Depois de uma semana de Ana Paula Valadão, eis que vos digo: “Só os poetas salvam…”!!!

Por Sergio Viula

carlos patricio alberto
Carlos Patricio Alberto (Santiago, Chile)

Depois de uma semana ouvindo o lixo que esses “profetas” de meia-tigela produzem em nome de um Jesus fabricado nos porões de mentes atormentadas por culpa, medo ou seduzidas pelas riquezas que a exploração da fé tão facilmente arrasta dos bolsos dos miseráveis ou remediados para o desses cada vez mais ricos pastorecos e cantorecos gospel, é refrescante conversar com um poeta que não recorre aos pobres deuses dependentes da bajulação de seus devotos para permanecerem no horizonte do imaginário humano. Caso contrário, já teriam caído no mais completo esquecimento ou teriam sido relegados a aparições nos desenhos da Disney, como acontece com os deuses gregos, vikings, romanos, astecas, etc. Aliás, essas aparições ainda contam com mais realismo do que as visões de araque desses desvairados.

Carlos compartilhou uma poesia comigo (veja abaixo), talvez por saber que amo literatura. Li e amei o poema imediatamente. Pedi permissão para publicá-la aqui. Ele deixou. Ficou surpreso quando eu disse que faria propaganda do livro dele também, porque o que é bom merece destaque ainda maior do que qualquer polêmica estúpida produzida por falastrões refastelados na lã ($$$) e nas carnes ($$$) das ovelhas que caem nas armadilhas de seus currais infectados com todo o tipo de desonestidade intelectual. Não tenho pena dessas “ovelhas” também, não. Elas ladram como cães tentar mostrar o erro em que caíram, mas balem como cordeirinhos enquanto suas lideranças nada santas vão sangrando-lhes cada gota que corre nas veias.

Se quiserem saber o que escrevi sobre as palavras daquela crentelha da Ana Paula Valadão sobre a campanha Dia dos Misturados da C&A, leiam esse post, mas preparem-se para altas gargalhadas, porque nada mais divertido do que a “pagação de mico” desses crentes fundamentalistas que deixam Os Três Patetas, O Gordo e o Magro, Chapolin Colorado, Chaves e outros profissionais da comédia pastelão com vergonha alheia. Está aqui, olha:

C&A Dia dos Misturados – Cala a boca, Ana Paula Valadão!  http://www.foradoarmario.net/2016/05/c-dia-dos-misturados-cala-boca-ana.html

Bem, como o poema de Carlos é bálsamo para quem não tem medo de saber que está por sua própria conta e risco no mundo, podendo contar, às vezes, com a solidariedade dos que o amam, assim como oferecer a sua a seus amados, deixo você com o poema “REAIS”, escrito por Carlos Patricio Alberto.

Agora, o poema…

Provocações reflexivas poema

Você pode adquirir o livro diretamente com o autor por mensagem inbox no seguinte perfil:

https://www.facebook.com/carlos.patricioalberto

O livro custa 25 reais. Preço bastante razoável para um livro impresso. Adquira o seu.

Carlos também escreveu DELIRIUM. Pergunte-lhe sobre esse livro também.

Carlos-Patricio-Alberto-Delirium-Editora-42-Livro

Anúncios

Batismo de Sangue e o batismo de Bolsonaro

Por Sergio Viula

bolsonaro-batizado
Bolsonaro é batizado em 12/05/16 pelo Pastor Everaldo, líder do PSC, em Israel

Muita coisa me espanta na humanidade, mas algumas me espantam de modo muito peculiar. Uma delas é quando alguns ateus ingênuos, ignorantes ou mal-intencionados dizem-fazem coisas típicas de crentes fanáticos. Claro que não cabe a mim, a priori, dizer quem se encaixa nessa ou naquela categoria, mas não consigo deixar de me espantar e até de rir daqueles ateus que repetem o catecismo católico ou protestante sem dar crédito aos seus autores, apenas eliminando palavras como deus, Jesus, Bíblia, etc.,  só que mantendo todo arcabouço construído por judeus, cristãos e muçulmanos, especialmente naquilo que diz respeito aos moralismos que embaçam a razão, endurecem o ‘coração’ e tornam quase tudo ao redor deles tão bolorento quanto as masmorras da Inquisição (e suas crias) ou tão virulento quanto os círculos sectários dos protestantismos fundamentalistas e de seus filhotes – os chamados ‘evangélicos’ e ‘pentecostais’, bem como outras seitas que se valeram tanto dos ventos separatistas da Reforma Protestante como de movimentos subsequentes, para criarem seus próprios pequenos impérios, nos quais mentes suscetíveis à manipulação por meio da culpa e do medo acabam subjugadas, ao ponto de obedecerem incondicionalmente ao comando de qualquer idiota, desde que ele utilize o jargão oficial.

Refiro-me principalmente a esses ateus que veem no crente Bolsonaro algum tipo de virtude que lhes sirva.

Felizmente, esse tipo de ideia estapafúrdia está longe de ser unanimidade entre ateus. O que vemos é uma minoria apaixonadamente fanática e assemelhada àqueles pentecostais que falam deslumbradamente sobre como são ungidos os seus pastores e compartilham tudo o que dizem sem o menor escrutínio racional.

Só que agora, o diabo não mostra apenas o rabo, ele dá a cara toda à tapa. Bolsonaro assume que não é apenas um aliado casual desses crentes, mas um irmão de fé, isto é, um fiel da mesma categoria.

Sim, porque na semana passada, Jair Bolsonaro foi batizado em Israel, mais precisamente no rio Jordão, pelo ex-candidato à presidência, muito longe de arranhar qualquer possibilidade real de vitória em 2015, e líder do PSC (Partido Social Cristão), pastor Everaldo – o  mesmo que Luciana Genro se recusou a chamar de pastor durante os debates, porque aquilo ali não era igreja e ele não estava se candidatando a um cargo eclesiástico. Ri muito quando ela disse que não o chamaria de pastor durante o debate. Ri de quase rolar no chão.

Como sou um sacana de nascença, não resisti ao impulso de fazer troça com a foto do Bolsonaro sendo imerso nas águas do Jordão, e publiquei a seguinte legenda: “O TOC depois do cuspe.” Claro que eu fazia menção ao episódio na Câmara dos Deputados, quando o Deputado Jean Wyllys, num ato provavelmente impensado, mas com forte conteúdo simbólico, deu a Bolsonaro o que muitos gostariam de lhe ter dado há muito tempo: uma boa cusparada. Certo ou errado, deixo o veredito a cargo do tribunal facebookiano, que já andou se pronunciando sobre isso até em demasia.

Aliás, os ateus ignorantes, ingênuos ou mal-intencionados – como os classifiquei no início desse texto – que apoiam Bolsonaro, com ou sem ressalvas, geralmente caem na conversa caluniosa dos mesmos fundamentalistas e fascistas que vivem difamando Jean Wyllys e espalhando distorções para desacreditá-lo na internet. Felizmente, esses difamadores não enganam a todos, mas os que desejam tanto que tais falsidades sejam verdades caem prontamente na conversa desses amantes e praticantes da mentira, os quais, fosse verdadeiro o Apocalipse, receberiam de deus mesmo sua parte no lago de fogo e enxofre (Ap 22:15), mas isso também não passa de outra mentira.

Bem, depois de se alinharem com os fundamentalistas e outros conservadores do mesmo naipe em tudo isso, esses ateus ainda carregando os filhotes de velhas crendices vêm cinicamente fazer a conversa mole do Estado laico. Digo conversa mole, porque se fossem laicistas mesmo, veriam que entre Bolsonaro e Wyllys ou mesmo entre Wyllys e as bancadas evangélica e católica que o difamam, o verdadeiro defensor do Estado laico é Wyllys, não Bolsonaro – este último sempre acompanhado de seus comparsas fundamentalistas. Aliás, os mesmos que adorariam implantar uma teocracia no Brasil, tendo como vedetes do poder Feliciano, Magno Malta, Malafaia, e outros dos quais a maioria nunca ouviu falar.

E falando sobre Estado laico, vale a pena ler o texto de Wyllys sobre isso, intitulado “Carta do Deputado Jean Wyllys – uma ode ao estado Laico“, porque até isso esses fundamentalistas já tentaram embaralhar. Eles sabem que Jean nutre devoção pelos orixás e, devido ao seu ódio às religiões afro, esses pastorecos já alegaram que ele não defende o Estado laico, como se pudéssemos dar crédito ao que dizem pastores quando se referem às religiões afro, aos homossexuais e ao Estado laico, por exemplo. Esses caras são tão burros e mal-intencionados que não conseguem ver que um crente pode ser laicista, assim como um ateu pode colaborar com teocratas sem nem o perceber.

Aliás, esperam que os ateus colaborem mesmo com seu projeto teocrático de poder, pois o próprio Bolsonaro já citou os ateus, como se todos concordassem com ele quando falou sobre direitos LGBT, tentando atraí-los para suas causas fascistas.

Jean, porém, que não é ateu, respeita-nos profundamente como ateus acaba incomodando muito mais a essa corja fundamentalista do que muitos dos auto-declarados ateus que andam entre nós pelas redes sociais, mas que comem no mesmo coxo de preconceitos e outras formas de ignorância nos quais fundamentalistas religiosos e outros conservadores se refastelam.

porcos fascistas

Fato é que Bolsonaro, o ícone desses poucos ateus anômalos, porque criticam os ataques teocratas à laicidade do Estado, mas abraçam o crente Bolsonaro com todo seu ódio às liberdades civis, tem muita semelhança com outro ‘guru do absurdo’, ao qual alguns ateus também ouvem de bom grado. Trata-se de um tal de Olavo (Música, maestro Zezinho: Olavo à toa na vida / o meu amor me chamou / pra ver a banda passar / cantando coisas de horror – kkkkk).

A casa dos absurdos está sempre lotada de hóspedes e sempre tem lugar para mais gente, não é mesmo?

De qualquer modo, não consigo evitar a ideia de que Bolsonaro utiliza toda mídia possível, inclusive a negativa para ele mesmo, a fim de continuar no centro das atenções. Afinal, que outro motivo ele teria para ser falado, senão o escândalo? Quando foi que Bolsonaro fez alguma coisa construtiva pela nação? De fato, nunca! NENHUM projeto de lei aprovado na Câmara, apesar de duas décadas de gordas somas saídas dos cofres públicos para pagar o salário do Parlamentar mais falastrão e desnecessário do Congresso Nacional. Mesmo assim, ele conseguiu a façanha de eleger dois filhos que fazem o mesmo que ele: espalham o bolor de sua ignorância através dos cargos que ocupam e criam todo tipo de obstáculo aos avanços que possam dar ao Brasil uma cara menos subdesenvolvida, atrasada, especialmente do ponto de vista dos direitos civis, das políticas de inclusão e do combate ao preconceito, especialmente sexual, de gênero, racial e de classe.

Não se pode esquecer que na sessão que votou o impeachment da presidente Dilma na Câmara, Bolsonaro homenageou um sanguinário chamado Brilhante Ustra, um militar da época da ditadura que deveria fazer qualquer parlamentar que se preza se colocar prontamente na vanguarda da defesa dos direitos civis em seu mais amplo sentido. Mas não a esse parlamentar cristão chamado Bolsonaro. Ele fez  e continua fazendo exatamente o contrário. E quando as coisas começaram a ficar realmente muito ruins para ele, depois daquele ataque imperdoável à qualquer noção de decoro parlamentar, o que foi que ele fez? O que muitos bandidos – os mesmos que Jair Bolsonaro gosta de dizer que bom seria que estivessem mortos – costumam fazer: Ele se batizou.

Será que ele pensa que isso apaga aquela desgraça que ele fez/disse na Câmara dias antes?

Curiosamente, o nome de um filme que fala sobre o período da ditadura no Brasil, retratando alguns de seus horrores, é justamente “Batismo de Sangue”. Vejam a coincidência do nome…

Pois bem, Bolsonaro defendeu um homem que viabilizou de muitas maneiras esse batismo de sangue no país, e depois teve a ousadia de se submeter “piedosamente” ao batismo de água, ignorando (ou não) que nenhuma água lavará das mãos dos ditadores o sangue que eles derramaram durante a regime militar e nem a imundície de um coração que se manifesta asquerosamente cada vez que abre a boca para atacar as bases do Direito e da Democracia, seja na Câmara ou na mídia.

Ah, e tem mais uma coisa: Aquela cusparada purpurinada que ele tomou do deputado que ele chamava de boiola e de outros nomes igualmente depreciativos vai continuar brilhando e queimando a cara torta dele por muito tempo. E não vai ter água batismal que apague isso.

 

“Batismo de Sangue” (2007, 110 min, 14 anos) de Helvécio Ratton 

 

 

♥♥♥ Não poderia encerrar esse post sem dizer que felicito-me por aqueles ateus que outrora foram enredados pelo discurso fascista de Bolsonaro, Olavo e outros, mas que estão finalmente acordando e deixando esses “filhos de deus” no mesmo lugar em que deixaram os que são semelhantes a eles: nas profundezas de seu próprio inferno existencial, porque disso não tenho a menor dúvida: GENTE FELIZ NÃO ENCHE O SACO. ♥♥

Mais um outono…

Por Sergio Viula

mãe - dia das mães - 2016 - aniversário
Eu e minha mãe – hoje, 08 de maio de 2016

Geralmente, as pessoas se referem ao aniversário como mais uma primavera. Claro, a primavera é símbolo de renovação da vida. É nela que as flores preenchem as copas das árvores, muitos animais acasalam e – no hemisfério norte – o gelo derrete. É o fim da ‘morte’ para o renascimento nessa estação, com seu auge no verão.

Mas como nasci em maio, vou dizer que estou comemorando mais um outono. Estou pensando literalmente. Essa é a estação em que nasci e que amo. Gosto do outono e do inverno, porque não gosto do calor insuportável que sofremos no Rio de Janeiro, especialmente entre novembro e março. As temperaturas chegam e até passam dos 45º centígrados. É quente até na sombra. Até mesmo durante a noite. É de encharcar qualquer lençol, e isso sem qualquer atividade extra, se é que vocês me entendem. É só deitar para dormir que você fica banhado de suor nessa estufa. Felizmente, já inventaram o ar-condicionado, mas  isso tem seu preço. E é bem alto.

Bem, fato é que comemorei mais um aniversário nesse dia das mães (2016). E dessa vez, foi na casa de minha mãe, que sempre gosta de dizer que me trouxe para casa recém-nascido justamente no dia das mães, porque nasci numa quinta-feira, dia 08 de maio de 1969. Sim, 69 até na data de nascimento. Doce predestinação ou apenas uma gostosa coincidência? (rindo alto aqui)

Voltando à minha mãe, ela chegou com seu primeiro filho, um menino que inaugurava sua maternidade, mais tarde premiada com duas meninas. A casa estava toda florida e exalava amor e parabéns. Meu pai, todo bobo. Era seu primeiro filho. Tradicional até então, essa família mudaria muito daí em diante. ^^

Hoje, sendo dia das mães e meu aniversário novamente, minha mãe preparou duas lasanhas maravilhosas, pudim de leite condensado, gelatina, etc. Eu ainda levei dois frangos assados, coca-cola e sorvete de morango. Foi uma festa. Andre, eu, minha irmã Simone, meu pai e minha mãe passamos quatro horas batendo papo ao redor da mesa. A conversa rolou quase sem fim. Dali, fomos encontrar com minha outra irmã e minha cunhada. Sim, minha mãe tem um filho gay, uma filha lésbica e uma filha heterossexual. lol De repente, estávamos eu, Andre, minha irmã Katia e a namorada dela, minha mãe e meu filho, que tinha acabado de chegar da casa da mãe, conversando e comendo mais guloseimas – mais as meninas do que nós, na verdade, porque já estávamos  prá lá de cevados… (risos)

Minha mãe é crente e não perde tempo. Ora pela família, pela comida e até por gente que ela nem conhece espalhada por esse mundo. Eu sou ateu, mas tenho paciência e sei que ela faz isso com a melhor das intenções. Já fui assim também. ^^ Mas ela é uma das pessoas mais humanas que conheço e sempre digo que a igreja dela precisa mais dela do que o contrário. Se não fosse ela e mais alguns que vivem em amor genuíno, aquilo lá não prestaria nem para criadouro de Aedes Egypt. Mas isso é papo para outra hora.

andre - mãe - katia - eu
Andre, eu, minha mãe e Kátia – além de todas as guloseimas, minha irmã ainda comprou esse bolo na Parmê. Delicioso!

A moral da história é que viver é bom demais! Especialmente, cercado de amor. Que bom foi receber o amor da minha mãe (de novo), do meu pai, do meu filho, da minha irmã, da minha cunhada e do meu lindo marido, que até vídeo fez para mim hoje. Logo ele que não gosta de gravar ou aparecer em vídeos. Veja se não foi fofo aqui: http://www.foradoarmario.net/2016/05/mensagem-de-aniversario-do-meu-amor.html 

Aliás, estou comemorando com ele desde sexta-feira… hehehehe Fotos aqui: http://www.foradoarmario.net/2016/05/aniversario-em-dia-das-maes-e-igual.html

Agradeço a todos os que me enviaram seu carinho: ateus, religiosos, gays, trans, lésbicas, heterossexuais e uma pá de gente deliciosamente queer. Desejo que vivam intensamente cada momento e que sejam felizes por pelo menos 100 anos de vida! E tudo isso sem medo e sem culpa, porque não faz o menor sentido renunciar a terra, o corpo e tudo que esses dois podem fazer juntos.

Probably-No

 

 

 

Feitos de minerais e outras coisinhas

 

Por Sergio Viula

museu minas e metal
Museu das Minas e do Metal – Belo Horizonte (MG)

 

Domingo passado, o texto semanal do site Viulaateu não saiu. A razão foi justa. ^^ Estávamos, Andre e eu, visitando a família dele em Belo Horizonte e não levamos laptop. Acabei não publicando nada aqui, excepcionalmente, mas estive no Museu das Minas e do Metal, que é patrocinado pela companhia Gerdau – uma gigante dos minérios.

O museu é simplesmente lindo e extremamente bem equipado. Ao longo das diversas exposições, pudemos ver amostras de pedras preciosas, semipreciosas, minerais dos mais diversos tipos, inclusive com nomes que eu nunca tinha ouvido falar, metais considerados os mais preciosos e outros até essenciais para o funcionamento do mundo que criamos dentro do mundo que encontramos – essas coisas que chamamos de civilização e de cultura.

museu minas e metal entrada
Entrada do Museu das Minas e do Metal – Belo Horizonte (MG)

Havia muita coisa interativa. Uma das que mais me chamaram atenção foi uma balança que calcula a quantidade de minerais que compõem nosso organismo. A máquina calcula de acordo com o peso e altura de cada indivíduo. Alguns minerais, eu tinha em maior quantidade que Andre, outros, ele tinha em maior quantidade do que eu – o que parece demonstrar que a tal máquina funciona como um scanner, porque ela não utilizou um padrão tipo:

Menos peso ou menos altura = menos de todos os componentes minerais.

O resultado parecia realmente customizado, individualizado. Foi empolgante! Lembro que nos revezamos umas três vezes subindo e descendo, um após o outro, só para compararmos esse ou aquele mineral que nos chamasse mais à atenção.

scanner museu
Scanner de metais que compõem nosso corpo

Tudo isso instiga muitos pensamentos, é claro. Um deles é que somos filhos da Terra. Nossa linda e macia pele, nossos cabelos, nossos dentes, nossas cartilagens, as mais minuciosas conexões cerebrais, e as mais diversas reações químicas que nos constituem e nos modificam o tempo todo dependem dos elementos que também compõe pedras, solos, rios, etc. E tudo isso, por sua vez, veio de corpos extraterrestres: estrelas e asteroides. Talvez, outros também.

Outro pensamento é o de que somos produto de bilhões de outros seres vivos e seres não-vivos que existiram antes de nós. Hoje mesmo, eu acariciava o braço e a mão do Andre, enquanto tomávamos o café da manhã, e dizia mais o menos o seguinte:

“Como eu gosto dessa cor, dessa textura de pele, desse formato de mãos. E pensar que tudo isso só está aqui diante dos meus olhos, graças a tantos seres que já viveram e já morreram ou se formaram e se desfizeram.”

Ele ficou me olhando meio pensativo. Completei: “Ainda vou escrever sobre isso.” Não menti, como vocês podem ver.

Mas se ele estava ali diante dos meus olhos, graças a todos esses processos e incontáveis relações estabelecidas no seio da natureza, o cérebro que o enxergava e tocava por meio dos meus olhos e das minhas mãos também surgiu  e perseverou em seu ser, graças aos mesmos processos e relações, ainda que em combinações diferentes – o que resulta em nossas características – elas mesmas tão diversas entre si, mas igualmente humanas em toda sua complexidade.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA
Lentes que aumentam os minerais para melhor observação                                             Museu das Minas e do Metal – Belo Horizonte (MG)

 

Antes de encerrar, não posso deixar de mencionar que assim como somos configurados através da combinação de decompostos de outros seres que viveram antes nós (animais, vegetais, peixes, insetos, outros humanos), além de seres não-vivos, tais como as rochas, os sedimentos que compõem o solo, os raios que nos atingem por todos os lados vindos do espaço, etc, nós mesmos estamos transformando tudo através de nossas interações diárias, seja pelo uso, o consumo ou pela excreção (urina, fezes, etc.).

Além disso, nós mesmos entraremos em decomposição um dia, possibilitando combinações extremamente diversificadas dos elementos que antes nos compunham. Isso quer dizer que haverá outros seres vivos e não vivos surgindo, graças à desmontagem dessa configuração que hoje nos caracteriza e à subsequente reconfiguração dos elementos em formas e ambientes com os quais jamais sonhamos. E assim o universo, com sua grandeza macroscópica e microscópica, vai existindo em constante devir ainda que nós pensemos que tudo o que existe tenha sido sempre assim ou que permanecerá do jeito que o percebemos hoje. Nada poderia estar mais longe da realidade.

Tudo muda o tempo todo, mas a matéria da qual tudo isso parece que nunca deixará de ser, mesmo que seja em formas, cores, temperaturas e texturas muito diferentes das que testemunhamos em nossa curta e atormentada jornada existencial.

A mim, pessoalmente falando, tudo isso deslumbra e atemoriza.

Sinto-me deslumbrado com a grandeza de tudo o que experimento à minha volta e tudo o que percebo em mim mesmo.

Sinto-me atemorizado pela ideia de que tudo o que construímos ou viermos a construir poderá virar poeira de uma hora para outra, mesmo que isso leve milhões de anos para acontecer. Mas o que seriam alguns milhões de anos para o universo no qual habitamos – ele mesmo com 13 bilhões e 700 milhões de anos, de acordo com as pesquisas mais recentes?

A pergunta que eu mesmo poderia me fazer é: Por que, então, sigo em frente e continuo aproveitando todos os meios legítimos para ser feliz e viver uma boa vida?

Pelo mesmo motivo que as abelhas continuam coletando néctar todo dia, as aves continuam caçando seus insetos, os leões continuam patrulhando seus territórios e aumentando seus clãs. E que motivo seria esse? Porque é da minha natureza, por assim dizer. É parte da minha constituição. Não sei viver de outro modo. Além disso, não vejo outro modo de deglutir a parte que me cabe desse caldo denso a que chamamos de realidade. Pode parecer simplista, mas tem sido suficiente para mim assim.

E você, como se sente diante de tudo isso? Está de bem consigo mesmo e tentando tornar o mundo à sua volta um lugar mais bonito e vivível? Espero que sim.

Para falar a verdade, os minerais em você não ligam, isto é, não dão a menor importância para como você vive ou deixa de viver. Eles sempre estarão por aí. Mas tem muito bicho senciente que adoraria viver num mundo menos perturbado pela inquietação desse animal que anda causando problemas acima de qualquer média desde que aprendeu a andar sobre duas pernas, usar as mãos para mais do que coletar sementes e frutas, e desenvolveu a capacidade de expressão.

museu das minas e metais andre e sergio
Andre e eu depois de visitarmos o Museu das Minas e do Metal – 24/04/16.

 

 

Aparentemente, nós mesmos podemos ser mais felizes quando vivemos uma vida norteada por noções de justiça, bondade e beleza, associadas ao cultivo das paixões alegres e da apreensão de tudo o que aumente nossa potência sem devastar o que nos rodeia. Gosto de pensar que basta que sejamos minimamente inteligentes para desejarmos viver nossas vidas assim. Deixar de vigiar a vida alheia e começar a viver a nossa intensamente, inspirando outros a fazerem o mesmo. Vamos juntos nessa direção?