Livre do sobrenatural

Por Sergio Viula

amuleto

Dificilmente, um ateu passará muito tempo incógnito. Basta que ele esteja entre dois ou três religiosos conversando casualmente para que alguém lhe faça a famosa pergunta “qual é a sua religião, fulano?” Outra bastante comum é “qual é o seu signo?” Quem é ateu há pelo menos dois meses (risos) já deve ter sido confrontado com essas “oportunidades” de dizer que não acredita em coisas sobrenaturais, desencadeando um tsunami de perguntas.

Particularmente, não me incomodo em responder esses questionamentos. Geralmente, são fruto de genuína curiosidade por parte da maioria das pessoas. Essas “oportunidades” também acabam servindo para dar às pessoas que fazem essas perguntas a chance de encararem as coisas que sempre tomaram por garantidas, só que de um ponto de vista diferente – o que pode colocar em xeque algumas dessas certezas fundamentadas em tradição e imaginação. Agora, é importante que se diga que não ganhamos nada se nos colocamos numa posição arrogante, mesmo que a pessoa religiosa fique na defensiva.

Mas, cá entre nós,viver livre do sobrenatural não tem preço. E quando digo, “sobrenatural” não estou assumindo que ele exista, e que eu simplesmente o negue por algum tipo de conveniência ou pirraça. Não mesmo. Digo que é muito bom viver livre do sobrenatural enquanto ideia. Não vejo motivo para crer que exista algo para além da natureza, para além da matéria e das relações de força que constituem os seres vivos e os não vivos, seja qual for a configuração em que eles se apresentem. Viver supersticiosamente pode não fazer muita diferença, dependendo do grau de envolvimento ou submissão à superstição, mas pode ser perigosamente nocivo quando cria relações de profunda expectativa, compulsiva dependência ou até mesmo medo irracional naquele que a nutre.

Tem coisa melhor do que viver tudo de bom que a vida oferece sem medo de “olho grande”?

Não é libertador saber que aquilo a que eu chamo de mal (doença, acidente, perdas financeiras, etc.) são apenas encontros entre corpos que resultam em algum tipo de desvantagem para um deles – no caso, o meu – e que podemos encontrar soluções reais para muitos deles se não ficarmos esperando pela “Providência”, mas colocarmos nossa inteligência, experiência e conhecimento a serviço do avanço científico e tecnológico ?

Isso não nos poupa tempo, dinheiro e até otimiza as possibilidades de superação de problemas? Quanta gente perde bens e até a vida por não agir de modo racional, prático, inteligente, em vez de se buscar soluções mágicas para seus problemas? Muita gente deixa de ser definitivamente curada, porque em vez de ir ao médico tratar de uma doença ou mal-estar, toma a “garrafadas”, submete-se a passes, rezas, orações, “internações em casas de assistência espiritual”, “correntes de fé”, “fogueiras santas”, vigílias nos montes, faz ofertas para além de suas posses numa tentativa de demonstrar fé para obter alguma “graça”.

Não é maravilhoso poder receber um presente sem ficar se perguntando se ele foi “trabalhado” para o mal? Quanta gente deixa de curtir um essas coisas, sejam elas de comer, de beber, de vestir ou até de decorar a casa, porque pensa que o objeto está amaldiçoado? E sobre isso, vale dizer que não me importo em ter peças decorativas com motivos religiosos. Para mim, não passam de arte. Por exemplo, existem obras de arte baseadas na tradição católica que são de tirar o fôlego de tão lindas! Fotos, imagens e lendas relacionadas aos orixás do Candomblé também me encantam. O budismo e outras religiões orientais estão nessa lista, sem dúvida. Mas, todos esses objetos religiosos estão para a a vida prática assim como um quadro de Van Gogh ou uma escultura de Michelangelo, guardadas as devidas proporções no campo da crítica de arte, é claro.

Não é fantástico saber que mesmo que alguém esteja gastando seu tempo e dinheiro para fazer alguma dessas supostas mandingas, isso será tão eficaz contra mim quanto o desenho do sol que uma criança faz na esperança de que a chuva vá embora e ela possa brincar no quintal? Quantas vezes fiz isso como criança! Mas não fazia a menor diferença. Chovia quando os elementos naturais favoreciam a precipitação pluvial, e fazia sol quando não havia nuvens carregadas. O mesmo se dá com as mandingas. Quando a pessoa-alvo continua bem, dizem que seu santo é forte ou que ela está bem “acompanhada”. Mas quando essa mesma pessoa passa mal, pensam os supersticiosos que a mandinga funcionou – nada diferente do sol ou da chuva pintados no chão…

Na realidade, muitas pessoas que não abrem mão da “proteção” das crenças, superstições, deuses e seus diversos gurus, incluindo padres, pastores, rabinos e imãs, vivem como quem abre um guarda-chuva para se proteger das tempestades da vida, sem se dar conta de que são esses mesmos guarda-chuvas que alimentam em sua imaginação as intempéries que elas temem. O dia lá fora pode estar maravilhosamente ensolarado, mas o que deveria proteger contra uma tempestade, que talvez nem venha a se precipitar, é exatamente o que causa, por antecipação ansiosa e sem a menor necessidade, essa sensação de tempestade.

guarda-chuva religião

O zodíaco e os mapas astrais também são uma invenção divertida quando não são levados a sério. A maioria das pessoas ignora que as características de cada signo combinam e não combinam com cada um dos indivíduos supostamente nascidos sob uma determinada constelação, mas as pessoas costumam prestar atenção ao que coincide com elas e desprezar o que não combina. Assim, elas protegem a crença diante de um possível questionamento cético. Triste é ver gente deixando de trabalhar em certos lugares, namorar certas pessoas, comprar determinada residência e coisas semelhantes, porque a previsão do zodíaco para aquele dia diz isso ou porque os signos dos envolvidos não combinam.

Alguns poderiam argumentar que uma vida sem crença perderia a graça. Mas, garanto que não há coisa melhor do que saber que estamos por nossa própria conta, mesmo que não possamos controlar todos os fatores e/ou variáveis – se é que podemos controlar algum, afinal.

Na verdade, vivemos de probabilidades que frequentemente nos apresentam oportunidades, as quais podem gerar alegria ou tristeza, prazer ou dor (às vezes, os dois juntos), e não temos como saber de antemão quais dessas probabilidades-oportunidades produzirão os maiores índices de felicidade em nossa vida e na vida dos que nos rodeiam. E nenhum recurso ao suposto sobrenatural nos ajudará nesse sentido. Podemos até nos iludir, pensar que isso faça alguma diferença, mas se fizer é só em nossa cabeça, e nem isso é garantido. Não há deus, deusa, signo, mandinga, prece ou congênere que possa garantir ou impedir coisa alguma que não façamos por nós mesmos, ainda que acreditemos que eles nos ajudaram ou ajudarão.

Muitos pensam que isso seja lamentável, mas pode ser justamente o contrário: viver bem pode começar com a abolição de tudo isso, partindo para o enfrentamento da vida energizados por aquela resistência que inclui inteligência, amor e bom humor – tudo isso muito natural, diga-se de passagem.

amor einstein
O amor é a resposta

 

 

A festa do coelho et cetera

Por Sergio Viula

jessica and roger rabbit - páscoa

 

Minha gente, que roubo estão os ovos de Páscoa! Como podem ser tão abusadas essas fábricas de chocolate e seus revendedores? Tem ovo mixuruca de 50 reais. Você abre o pacote, tira o suporte de plástico que mantém o ovo em pé, e só sobra uma fina casca de chocolate, que poderia custar uns cinco ou seis reais, caso fosse transformada em barra. Tudo isso é uma descarada exorbitância!

Mas, claro. A famosa lei da oferta e da procura, associada aos quase monopólios ou verdadeiros cartéis no mercado de chocolates faz com que essa mistura de cacau custe o mesmo que ouro. Só que não vale nada se comparada ao precioso metal e o que se pode fazer dele.

Os mais religiosos dirão: “Ah, mas chocolate não tem nada a ver com a Páscoa. Ela tem a ver com a morte e ressurreição de Jesus.”

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Eu direi: Seimmm, mas você já parou para pensar que a Páscoa cristã é uma atualização da Páscoa judaica – a original?

Sim, porque a Páscoa era uma festa exclusivamente judaica. Tinha a ver com a suposta saída do povo de Israel das terras do Egito. Digo suposta, porque não há prova alguma de que os judeus tenham vivido no Egito. Supreso(a)? Não fique. Sabe quais são os únicos textos antigos que afirmam que os judeus viveram no Egito? Acertou! Os textos bíblicos, ou sejam, os textos religiosos dos próprios judeus.

Não há nada de romântico na Páscoa em si. Páscoa é a noite da passagem. E não é a passagem dos judeus para fora do Egito, como pensa o cristão mediano. Era a passagem de um anjo assassino, enviado por deus, sobre a casa dos judeus sem ferir o primeiro filho homem de cada família hebreia. A condição para isso? Marcar os umbrais das portas com sangue de um cordeiro macho sem defeito. Imagina quantos cordeiros foram sacrificados só para fazer essa marcação. A própria Bíblia diz que deus conhece os seus, mas se o anjo não visse a borra de sangue na porta, ele mataria obstinadamente o coitado do primeiro filho daquela família, fosse qual fosse sua idade.

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Perto do assassino serial chamado anjo da morte no Egito, Chucky é ‘café pequeno’.

Todos os primogênitos dos egípcios teriam sido assassinados naquela noite. A Bíblia diz que o anjo não passou por sobre aquelas casas, mas entrou nelas e feriu de morte o desafortunado que nasceu macho e teve o azar de ser o primeiro.

Se assumirmos que trata-se de uma história real, a coisa fica bem constrangedora para o caráter de um deus supostamente justo e amoroso. Afinal, um ato desses não é justo. Muito menos, amoroso. E isso sob qualquer ponto de vista.

Se aceitarmos que trata-se de uma fabricação, ainda assim a Páscoa continua atrelada à chacina de criancinhas, jovens, adultos e velhos egípcios que deram o azar de serem homens e os primeiros da linhagem de seus pais.

Mas, não pára aí.

O Novo Testamento, essa releitura do judaísmo ortodoxo para a incluir pessoas de todos os povos – aqueles que outrora os próprios judeus consideravam imundos – vai complicar as coisas um pouco mais. Agora, não é o filho de Faraó que é morto por um anjo sanguinário sob as ordens de um deus que deixa qualquer assassino em série no chinelo, pelo menos no suposto episódio da noite da Páscoa no Egito. Não se trata mais do primogênito de Faraó, mas o unigênito de deus. E não é um anjo que o mata, são os homens. Ele também não é egípcio ou romano (os dominadores da vez), mas um judeu entregue à morte por seus próprios compatriotas. Se os judeus queriam que crêssemos que o sangue dos egípcios foi a última cartada para que Faraó liberasse a saída dos judeus, os cristãos querem nos fazer crer que o sangue de Jesus foi o preço para a nossa libertação.

Mas, espere um minuto…

Que mania é essa de se pensar escravo precisando ser liberto? Minha gente, vocês nasceram e morrerão livres! Tão livres que podem até escolher se submeter a um ou mais senhores. Jesus, querendo dedicação exclusiva, usa a seguinte lógica:

Mateus 6:24: “Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará um e amará o outro, ou será leal a um e desprezará o outro.”

Essa declaração parte do princípio de que teremos que servir a alguém. Ou servimos a deus ou às riquezas – essa é a continuação do versículo. Só que não temos que servir a NINGUÉM. Podemos nos realizar plenamente dando curso ao que somos capazes de fazer a partir de nossas próprias capacidades, respeitando nossas próprias limitações, sem nos conformarmos com contingências que podem ser superadas a partir de nosso potencial criativo.

 

liberdade salto

 

Sim, é fantástica a nossa capacidade de amar, criar, desfrutar de inúmeros prazeres produzidos por intrincadas interações neurais a partir de minuciosos e espetaculares processos bioquímicos, a partir das interações estabelecidas entre nossos corpos e outros. E isso em diversos níveis ou direções: desde a alegria de degustar nosso alimento favorito, seja ele comida ou bebida, até uma simples caminhada por um arvoredo, ou fazer amor gostoso com quem a gente deseja.

Ora, nossa felicidade repousa exatamente em realizar todo o nosso potencial a cada momento vivido e com cada ente com o qual interagimos, seja ele mineral, vegetal, animal ou humano (este não deixando de ser animal também), seja no plano virtual ou no real, no abstrato ou no concreto.

Então, foi uma boa coisa que tenham colocado coelhos e ovos de Páscoa no meio dessas carnificinas que os sacerdotes nos apresentaram como sagradas – no Egito e em Jerusalém – antes mesmo que aprendêssemos a falar.

Mas, façamos jus aos fatos: o coelho e os ovos também faziam alusão à fecundidade que se esperava da terra na primavera, celebrada justamente nessa época nos países nórdicos, onde o inverno lhes parecia a morte do planeta e a primavera, a renovação da vida. Alguns desses povos, porém, nem imaginavam que as estações fossem invertidas de um hemisfério para o outro.

Nenhum problema em comer ovos de chocolate e outras guloseimas feitas com cacau, exceto pelo preço. Gente, dá para comprar um quilo de bacalhau ao preço de certos ovos. E estou sendo modesto, porque tem ovos custando mais do que essa faixa de 50 a 80 reais. Só que esses ovos pesam apenas 150 gramas, ou seja, 15% do que se poderia comprar daquela fina iguaria dos mares do norte.

 

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Procissão do Senhor morto.

 

Bem, penso que nós, ateus, devemos respeitar as pessoas religiosas em seus ritos pascais. Não as incomodemos. Que acendam suas velas, façam suas orações, rezem suas missas, tomem suas eucaristias/ceias, façam suas novenas e procissões. Não há problema algum. Façamos o possível, porém, para aproveitarmos o feriado ao nosso modo. Há muitas coisas ótimas que podemos fazer: de leituras e passeios ao mais ‘caliente’ amor com a pessoa que amamos.

 

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Páscoa judaica

Pessoalmente, essa Páscoa vai ser especialíssima para mim. Entre o carnaval e a Páscoa, passei uma verdadeira quaresma longe do meu amor, mas ele chega na sexta-feira da paixão.

Apesar da coincidência no termo ‘paixão’, a semântica é bem diferente. No caso da sexta-feira da crucificação de Jesus, paixão quer dizer sofrimento. Portanto, sexta-feira da paixão é literalmente a sexta-feira do suplício. Paixão aqui quer dizer sofrimento, dores.

Porém, no meu caso, paixão significa outra coisa. Recorro ao dicionário léxico de português online para esclarecer seu sentido:

“Sentimento profundo e intenso que possui a capacidade de alterar o comportamento, o pensamento, a postura, entre outras; amor, carinho, alegria ou desejo demonstrado de forma extremista.”

Por isso, a sexta-feira, 25 de março de 2016, será da paixão para mim num sentido extremamente feliz: meu amor vem de Belo Horizonte para finalmente comungarmos do que a vida nos oferecer agora e doravante, bem como do que conseguimos construir a partir do que ela nos apresentar. Não será só mais um feriado vivido no afã de aproveitar o máximo, porque logo acabará. Será a inauguração de uma nova fase. E não será nem preciso esperar domingo para falar em renovação da vida. A renovação será na vai que.jpgsexta-feira mesmo, porque o amor pede passagem.

Mas e se alguém não está apaixonado? Fazer o quê?

Faça algo que você curta. Se ficar só nisso, já será lucro. Mas ainda pode ser que o amor te surpreenda. Vai que…

 

 

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SUGESTÃO DE LEITURA:

O 10 GRANDES PROBLEMAS DA BÍBLIA: 

http://www.foradoarmario.net/2011/09/10-grandes-problemas-da-biblia.html