Feitos de minerais e outras coisinhas

 

Por Sergio Viula

museu minas e metal
Museu das Minas e do Metal – Belo Horizonte (MG)

 

Domingo passado, o texto semanal do site Viulaateu não saiu. A razão foi justa. ^^ Estávamos, Andre e eu, visitando a família dele em Belo Horizonte e não levamos laptop. Acabei não publicando nada aqui, excepcionalmente, mas estive no Museu das Minas e do Metal, que é patrocinado pela companhia Gerdau – uma gigante dos minérios.

O museu é simplesmente lindo e extremamente bem equipado. Ao longo das diversas exposições, pudemos ver amostras de pedras preciosas, semipreciosas, minerais dos mais diversos tipos, inclusive com nomes que eu nunca tinha ouvido falar, metais considerados os mais preciosos e outros até essenciais para o funcionamento do mundo que criamos dentro do mundo que encontramos – essas coisas que chamamos de civilização e de cultura.

museu minas e metal entrada
Entrada do Museu das Minas e do Metal – Belo Horizonte (MG)

Havia muita coisa interativa. Uma das que mais me chamaram atenção foi uma balança que calcula a quantidade de minerais que compõem nosso organismo. A máquina calcula de acordo com o peso e altura de cada indivíduo. Alguns minerais, eu tinha em maior quantidade que Andre, outros, ele tinha em maior quantidade do que eu – o que parece demonstrar que a tal máquina funciona como um scanner, porque ela não utilizou um padrão tipo:

Menos peso ou menos altura = menos de todos os componentes minerais.

O resultado parecia realmente customizado, individualizado. Foi empolgante! Lembro que nos revezamos umas três vezes subindo e descendo, um após o outro, só para compararmos esse ou aquele mineral que nos chamasse mais à atenção.

scanner museu
Scanner de metais que compõem nosso corpo

Tudo isso instiga muitos pensamentos, é claro. Um deles é que somos filhos da Terra. Nossa linda e macia pele, nossos cabelos, nossos dentes, nossas cartilagens, as mais minuciosas conexões cerebrais, e as mais diversas reações químicas que nos constituem e nos modificam o tempo todo dependem dos elementos que também compõe pedras, solos, rios, etc. E tudo isso, por sua vez, veio de corpos extraterrestres: estrelas e asteroides. Talvez, outros também.

Outro pensamento é o de que somos produto de bilhões de outros seres vivos e seres não-vivos que existiram antes de nós. Hoje mesmo, eu acariciava o braço e a mão do Andre, enquanto tomávamos o café da manhã, e dizia mais o menos o seguinte:

“Como eu gosto dessa cor, dessa textura de pele, desse formato de mãos. E pensar que tudo isso só está aqui diante dos meus olhos, graças a tantos seres que já viveram e já morreram ou se formaram e se desfizeram.”

Ele ficou me olhando meio pensativo. Completei: “Ainda vou escrever sobre isso.” Não menti, como vocês podem ver.

Mas se ele estava ali diante dos meus olhos, graças a todos esses processos e incontáveis relações estabelecidas no seio da natureza, o cérebro que o enxergava e tocava por meio dos meus olhos e das minhas mãos também surgiu  e perseverou em seu ser, graças aos mesmos processos e relações, ainda que em combinações diferentes – o que resulta em nossas características – elas mesmas tão diversas entre si, mas igualmente humanas em toda sua complexidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA
Lentes que aumentam os minerais para melhor observação                                             Museu das Minas e do Metal – Belo Horizonte (MG)

 

Antes de encerrar, não posso deixar de mencionar que assim como somos configurados através da combinação de decompostos de outros seres que viveram antes nós (animais, vegetais, peixes, insetos, outros humanos), além de seres não-vivos, tais como as rochas, os sedimentos que compõem o solo, os raios que nos atingem por todos os lados vindos do espaço, etc, nós mesmos estamos transformando tudo através de nossas interações diárias, seja pelo uso, o consumo ou pela excreção (urina, fezes, etc.).

Além disso, nós mesmos entraremos em decomposição um dia, possibilitando combinações extremamente diversificadas dos elementos que antes nos compunham. Isso quer dizer que haverá outros seres vivos e não vivos surgindo, graças à desmontagem dessa configuração que hoje nos caracteriza e à subsequente reconfiguração dos elementos em formas e ambientes com os quais jamais sonhamos. E assim o universo, com sua grandeza macroscópica e microscópica, vai existindo em constante devir ainda que nós pensemos que tudo o que existe tenha sido sempre assim ou que permanecerá do jeito que o percebemos hoje. Nada poderia estar mais longe da realidade.

Tudo muda o tempo todo, mas a matéria da qual tudo isso parece que nunca deixará de ser, mesmo que seja em formas, cores, temperaturas e texturas muito diferentes das que testemunhamos em nossa curta e atormentada jornada existencial.

A mim, pessoalmente falando, tudo isso deslumbra e atemoriza.

Sinto-me deslumbrado com a grandeza de tudo o que experimento à minha volta e tudo o que percebo em mim mesmo.

Sinto-me atemorizado pela ideia de que tudo o que construímos ou viermos a construir poderá virar poeira de uma hora para outra, mesmo que isso leve milhões de anos para acontecer. Mas o que seriam alguns milhões de anos para o universo no qual habitamos – ele mesmo com 13 bilhões e 700 milhões de anos, de acordo com as pesquisas mais recentes?

A pergunta que eu mesmo poderia me fazer é: Por que, então, sigo em frente e continuo aproveitando todos os meios legítimos para ser feliz e viver uma boa vida?

Pelo mesmo motivo que as abelhas continuam coletando néctar todo dia, as aves continuam caçando seus insetos, os leões continuam patrulhando seus territórios e aumentando seus clãs. E que motivo seria esse? Porque é da minha natureza, por assim dizer. É parte da minha constituição. Não sei viver de outro modo. Além disso, não vejo outro modo de deglutir a parte que me cabe desse caldo denso a que chamamos de realidade. Pode parecer simplista, mas tem sido suficiente para mim assim.

E você, como se sente diante de tudo isso? Está de bem consigo mesmo e tentando tornar o mundo à sua volta um lugar mais bonito e vivível? Espero que sim.

Para falar a verdade, os minerais em você não ligam, isto é, não dão a menor importância para como você vive ou deixa de viver. Eles sempre estarão por aí. Mas tem muito bicho senciente que adoraria viver num mundo menos perturbado pela inquietação desse animal que anda causando problemas acima de qualquer média desde que aprendeu a andar sobre duas pernas, usar as mãos para mais do que coletar sementes e frutas, e desenvolveu a capacidade de expressão.

museu das minas e metais andre e sergio
Andre e eu depois de visitarmos o Museu das Minas e do Metal – 24/04/16.

 

 

Aparentemente, nós mesmos podemos ser mais felizes quando vivemos uma vida norteada por noções de justiça, bondade e beleza, associadas ao cultivo das paixões alegres e da apreensão de tudo o que aumente nossa potência sem devastar o que nos rodeia. Gosto de pensar que basta que sejamos minimamente inteligentes para desejarmos viver nossas vidas assim. Deixar de vigiar a vida alheia e começar a viver a nossa intensamente, inspirando outros a fazerem o mesmo. Vamos juntos nessa direção?

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s