de um mero placebo, o efeito já não será o esperado.

Assim mesmo é com a fé: é preciso que a pessoa acredite realmente que os conteúdos de sua crença têm correspondência no mundo real, ou seja, que não são apenas ideais.

1. Crenças podem ser belas sob o ponto de vista estético.

Como não considerar belos os paramentos sacerdotais do catolicismo, do islamismo, do candomblé, da umbanda, que são indubitavelmente muito mais belos do que o mero paletó da maioria dos pastores protestantes ou mesmo do que a estola negra dos reformados? E o que dizer da maioria de seus templos, rituais, dietas, etc.?

2. Crenças podem ser boas sob o ponto de vista filantrópico.

Pessoas que acreditam ter a missão de aliviar o sofrimento que grassa pelo mundo a fora podem fazer muito bem ao próximo, ainda que esse conceito de bem possa ser questionado quando ambições pós-morte entram na economia desses atos de ‘caridade’.

3. Crenças podem ser consideradas tipos de ‘saberes’, especialmente do ponto de vista dos foucaultianos e das tradições.

Elas baseiam-se em oralidade, tradições escritas, rituais, preceitos e outros conteúdos. Algumas vezes podem envolver até conhecimentos sobre saúde, tais como ervas que curam e coisas a serem evitadas para a preservação do corpo e da mente.

Claro que o oposto também ocorre: crenças podem ser feias, cruéis, venenosas, destrutivas ao corpo e à mente. Rituais de iniciação que colocam em risco a integridade física e mental de crianças, adolescentes, nubentes, e por aí vai.

Um preço alto

De uma coisa, porém, qualquer crença carece: liberdade de pensamento. No momento em que o indivíduo crê, ele começa a usar o conteúdo de sua crença como crivo da verdade. Ela passa a ser o contrapeso da balança, a peneira, a régua, o esquadro e o compasso, através dos quais tudo será medido, pesado, julgado. Tudo estará sujeito à crença em primeiro lugar e mesmo que o indivíduo reveja algum conceito, isso geralmente se dará com base na própria crença, isto é, haverá alguma justificativa baseada nos conteúdos dessa mesma fé.

O ser humano que nutre alguma crença no sobrenatural, e daí deduz regras para a vida, parâmetros para a análise do que acontece ao seu redor e para a interpretação de si mesmo e de sua relação com esse derredor, terá sua percepção e sua razão dominadas pelos fantasmas evocados dessas mesmas crenças – o que também determinará, em grande parte, suas ações e reações a tudo isso.

Essa dinâmica interior é tão intensa e aparentemente tão real que o indivíduo que passa por tais experiências [na verdade, psíquicas] tende a ver uma espécie de confirmação da veracidade de suas crenças em tudo o que acontece a ele mesmo e aos que o cercam.

Hoje, presenciei uma situação assim: um jovem que aspira à felicidade e a uma vida equilibrada com a pessoa que ele ama; trabalhador; sofrido por acumular várias decepções na vida; pensando que havia finalmente encontrado a pessoa certa para compartilhar seus dias e se aprumar, sofreu a decepção de vê-la arruinar tudo, numa espécie de crise psicótica [sei lá que nome dar a isso].

Amando-a e querendo continuar com ela, mas vendo que não podia fazer nada contra a ira, a ofensa e a agressão, especialmente porque não queria revidar, queria apenas apaziguar os ânimos, ele entra numa espécie de colapso nervoso e não consegue parar de chorar e de falar desesperadamente.

Ela, que tem um background evangélico pentecostal, compartilha da ideia de que o diabo existe, pode possuir corpos, e que só Deus pode libertar. Contudo, considera que não tem sido boa bastante para contar com o favor divino e acha que também tem sua cota de demônios.

Ele, que tem um background de umbanda ou candomblé [não está claro], acredita que ela tenha um encosto para agir assim, do nada.

Acreditando que o Deus judaico-cristão possa lhe oferecer uma vida melhor do que os Deuses africanos, desesperado por ajuda e tendo sido cercado por quatro ou cinco crentes na hora do desespero, acaba por pedir oração. Foi o suficiente para que o circo fosse armado. Ele, cuja fé inclui a incorporação, se submetia àqueles cuja fé inclui o exorcismo. Prato cheio para mais gritaria.

Tive compaixão do rapaz. Decidi intervir. Pedi que parassem de gritar e me deixassem conversar com ele. Falei carinhosamente que ele não precisava se sujeitar a essa humilhação, que tudo isso não passava de um tipo de colapso. Disse-lhe que a sobrecarga emocional, o sofrimento acumulado e a crise daquele momento eram pesados demais para que ele carregasse tudo isso sozinho. Ele precisava conversar. Disse-lhe – prostrado e em profundo sofrimento sob o eco de “liberta, Jesus” – que sua imaginação o estava traindo. Pedi que ele se controlasse, porque tudo se ajeitaria. Disse-lhe que ele só precisava relaxar e que não devia deixar as pessoas trata-lo como possuído por algo maligno, que seus deuses não eram piores do que o deus deles. Ele se acalmou.

Os crentes não gostaram nada disso. Quiseram me convencer de que eu ‘sabia’ a ‘verdade’ e que não podia renega-la. Talvez tenham pensado, a partir de suas crenças (de novo!), que o ‘demônio’ podia estar se aquietando para não me dar motivos para crer. Afinal, a presença do demônio seria uma prova da existência de Deus – pensam os próprios exorcistas. Mais uma vez, a crença ditava juízos a partir de uma razão viciada em encarar mitos como realidades autônomas.

Pessoalmente, já não sabia de quem sentir mais compaixão. Tentei convencê-los de que aquela gritaria exorcista só piorava o estado do rapaz. Disse que não estavam ajudando o moço a superar a dor, mas multiplicando seu sofrimento em meio a tudo aquilo. Como já era previsível, não me deram ouvidos.

O rapaz continuou implorando “eu quero Deus”.

Saí, dizendo que não sabia quem seria pior nessa história toda – deus ou o diabo.

Que deus é esse que não age. Que deus é esse que precisa dessa gritaria toda para ouvir um pedido? E que demônio é esse que não obedece ao seu Criador? O povo gritava a ficar rouco. Sem exagero algum, as alas psiquiátricas de qualquer hospital pareceria menos louca.

Senti muita pena do rapaz e dos exorcistas de plantão. No fundo, sei que todos eles querem o melhor. É por amor que fazem isso. Mas, amor sem conhecimento pode ser instrumento de sujeição, tanto de si mesmo a outros quanto de outros a si mesmo.

Mas era justamente o “filtro” da crença que não permitia que “possuído” e “exorcistas” vissem a contradição em que estavam envolvidos. Tudo fazia sentido de acordo com suas crenças: o mal que ele sofria era obra do capeta; a solução era Jesus.  Ele mesmo deve ter achado que essa crença ‘limpinha’ – sem charuto, sem cachaça, sem defumador – só podia ser melhor do que a dele. Ledo engano. Os crentes têm outros vícios – entre eles, o da contradição: Deus pode fazer todo o bem que deseja, mas não faz. Agora, se Deus não faz o bem, podendo fazê-lo, então não pode ser bom. Contudo, eles continuam cantando “louvai ao SENHOR, porque ele é bom; porque a sua benignidade dura para sempre.” (Salmos 136:1)

A música amolece o coração e sua repetição entorpece o entendimento.

O resumo da ópera é que o rapaz continua cheio de problemas e frustrações, enquanto os exorcistas seguem cheios de fantasias e ilusões. E grande parte desses sofrimentos e fantasias é fruto das crenças que cada um abraçou ao longo da vida.

Todos eles precisam mais da psicanálise do que imaginam. A moça, talvez até de psiquiatria.

Viver dói. As crenças poderiam anestesiar a dor de alguma forma [placebo], mas ao mesmo tempo em que aliviam algumas, criam outras – a pior delas é a ideia de que não posso conduzir minha vida de modo belo, bom e sábio sem as muletas da fé. Pessoas que, do ponto de vista existencial, têm capacidade para andar sozinhas, para correr, pular, chutar, mas preferem mancar apoiados na fé. Pior ainda: sentem-se gratas por aquilo de que não precisam. Até estranham que outros não tenham muletas ou que – por via das dúvidas- façam uso delas, mas sem muita convicção.

Todo ser humano deveria caminhar pelas próprias pernas, lançando tais muletas por terra, criando seu próprio caminho a cada passo que dessem, fosse no dia da alegria ou da tristeza, do prazer ou da dor, porque a vida não é só uma coisa nem [só] outra. E todas elas terminam quando a morte chega – todas igualmente. Impreterivelmente.

Emancipar-se das crenças é sinal de amadurecimento, mas ser adulto dói. A maioria prefere viver eternamente sob a tutela de pais/mães imaginários, cercados de ‘irmãos’ que também se consideram filhos destes.

Não digo isso com arrogância. Digo-o com tristeza, porque sei que nenhuma evidência, argumento ou lição na vida – ao contradizer a crença – será sequer levado a sério pela maioria das pessoas.  E a razão é simples: a maioria crê em alguma entidade imortal, sejam vários deuses ou um só, imanentes ou transcendentes, pessoais ou impessoais; bajulados por um séquito de colaboradores e contrariados por um ou mais adversários contumazes, sejam lá quais forem seus nomes.

Muita gente pensa que a vida sem fé no sobrenatural é mais difícil. Esse é outro juízo equivocado nascido da crença; apenas outro mecanismo de defesa. E não me surpreenderia que a maioria das pessoas nem sequer chegasse a ler metade desse texto. As mais resistentes talvez cheguem ao fim, mas com aquele pensamento nada original: “quando as coisas apertarem, ele vai correr para Deus. Todo mundo pode ser ateu em tempos de paz. Quero ver na hora da dor.”

Dizendo isso, apenas revelam que não podem conceber um ser humano absolutamente desprovido de crença no sobrenatural, no divino, no pós-morte, etc. Elas pensam que, bem lá no fundo, deve existir uma fagulha de fé que – se alimentada pela lenha da necessidade – há de se tornar numa fornalha de devoção. Esse é apenas um dos modos como quem crê lida com o desconforto de ver que há quem viva sem o menor vestígio de fé. E isso diz muito mais a respeito dos que creem do que a respeito dos que não.

Ironicamente, enquanto sofro por esse rapaz, essa moça e demais envolvidos, nutrindo o desejo de que todos eles se emancipem das crenças que iludem sua percepção e juízo, cerceando sua liberdade, acho que isso dificilmente acontecerá. Estatisticamente, é uma minoria que desperta do sono dogmático.

A vida, porém, ignorando teístas e ateus, segue sempre adiante, mas nunca em linha reta.

O universo já foi menor que a cabeça de um alfinete

Por Sergio Viula

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Alfinetes: Antes do Big Bang, o universo pode ter sido menor que a cabeça de um alfinete.

Dando uma passada pela ARCA (Associação Racionalista de Céticos e Ateus), deparei-me com esse trecho do programa do Bill Maher, no qual ele entrevistava Neil deGrasse Tyson, esse brilhante e muito bem-humorado astrofísico. Curti tanto que decidi compartilhar com os leitores aqui do viulaateu.

De fato, nada mais encantador e intrigante do que o universo e tudo o que o compõe! Isso vale tanto para a mais leve molécula de gás como para o mais denso buraco negro, incluindo seres vivos e não-vivos no entremeio.

Daí, vi essa frase (Tyson a diz num contexto que acaba deixando desconcertado o inquebrantável Bill Maher – dei muita risada aqui): “O Universo não tem obrigação de fazer sentido para você.”  Imediatamente, lembrei de um post que escrevi aqui, intitulado Existência: Surgimento, permanência e desaparecimentoSugiro a leitura.  Acho que você vai curtir.

Para não me estender muito, deixarei as senhoras e os senhores na companhia desses dois cavalheiros brilhantes e divertidos.

Antes, deixo uma palavra de encorajamento aqui:

Viva intensamente e faça essa configuração atômica incrível  que é você deixar algo de positivo para as gerações futuras – algo que não tenha nada a ver com fanatismos, moralismos, auto-patrulhamentos movidos por culpas e medos, esperanças infundadas em mundos imaginários, negação do corpo, negação do mundo e da vida, submissão a humanos inescrupulosos e a seus livros sagrados ou a seus deuses sanguinários gerados nas trevas da ignorância humana desde tempos remotos, divindades continuamente buriladas a fim de parecerem mais palatáveis a cada geração que surge no planeta.

O resumo de tudo o que disse acima é simples: Torne-se dono de si mesmo e viva intensamente cada momento de prazer que a vida lhe proporcionar, tendo apenas um limite: o direito do outro à mesma autonomia e dignidade que você reclama para si mesmo.

Uma coisa é certa: Não vamos durar para sempre. Já os átomos que nos compõem, sim. Esses nunca passarão e provavelmente constituirão outros seres vivos ou não-vivos.

Ah, como diz Tyson, isso [também] não precisa fazer sentido para quem quer que seja.

Quanto a mim, só quero viver tranquilamente cada alegria que o corpo possa me proporcionar – desde uma singela e gostosa noite de sono até o amor mais intenso e envolvente, além de todos aqueles pequenos prazeres cujo valor muitos nem se importam em reconhecer. E tudo isso sem ter que pedir ou agradecer a ninguém por por essas coisas, exceto, talvez, àqueles que participam dessas gostosas e significativas vivências. E nesse sentido, a lista é grande, indo de pais e filhos (meus) ao homem que me dá o privilégio e prazer da convivência mais íntima, passando por pessoas cujos nomes são queridos e até mesmo desconhecidos. Afinal, tudo que me chega às mãos foi feito ou processado por outro ser humano em algum lugar do mundo, tão perto quanto a padaria do bairro e tão longe quanto a Dinamarca ou a Coréia.

De novo, a vida não precisa fazer o menor sentido para quem quer que seja, mas ela pode ser deliciosa! ♥♥♥♥♥♥