Uma teocracia geralmente não nasce nas urnas

Por Sergio Viula

 

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Foto publicada por O Sensacionalsita

 

Vez por outra, ouço ateus e religiosos moderados reclamando que o Brasil sofre muita influência de fanáticos teocratas. Isso geralmente acontece porque pastores se elegem como vereadores, deputados estaduais, deputados federais e senadores, graças ao seu poder de mídia e ao dinheiro fácil ao qual têm acesso com a mera sugestão de algum castigo para os resistente$ ou de recompensas para os obediente$. Isso já nos dá desgosto suficiente para não querermos o menor sinal de fanatismo religioso e do conservadorismo que lhe é típico em questões como ciência, cultura, comportamento, direitos civis, etc.

Só para ilustrar o que quero dizer com cada uma dessas áreas, listo abaixo alguns dos perigos:

Ciência: As bancadas fundamentalistas nos legislativos municipal, estadual e federal querem implantar o ensino da fábula da criação contada no Gênesis como ciência e impedir o ensino da teoria da evolução, amplamente demonstrada em diversas etapas da história geológica e biológica. A escola é apenas o primeiro alvo, pois o interesse é banir discussões legitimamente científicas do horizonte das

crianças e adolescentes, principalmente.

Cultura: Políticos fundamentalistas ou seus aliançados dificultam a realização de qualquer projeto cultural (cinema, teatro, dança, música, exposições de pintura e escultura, etc) que questionem seu modo de ver ou de viver a vida. São arqui-inimigos da livre expressão e das artes que contemplam os prazeres do corpo e a autonomia humana. Nesse nicho, entra a censura sobre a TV, a internet, o cinema, etc. Imaginem se eles alcançam o poder que lhes permita dizer não a tudo isso! Empobrecimento total da nossa cultura. Até com dia do folclore os caras implicam.

Comportamento: A mera menção ao uso de camisinhas no combate a DST/AIDS e à gravidez indesejada, por exemplo, já põe em linha de ataque os fundamentalistas e suas marionetes no poder. Não nos esqueçamos que os fundamentalistas islâmicos implantaram sistemas de opressão em lugares onde havia relativa liberdade para mulheres, crianças, pessoas LGBT, e pessoas que tinham estilo de vida alternativo, muitas vezes consideradas como ‘tribos urbanas’. A depender dos fundamentalistas cristãos, até tatuagens podem servir de pretexto para exclusão social. E isso é sério. Não estou inventando. Uma simples busca em sites gospel sobre tatuagens mostrará como esses neuróticos demonizam tudo e todos. Você não estará livre de cair em algum ponto da malha fina deles.

Direitos Civis: A luta por direitos civis para todos nunca foi uma pauta dos fanáticos. Eles apoiaram a escravidão, são contra a liberdade religiosa quando esta se aplica a outras religiões que não as de linha cristã, odeiam o discurso de emancipação feminina, odeiam o discurso de emancipação LGBT, foram contra todos os direitos que contemplavam a igualdade no casamento, foram contra o direito ao divórcio, contra a inserção da mulher no mercado de trabalho, contra a adoção por solteiros ou casais homoafetivos, assim como contra outros direitos vitais para a vida das pessoas lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros, costumam se alinhar com as bancadas do boi e da bala, isto é, a bancada que defende os latifúndios, em vez da distribuição de terras cultiváveis para famílias de agricultores sem-terra, que poderiam viver delas e gerar riquezas para o país, barateando o que chega às nossas mesas. Essa bancada também é a que facilita o desmatamento na Amazônia e o massacre de índios por ‘grileiros’ (gente que vende terras que pertencem ao Estado). E por bancada da bala, quero dizer os deputados que apoiam o armamento da população, mesmo sabendo que os níveis de violência tenderão a aumentar, já tendo sido feito plebiscito sobre isso pelo próprio Congresso, e o povo tendo dito não ao armamento. A bancada religiosa também vota contra os direitos dos trabalhadores, apoiando o afrouxamento desses direitos para favorecer empresários em detrimento de quem precisa trabalhar com carteira assinada. E por aí vai.

Saúde: Fundamentalistas têm obstruído diversas iniciativas do governo com relação à saúde pública, especialmente quando se tratam de DST (doenças sexualmente transmissíveis. Bolsonaro e seus pastores amestrados criaram verdadeiras celeumas quando o Ministério da Saúde distribuiu cartilhas de prevenção às DST/AIDS entre profissionais do sexo. Gostaria de lembrar aos senhores e às senhoras que leem esse artigo que quando o governo federal lançou a campanha de vacinação contra HPV entre meninas adolescentes, os fundamentalistas deflagraram uma onda de difamação contra aquela iniciativa, colocando em risco a vida de meninas e (futuramente) de meninos e dos filhos que vierem a ter. Sobre isso, recomendo muito que vejam esse vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=AK81krhL9rw

Mas como eu disse no título, dificilmente uma teocracia seria implantada no Brasil por meio das urnas, ainda que o número de fundamentalistas tenha crescido nas últimas eleições. Sabendo disso e estando sedentos pelo poder que lhes permitiria implantar toda essa agenda anti-Estado-de-bem-estar-social, fundamentalistas aderem facilmente a qualquer golpismo que possa colocá-los numa posição de protagonistas da implosão de programas que possam fomentar as liberdades civis, as igualdades, e criar oportunidades de emancipação para a população, porque um manipulador de mentes não poderia sobreviver se as mentes que ele manipula decidissem se tornar autônomas de repente.

Infelizmente, não posso aplaudir o governo Dilma. Em vários aspectos, ela condescendeu com seus traidores. Ela deixou Haddad sozinho naquela crise o programa Escola sem Homofobia, maliciosamente gerada pela bancada evangélica em cumplicidade com Jair Bolsonaro. Felizmente, Haddad não recuou totalmente. Teve que se retratar por ordem da chefe, mas quando ganhou a prefeitura de São Paulo nas urnas, apoiou diversos projetos que visam a garantir os direitos da população LGBT de São Paulo. Tiro meu chapéu para ele nesse quesito. Mas, apesar de ter diversas críticas ao governo Dilma, especialmente quanto à condescendência para com esses conservadores carregados de crimes nas costas, preciso manifestar minha preocupação.

Nesse dia 17 de abri de 2016, dia em que será votado o impeachment da presidenta Dilma, legitimamente eleita por cerca de 54 milhões de votos, e não tendo cometido qualquer crime de responsabilidade, temo que esses picaretas perigosíssimos consigam finalmente chegar onde sempre sonharam e desmantelar o pouco que já conseguimos construir. Num país de gente esclarecida, nenhuma mulher, ou cidadão ateu, ou religioso equilibrado, ou LGBT, ou negro, ou adepto de religiões não-cristãs, ou trabalhador que dependesse da garantia de direitos trabalhistas até para sobreviver a uma doença (muitas vezes contraída no trabalho, inclusive) – NENHUMA dessas pessoas – seria favorável a esse golpe. Soubessem elas o que está de fato por trás do muro, elas nunca colaborariam para sua derrubada. Se esses gangsters carregados de crimes lá na Câmara dos Deputados, bem como seus aliados fundamentalistas igualmente sujos conseguirem o que querem, o choro será livre, mas nunca será grátis. O preço será altíssimo.

Espero que prevaleçam o bom senso e a justiça. Que Dilma fique. E que nas próximas eleições, o mesmo povo que votou contra ou a favor dela em 2015, vá as urnas e diga soberanamente o que quer. Que não tenhamos nossos processos democráticos mais preciosos pisoteados e cuspidos por gente que já deveria estar na cadeia há muito tempo.

 

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Sempre se pode dizer algo, mas é mesmo preciso?

Por Sergio Viula

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Isso foi o que eu pensei quando sentei para escrever a coluna desse domingo, pois ainda que pudesse haver o que se dizer, quem nos garante que o dito será entendido em sua integridade? Dificilmente. Cada ouvinte ouve uma versão do que foi dito, muitas vezes contradizente ao que era a intenção do falante ou pelo menos diferente – o velho ‘nada a ver’.

Sempre há o que dizer, mas será que é mesmo preciso que o digamos?

Mais do que isso: O que ainda resta dizer que não tenha sido dito? Parece que tudo é mera repetição parafrásica. A impressão que tenho é que não há ineditismo. Pode haver modos criativos de se reorganizar o que já foi dito ou pensado por outros. Não seria o caso de chamarmos de inovador simplesmente o que (já) foi dito ou feito de um modo não convencional? Sim, porque aquilo a que chamamos de inovação parece apenas uma maneira não habitual de se dizer ou fazer as mesmas coisas.

Nesse final de semana, decidi não ficar quebrando a cabeça só para tentar dizer algo novo no post desse domingo, porque novo – ah! – isso é que não seria mesmo… E depois, porque já tem tanta gente dizendo tanta coisa que talvez o silêncio seja o item mais valioso hoje.

Então, por agora, ficarei quieto até que um novo impulso para dizer algo, por mais “batido” que seja, venha a me motivar a correr o risco de repetir a mim mesmo, de repetir os outros, de ser mal interpretado, e por aí vai. Nada disso (também) é novidade.

De qualquer modo, é na repetição parafraseada de enunciados nossos ou de outros, e nas maneiras inesperadas de dizê-los que acabamos ativando os processos mentais que nos movem nas direções que tomamos diante das questões que a vida parece colocar diante de nós. Na verdade, algumas dessas questões nada mais são do que imaginação nossa (nós as colocamos ali) ou interpretação arbitrária e superdimensionada do que acreditamos ser a realidade.

Então, nesse domingo, faço votos que todos tenham um dia maravilhoso! Com ou sem muitas palavras.

rabujento

Nada inédito nessa frase também, mas é sincera^^. 

Ceticismo não faz mal a ninguém

Por Sergio Viula

ceticismo

Muitas pessoas têm medo da dúvida. Na realidade, a dúvida é um estado mental bastante incômodo para o ‘preguiçoso’ cérebro humano. Os processos cerebrais envolvidos no ceticismo – esse procedimento intelectual de dúvida permanente e de abdicação, por inata incapacidade, de uma compreensão metafísica, religiosa ou absoluta do real – podem ser desgastantes, mas nos poupam de muitas armadilhas ao longo da existência: fanatismo, comportamento sectarista, sujeição da razão à ‘autoridade’ da tradição, etc.

Algumas dicas úteis podem ser encontradas no site www.infidels.org. Compartilho uma singela lista abaixo, mas sugiro que cada um procure mais informações sobre cada uma:

  • Comportamento moral vai muito além de seguir regras sem questionamento.

  • ser bom

  • É preciso ser especialmente cético sobre alegações positivas – aquelas que pretendem explicar como as coisas funcionam ou como devem ser.

  • positivismo

  • Se você deseja que sua vida tenha algum tipo de sentido, vai depender de você encontrá-lo ou criá-lo.

  • sentido da vida

  • Procure pelo que é verdadeiro, mesmo que isso o deixe desconfortável.

  • verdade incômoda

  • Faça o máximo de sua vida, pois ela é provavelmente a única que você terá.

  • steve jobs sonhos

  • Não adianta confiar em algum poder externo para mudar você; você tem que mudar a si mesmo.

  • metamorfose

  • Só porque alguma coisa é popular, isso não significa que seja boa.

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  • Se você supuser alguma coisa, suponha algo passível de teste.

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  • Não acredite nas coisas só porque você quer que elas sejam verdade.

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E finalmente (e mais importante):

  • Todas as crenças devem estar abertas ao questionamento.

  • religiões mundiais